FEIRA EM HISTÓRIA

As três datas mais importantes de Feira, segundo Joselito Amorim

20/11/2017, 13:45h

Ex-vereador e ex-prefeito, o nonagenário professor Joselito Falcão de Amorim defende, em artigo assinado em 2015, que são três as datas mais importantes de Feira de Santana e não apenas uma – 18 de setembro de 1833, que a Câmara Municipal oficializou como o Dia da Cidade. Amorim entende que o Poder Legislativo seguiu apenas a orientação de Monsenhor Renato de Andrade Galvão, ex-pároco da Catedral Metropolitana e estudioso da história da cidade. E sugere uma ampla discussão sobre o assunto envolvendo pesquisadores, historiadores, professores da área, além da universidade com seu curso de História. (Adilson Simas)

A FEIRA E SUAS DATAS

Joselito Falcão  de Amorim 

*Ex-prefeito de Feira de Santana

Compelido pelo amor à Feira, impulsionado pelo trepidar do coração, e, pelo fervilhar do sangue, depois de muito meditar, resolvi finalmente abordar alguns temas, que de há muito me atormentam a alma e que não posso e não devo deixar de externa-los. Se bem que procuro respaldo, olho ao redor de mim e não encontro.

Não sendo pesquisador, professor de história, jornalista, arquiteto ou engenheiro, como tecer comentários em áreas específicas e merecer crédito? Observo a sabedoria de alguns adágios populares: “Cada macaco no seu galho” e “Quem não quer se molhar não vai para a chuva”.

Seja como for, mereço ou não fé, afirmativas ou indagativas, lanço-me à arena. Antes, porém, um esclarecimento: não desejo melindrar ou ofender a quem quer que seja, são meros comentários desprovidos da pirotecnia. Se não úteis hoje, poderão ser no amanhã.

O comentário de hoje diz respeito às datas de Feira de Santana.

Assistí a uma conferência de um grande mestre feirense, que dissertou sobre a vida e obra de Monsenhor Renato Galvão. Belo trabalho, digno de aplausos e concordância de todos.

Conheci Galvão nos idos de 1965, quando aqui chegou como pároco da Catedral de Santana. Não fui cumprimentá-lo porque não soube da sua posse, porém o recebi logo depois na Prefeitura. Qual não foi o susto, quando ele com aquele vozeirão, ao cumprimentar-me afirmara que era meu colega três vezes.

Perplexo fiquei: “- Eu padre! Não!” – Afirmara: “– Prefeito, professor e inspetor federal”. Aí voltei à realidade: Ele acabara de renunciar a Prefeitura do município de Cícero Dantas e estava reiniciando suas atividades religiosas em Feira. Tudo correto: Prefeito, Professor e Inspetor de Ensino.

Convivi pouco com Galvão, logo depois em 1967, transferi-me para Salvador, a fim de colaborar com o Governador Luiz Viana Filho, o que não impediu que observasse o seu belo trabalho, principalmente na área social e acadêmica.

Quando da criação da Universidade Estadual de Feira de Santana, na constituição do Conselho Universitário, o Governador Luiz Viana Filho pediu-me que indicasse dois nomes para compor o mesmo e eu o fiz: Monsenhor Renato Galvão, pela sua competência e interesse por Feira e a Professora Maria da Hora Oliveira, titular da cadeira de Metodologia, pelo seu valor e em homenagem à Escola Normal.

Voltemos ao conferencista. Após longa e bela explanação, ao concluí-la, afirmou que dentre outros fatos importantes realizados em Feira por Monsenhor Galvão, corrigiu um grande erro histórico, pois a cidade estava comemorando erradamente sua maior data, a 16 de junho (data da elevação da vila à categoria de cidade).

Com seu prestígio conseguiu que a nobre Câmara Municipal adotasse a data correta, 18 de setembro (data da primeira sessão do Conselho Municipal) criado com a vila de Feira, por Decreto Imperial, por sinal sessão realizada na igreja. Concluo daí a preferência do Monsenhor Galvão.

Tenho lido sobre o assunto, consultando mestres: Rollie Poppino, Pedro Tavares, Raimundo Pinto, Oscar Damião e o próprio Monsenhor Galvão e fontes outas, donde concluí que Feira de Santana tem três datas importantes:

1 – 13 de novembro de 1832 – assinatura do Decreto Imperial que criou a Vila de Feira de Santana, desmembrando-a da cidade de Cachoeira, por sinal com 12 mil km quadrados.

2 – 18 de setembro de 1833 – data da realização da primeira sessão da instalação do Conselho Municipal (prevista para 6 de agosto, adiada para o dia 14 e finalmente realizada no dia 18 de setembro).

3 – 16 de junho de 1876 – data da lei que elevou a Vila à categoria de Cidade.

Como se vê, são três datas importantes e como tal devem ser referenciadas. A minha discórdia é quanto à afirmativa de ser “18 de setembro a mais importante”. Todas elas o são. Embora nossa Câmara Municipal tenha seguido a orientação de Monsenhor Galvão, ponho o assunto em discussão, nas mãos de pesquisadores, historiadores e professores da área, que melhor do que eu, têm condições de opinar. Hoje temos uma Universidade com curso de História, não seria importante que a mesma fizesse uma reflexão sobre o tema?

Admito que possa estar errado, e, como tal procuro argumentos convincentes...

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"Lucas da Feira" sob a ótica do historiador Hélder Alencar

13/11/2017, 15:21h

Desde o seu enforcamento há 168 anos, na primavera de 1849, Lucas Evangelista dos Santos, o Lucas da Feira, tem dividido a opinião dos estudiosos. Ladrão sanguinário para uns, para outros um defensor da justiça social. Há 40 anos, em 1977, o jornal A Tarde brindou seus anunciantes, assinantes e leitores com um texto assinado pelo advogado, historiador e jornalista Hélder Alencar sobre o escravo que se tornou um dos personagens mais conhecidos da história de Feira de Santana. Vale a pena relembrar.

Mitos e lendas: estórias que falam sobre Lucas da Feira

Hélder Alencar

Na manhã de 25 de setembro de 1849, conta a estória, uma nuvem de gafanhotos caiu sobre a Feira de Santana, sobre esta Feira de Santana de tantas coisas. Naquela manhã, era enforcado Lucas Evangelista dos Santos, Lucas da Feira

Mas Lucas não é estória. É história. Incorporou-se, definitivamente, à História da Feira de Santana, cidade onde nasceu, viveu, sofreu e empreendeu toda sua luta, na defesa de sua raça, da raça negra, então oprimida, vilipendiada e escravizada.

Era contra a opressão da raça que se levantava Lucas Evangelista, nascido de dois escravos gêges, Inácio e Maria, ele próprio escravo, de três senhores, primeiro da rica proprietária de terra, Antônia Pereira de Lago, depois por morte desta, de um seu sobrinho, o padre José Alves Franco e, finalmente, do alferes José Alves Franco.

Inconformado com sua condição de escravo, Lucas conseguiu fugir aos 20 anos, fugir, não se libertar, pois não viu a abolição da escravatura, ocorrida anos depois do seu enforcamento, em patíbulo armado no fim da Avenida Senhor dos Passos, onde hoje se ergue o Cine Iris.

Para lutar contra a escravatura, Lucas forma um grupo de 30 homens, onde despontava Nicolau, Flaviano, Bernardino, Januário, José e Joaquim. Grupo inclusive que, segundo um estudo recente, de um teólogo português, no livro “Formação do Catolicismo Brasileiro”, influenciou para que a religião católica fosse praticada pelos negros. O seu quilombo é, hoje, considerado fundamental para a disseminação do catolicismo entre os negros.

Foi intensa a luta do bravo negro. Nascido em 18 de julho de 1807, Lucas saiu para a vida de lutas vinte anos depois, em 1827, quando conseguiu romper os grilões que o prendiam aos senhores donos de escravos.

E durante vinte e um anos, até a sua prisão, nas matas de Santana da Feira, em janeiro de 1848, Lucas Evangelista dos Santos lutou, combateu, enfrentou, desconheceu o medo e covardia, na defesa de sua raça.

“Negro superior com qualidades de chefe”, como bem afirmou Nina Rodrigues. Lucas tornou-se um homem diferente da maioria. Não se amoldou as circunstâncias, nem se adaptou ao regime escravocrata. Reagiu e lutou, liderando companheiros de raça.

A sua revolta não nasceu de um ato individual. A sua luta teve um sentido coletivo e social na defesa de uma raça, a sua raça, na redenção dos negros.

E justamente por isso Lucas não morreu. Está aí, desafiando mais um século, cantado pelos poetas do povo, analisado em tantas obras.

Claro que sua luta, destemida e incessante, passou a incomodar os senhores de terras, os ricos portugueses, donos dos escravos, que tratavam de unir-se contra ele, com uma palavra de ordem, violenta e definitiva: Lucas tinha que morrer.

E assim, nos fins do ano de 1847, a caçada intermitente começou, com crueldade, subornos e traições que jamais fizeram parte do humilde e modesto vocabulário de Lucas da Feira.

O cerco foi se formando nas redondezas de Santana da Feira. Um a um foram prendendo os seus companheiros. O primeiro foi Nicolau.

A prisão de Lucas estava eminente naquele janeiro de 1848. Lucas resiste enquanto pode. A polícia atirava para todos os lados e em todas as direções, até que uma bala o fere, quebrando-lhe o braço, minando-lhe as forças. Foi a luta desesperado de um só contra milhares.

Enfim, na manhã de 28 de janeiro de 1848, Lucas é preso e conduzido ao centro da cidade, em meio a festa dos escravocratas.

Bailes foram organizados. Os sinos das igrejas repicaram festivamente. Fogos de artifícios cruzaram os céus. Manifestações intensas se faziam. Eram os escravocratas comemorando a prisão de um grande homem negro.

Do outro lado, entretanto, lágrimas eram derramadas. Choravam os que tinham sido protegidos por Lucas. E quanta gente ele protegeu.

Lucas Evangelista dos Santos, real e lendário, herói de uma época de trevas, personagem de uma noite sem estrelas. Figura legendária de tempos de opressão e horror permanece vivo. Vemo-lo em cada ser humano que ele, com sua luta ajudou a libertar. 

Bravo como ele só, valente como poucos, corajoso como quase ninguém, Lucas da Feira é o símbolo de uma era apavorante e estúpida, cruel e miserável.

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Peça de Fusca virou adereço no pescoço dos jovens, nos anos 60

6/11/2017, 14:15h

O “Anel Brucutu” foi uma febre criada pela Jovem Guarda, comandada por Roberto e Erasmo Carlos. Os rapazes achavam o máximo usar, pendurado em uma corrente no pescoço, o tal brucutu, aquela pecinha do Fusca, responsável por esguichar água no para-brisa do carro. A moda de retirar o brucutu para fazer aquela espécie de anel, ganhou tanta força que era difícil encontrar um Fusca intacto. Aqui na Feira não foi diferente. Por volta de 1966, Lúcia Lago, estudante do Colégio Santanópolis, reuniu algumas colegas e comandou a “quadrilha” que arrancava o brucutu dos fusquinhas. A façanha está no blog do colégio e vale a pena lembrar de novo (Adilson Simas).

QUEM SE LEMBRA DO BRUCUTU?

Lúcia Lago

Isto foi no ano de 1966, mais ou menos. Era uma tarde de outono, eu lendo uma revista da época,  precisamente a página de "Mexericos da Candinha", quem lembra? Eu li que estava na maior onda em São Paulo e no Rio de janeiro a moda lançada por Roberto Carlos, de usar brucutu no pescoço. Tudo que se referia a ele eu queria saber. Era apaixonada por ele. Paixão da minha vida com meus treze para quatorze anos de minha adolescência!

Procurei saber do que se tratava e descobri que era uma pecinha, pequena por onde saia água do limpador de para-brisa do carro, precisamente o Fusca da época. Imediatamente testei e conseguir tirar do primeiro que me apareceu na frente. Facílimo de tirar, não deu nenhum trabalho.

Foi o primeiro brucutu que eu roubei... me tornei o maior terror nesta cidade; não podia ver um Fusca! De todos eu tirava a pobre da peça. Isto se tornou uma epidemia, a esta altura do campeonato eu havia formado uma verdadeira quadrilha. Só lá no colégio, claro que eu era a chefa. Tinha; Marise, Rute, Telma, Socorrinho, etc.

Acho que Sheila também fazia parte, saíamos todas do colégio pra caçar brucutu (roubar) a palavra certa. Não sobrava nenhum. Eu distribuía pra todo mundo a gente enfiava a pecinha numa corrente e pendurava no pescoço; uma gracinha! Eu lancei esta moda, aqui em Feira todos os jovens usavam. Ai! Ai! Se minha mãe descobrisse eu ia levar uma surra.

Só minha irmã Célia sabia desta minha delinquência, nesta época noiva de Expedito, ele me dava conselhos; pare com isto cunhada pois é muito feio! Eu já tinha tirado o do carro dele também. O coitado não sabia.

Então, eu quero dizer uma coisa, isto ganhou repercussão nacional muito ampla, hoje a Polícia Federal ia entrar em ação, não sei o que seria da minha vida.

Alguém se lembra disto? Talvez os mais velhos que eu e quem tinha um fusca não esqueceu não, tenho certeza. Eu já levei cada carreira, tropeços e quedas nas minhas fugas pois eu tinha que correr mesmo, só faltou cachorro valente pra me pegar ou polícia pra me prender. Eu tinha uma coleção que não tinha tamanho. Tinha orgulho da caixa de sapato enorme lotada de brucutu escondida debaixo da minha cama. Mais quanto mais eu tinha, mais queria; eu não vendia não, eu distribuía de graça. Quem diria? Lúcia Lago ladrona de brucutu! Que cruel! Meu Deus não podia ter duas Lúcias desta não; eu não valia nada, minha mãe pensava que eu era uma santa! Nem imaginava a cretina que eu era...

Um dia eu inventei de tirar dos carros diferentes: partir pra Aero Willis, meu primeiro teste foi diga de quem foi? Dr. Pirajá.

Lá em frente a Farmácia São Luiz, na Praça da Bandeira, eu na maior cara de pau parti pra o ataque, as meninas me dando cobertura claro. Eu já tinha toda técnica pra efetuar a ocorrência cruel. Menina? Não prestou não, o pessoal não percebeu, mas Dr. Pirajá apareceu e me pegou no ato. Me pegou pelas orelhas e me deu uma bronca terrível não teve perdão não! Então minha Mãe e meu Pai tomaram conhecimento. Me deram corretivo, claro que muitas semanas sem mesadas, castigos, tive que devolver os brucutus todos (de quem eu lembrava claro) e tive que jogar fora o meu adorado estoque.

Tomei uma surraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, ai ai.

Parei definitivamente com aquela onda. Quem ganhou, ganhou, quem não ganhou adeus! Mas, quero dizer uma coisa: eu não já falei que tudo tem uma explicação em outros relatos? Vejam, Deus é bom demais! A palavra do Senhor diz assim: "O meu poder se aperfeiçoa na fraqueza" sei que ele perdoa o tempo da ignorância. Claro que eu já pedi perdão e sei que ele me perdoou.

Eu tinha um namorado na época (um grande amor), sabe de uma coisa? Sem saber eu salvei a vida dele! Claro que eu havia dado um brucutu pra ele, que não tirava do pescoço. Ele foi passar o fim de semana na chácara do pai pra caçar, levou sua espingarda! Numa determinada hora, que foi dar um tiro; a arma disparou contra ele e atingiu seu peito, bateu no brucutu e não entrou no coração. Ele não morreu por milagre! O brucutu ficou todo amassado, salvou sua vida! Pode? Deus transformou a maldição em benção na minha vida!

Hoje eu agradeço pra Deus ter me poupado de tantas coisas!

Até eu fazendo algo errado, ele me livrou e também a vida deste rapaz salvando sua vida! Creio que ele deve lembrar este fato. Com certeza! Valeu Senhor! Fiquei devendo esta pra Ti! Obrigada! Pelos seus grandes feitos. Fica registrado aqui este relato, muito obrigada!

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Brincadeira em plenário encerrou a sessão antes da hora, em 1959

30/10/2017, 18:15h

Nas suas memórias, publicadas em 2009, o Comendador Jonathas Telles de Carvalho registra fatos pitorescos ocorridos ao longo de sua existência. Um deles teve como cenário o plenário da Câmara de Vereadores quando ainda funcionava no Paço Municipal, sendo “vítima” o vereador e coronel aposentado Arthur Santos. Vale a pena recordar. (Adilson Simas)

O CORONEL ARTHUR E A CÂMARA MUNICIPAL

Jonathas Telles de Carvalho

Incentivado pelos amigos decidi fazer experiência na vida pública, vendo a possibilidade de dedicar-me um pouco mais às causas da nossa comunidade. Corria o ano de 1958 e os partidos políticos indicavam candidatos para o pleito que se avizinhava. Assim é que fui convidado, para ser candidato a vereador, por amigos da UDN, partido representado em nossa cidade por ilustres figuras da sociedade feirense.

Estava bastante motivado, pois via possibilidade de me eleger e, assim, exercer com dignidade mais uma função a serviço do meu povo. Escolhidos os candidatos, todos nós fomos à luta, ao corpo a corpo junto ao eleitorado. Naquele tempo os recursos tecnológicos e financeiros eram escassos, a campanha sendo feita de porta em porta, pedindo votos aos amigos e a quem mais encontrasse nas residências visitadas pelos candidatos.

Havia mais seriedade e comprometimento e, por isso, os candidatos eram mais respeitados pelos eleitores. Não havia a avalanche de candidatos de hoje em dia, o que tornava mais séria e suave a campanha eleitoral. Depois de muita luta muita caminhada e de compromissos assumidos, chegou o grande dia 3 de outubro de 1958, dia das eleições, com posse dos eleitos no dia 31 de janeiro de 1959.

Apesar do meu esforço e do empenho de inúmeros amigos, apenas consegui ficar na suplência. Sabia que era preciso vocação para ser político, o que não era o meu caso, levado apenas pelo entusiasmo contagiante dos amigos. Fiquei na expectativa de assumir o cargo, o que efetivamente ocorreu quando um dos edis, afastou-se para tratamento de saúde.

Passei a frequentar as reuniões semanais da Câmara e sempre me sentava ao lado do vereador Coronel Arthur, militar aposentado. O saudoso amigo Antônio Manuel de Araújo presidia, com muita sobriedade, a Câmara Municipal e em uma das sessões faltou o secretário titular e o presidente da Casa convidou-me, o que foi motivo de muita satisfação.

Um pouco antes, aproveitei um momento de distração do Coronel Arthur e passei goma arábica nas lentes dos seus óculos. Sentei-me, então, à mesa, iniciando meus trabalhos como secretário, lendo o expediente do dia que constava de ata, ofícios e outros documentos pertinentes aos trabalhos legislativos.

Na oportunidade o presidente franqueou a palavra e o primeiro a usar da tribuna foi o coronel Arthur, em cuja mesa de trabalho havia grande quantidade de papeis. Demorando em encontrar os óculos, os localizou e constatou que eles estavam embaçados. Depois de muito tentar limpá-los, ele olhou para mim, mas continuou preocupado com o serviço de limpeza.

Saí da mesa sorrateiramente e o coronel, depois de, finalmente, descobrir que aquilo era uma arte minha, olhou para a mesa e não me viu. Gritou, então, com foz forte: “Cadê Jonas?”.

O vereador ficou tão nervoso que se esqueceu do tratamento formal que era dispensado a seus pares e o presidente, notando o embaraçado do Coronel Arthur, suspendeu a sessão, por alguns minutos e convocou um funcionário da casa para limpar as lentes no nobre vereador... Diante do pitoresco episódio, quando todos brincavam com Arthur que estava irado, o presidente entendeu não haver clima favorável para a continuidade dos trabalhos legislativos, daquela noite e os encerrou. 

Depois, descobri que só não fui preso porque tinha imunidade parlamentar, pois o colega vereador queria tomar providências contra mim.

Mas, depois, tudo “terminou em pizza” e o coronel continuou a figurar no meu rol de amizades.

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As Normalistas e suas fardas, as mais bonitas do Brasil

23/10/2017, 13:22h

Em livro lançado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana, em 2015, a professora aposentada e poeta Célia Lima Ferreira, casada com o escritor Antônio do Lajedinho, mãe de quatro filhos, tendo 10 netos e 6 bisnetos, faz uma viagem no tempo e lembra as “Normalistas na década de quarenta”.  Vale a pena ler de novo o seu texto (Adilson Simas).

NORMALISTAS NA DÉCADA DE QUARENTA
Célia Lima Ferreira

- A vida, depois que ultrapassamos os 80 anos, é repleta de recordações; destas, revivemos sempre as partes boas, que estão guardadas no velho baú da saudade.

Hoje, como diz Boldrin, “vou voltar ao passado”. Vou trazer de lá os velhos tempos da minha juventude, vendo-me aos quinze anos de idade, envergando a briosa farda de Normalista, subindo aquela escadaria que nos levava à entrada da Escola Normal, onde hoje funciona o Centro Universitário de Cultura e Arte. Parecia-me que estava subindo ao trono do mundo encantado das Normalistas.

A nossa farda era a mais bonita, a mais perfeita e mais conhecida em todo o Brasil: saia azul, blusa branca com mangas abaixo do cotovelo, meias brancas que iam acima do joelho (depois soquete e as mangas curtas). E sapato preto padronizado.

Para as aulas de Educação Física tínhamos uma farda com um calção especial, os galopins e um bastão de madeira. O destaque em galopins é que as gerações posteriores à década de 40 não conheceram esse tipo de calçado. Ele foi um sapato pobre que tem seus descendentes ricos. Foi o pai do atual tênis. Era de lona branca, com uma sola fininha de borracha e que se limpava com alvaiade.

A despeito de uma disciplina rígida, ainda fundamentada na filosofia do positivismo, o convívio era excelente com os colegas e dentro de uma disciplina amistosa com os Mestres. Tínhamos quinze Mestres para lecionar 18 matérias, além de duas censoras, Hermínia e Guiomar, e o porteiro Irineu.

É importante lembrar que não era só nas escolas primárias que cumpríamos o ritual do respeito ao Mestre. Na Escola Normal, logo que o sino soava anunciando o regresso às salas de aulas, todos os alunos entravam, sentavam-se e aguardavam a chegada do Mestre. Assim que ele aparecesse na entrada, todos ficavam em pé e em silêncio até que ele chegasse a sua mesa, cumprimentasse (bom dia ou boa tarde) e mandasse sentar.

Mesmo nas horas de folga que estivéssemos sentadas em qualquer lugar e viesse um Mestre passando, todos se levantavam até que ele passasse. Nós não sentíamos inferiorizados; ao contrário: sentíamos orgulhosas das “boas maneiras” que aprendíamos e praticávamos dentro e fora da Escola.

Ah! Quanta saudade... e as aulas de Literatura com Dr. Gastão Guimarães? Ninguém queria faltar. Era um show poético onde todos assistiam, assimilavam e jamais esqueciam.

Da também competente Professora Sidrônia Junqueira, lecionando História Universal, a cada parágrafo usava um “está”, talvez um “Transtorno Compulsivo ou Obsessivo” como dizem os Psiquiatras, mas não ficava satisfeita quando alguma aluna sorria... embora continuasse repetindo o “está”.

E a Profª Úrsula, que ao fim da sua aula de álgebra, recomendava ironicamente: “se não entenderam... estudem no livro”.

Dr. Lourival dava suas aulas teóricas de Agricultura na sala e depois levava todos para o Horto Agrícola (hoje Filinto Bastos), onde ministrava sua aula prática.

Trago vívidas na minha memória todas elas, mas o espaço é muito pequeno para descrever as maravilhosas aulas dos Professores: Esmeralda Brito – Geografia; Regina Vital – Português; Padre Mário – Francês; Judite Pedra – Trabalhos Manuais; Terezinha Gusmão – Desenho e Pintura: Leonice – Música; Dr. Hibelmon – Higiene e Puericultura; Dr. Péricles – Pedagogia e Didática; Violeta – Psicologia, Estatística e Administração Escolar; e Alda Marques – Ciências.

Tão lembrada a parte educacional, imaginem a parte social, o convívio entre todas, as brincadeira nos “recreios”, os “mexericos” e os segredinhos com as colegas mais íntimas! Meu Deus! Quantas lembranças e bendita saudade daquela época, há mais de 64 anos passados e que me parece ter sido ontem... era jovem, feliz e tinha o coração transbordante de amor por um jovem que hoje é bisavó dos meus bisnetos e que neste ano (2015) completaremos 65 anos de um feliz casamento, acontecido exatamente no dia da minha formatura.

Saí de uma felicidade que sentia e que hoje é uma imensa saudade, para outra felicidade que se fez eterna.

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Um relato sobre lagoas e nascentes em Feira de Santana

16/10/2017, 9:54h

O acadêmico José Carlos Barreto de Santana, ex-reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana, assina um dos textos do livro “Feira de Santana – Histórias e Estórias dos Séculos XIX e XX (Escritas a cinquenta mãos)”. Trata-se de edição especial do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana, lançado em 2015.  Com o título ‘O que restou de Santana dos Olhos D’Água’? -  vale a pena ler o texto, uma releitura do trabalho “Nascentes e Lagoas de Feira de Santana", publicado no extinto jornal Feira Hoje em novembro de 1989 (Adilson Simas).

O QUE RESTOU DE ‘SANTANA DOS  OLHOS D’ÁGUA’?

José Carlos Barreto

Itabira é apenas um retrato na parede.
Mas como dói!
(Carlos Drummond de Andrade)

A dor do poeta talvez seja um ponto de partida para um feirense que resolva, ainda que breve e superficialmente, relembrar aqueles recursos naturais que foram tão importantes para o surgimento e desenvolvimento do município: as nascentes e lagoas da nossa cidade.

Menos ainda que retratos na parede, as nascentes e lagoas vão se tornando meras citações históricas, enquanto desaparecem da nossa paisagem. Um dia, no entanto, foram tão significativas que se constituíram  fatores preponderantes no assentamento do povoado que originou a cidade de Feira de Santana, muito em função da presença da água superficial e subterrânea próximo à superfície.

Não por outros motivos estiveram presentes na primeira nominação do que viria a ser a nossa cidade. Em função das nascentes, surgências d’água comuns na nossa região, o povoado que nos originou foi chamado de “Santana dos Olhos d’Água”.

Cerca de 96% da área do município de Feira de Santana encontra-se localizado no “Polígono das Secas” e sem sombra de dúvidas foi determinante para a sua existência a presença de nascente e lagoas, em números relativamente significativos nas suas zonas de superfície topográfica rebaixadas pela erosão.

Na década de 1960 foram contadas sessenta lagoas, distribuídas sobre rochas muito antigas (pré-cambrianas) ou sedimentos mais recentes da Formação Barreiras (terciários). Algumas das lagoas contribuem com suas águas para o lençol de água subterrânea, tornando-se, portanto, secas nos períodos de estiagem; outras mantêm “espelho d’água” visível durante o ano, em decorrência do substrato impermeável sobre o qual são instaladas.

Dentre as lagoas encontravam-se as lagoas Grande, Mendes, Mangabeira, do Prato Raso, Subaé, do Peixe, Camisa, Pirrixi, Berreca, Seca, Ovo da Ema, etc. Principalmente no núcleo urbano, a captação, a poluição, o assoreamento e o aterro internacional provocada foram mais intensos, devido à concentração de edificações, lixo e dejetos domésticos e industriais e ameaçam fortemente as suas existências.

O verdadeiro complexo de lagoas do bairro Queimadinha, normalmente chamadas de Prato Raso, segue inexoravelmente o caminho da extinção através do aterro ininterrupto que sofre para construções de casas e edifícios comerciais, mesmo destino da Lagoa Subaé, mesmo com todo apelo quem o nome do corpo de água da nascente do rio de mesmo nome pudesse ter. A Lagoa Grande de São José virou depósito de lixo e entulho.

Apenas a Lagoa Grande (a da sede da cidade), que foi uma das principais fontes de abastecimento público de Feira de Santana, parece escapar à sanha destruidora que ataca as nossas lagoas, uma vez que nelas se executam, lentamente, obras que podem ressignificar a sua existência.

Os olhos d’água encontram-se em condições ainda piores que as lagoas. As nascentes drenam as suas águas para as lagoas e riachos, que se incorporam aos rios, compondo as bacias hidrográficas dos rios Pojuca, Jacuípe e Subaé. Inicialmente as nascentes serviam como fontes de água, para o abastecimento doméstico e como bebedouros para as boiadas que transitavam na nossa região. Posteriormente, com o crescimento urbano, passaram a funcionar como referência para o assentamento e ampliação da cidade.

Algumas dessas fontes receberam a implantação de uma infraestrutura mínima, como a construção de tanques de retenção e lavanderias de cimento, permitindo um melhor aproveitamento da água, na irrigação de hortas, abastecimento doméstico e atividades de lavanderias, o que beneficiava as comunidades aos arredores da nascente, a exemplo da “Fonte do Lili” e “Tanque da Nação”.

Com o rápido crescimento populacional sem planejamento urbano adequado, que atendesse às exigências dele decorrente, algumas nascentes foram aterradas ou canalizadas, pelos interesses imobiliários ou pela ignorância de pessoas que não quiseram ou não querem reconhecer a importância delas enquanto recurso natural.

Dentre as que foram canalizadas está a “Fonte do Velado”, canalizada por baixo do condomínio Parque das Acácias, localizado no bairro Tanque da Nação. Os moradores deste condomínio ainda escutam o som das águas a correr sob um dos seus “playgrounds”. Outra fonte canalizada foi “do Muchila”, utilizada até a década de 80, quando, por pressão de moradores da Rua Macário Cerqueira, desapareceu sob a pavimentação através de uma tubulação de poucas polegadas.

Outras nascentes com as suas benfeitorias foram abandonadas sob a alegação de que o progresso trouxe “água encanada” para todos. Aquelas cujo “milagre do desenvolvimento” não destruiu completamente continuam sendo parcialmente utilizadas pelas populações carentes dos bairros onde se localizam a exemplo das fontes “de Lili” e “do Buraco Doce”, no bairro de Queimadinha, e “dos Milagres” no bairro da Gabriela.

A “Fonte do Mato”, talvez a mais emblemática de todas, por ser a principal do bairro dos “Olhos d’Água”, considerado o mais antigo de Feira de Santana, jaz esquecido no que sobrou de quintal de casa onde ainda moram os descendentes de “Noratinho da Pamonha”.

Estes são importantes elementos para que se perceba o tamanho do descaso para com esse bem natural tão importante que é a água. Provavelmente a maioria da população de Feira de Santana desconhece que a relação dos seus moradores com esse bem natural foi muito mais direta que atualmente. Em 23 de novembro de 1834, divulgou-se a determinação de atribuir “multa de 15$000 a quem abrir poço e fizer tanque ou qualquer obra em prejuízo das águas públicas desta Villa”. Em sessão realizada no dia 3 de fevereiro de 1872, “a Câmara dispende de 11 contos e 600 mil reis na limpeza da ‘Fonte do Valado’” aqui já mencionada.

Aos poucos, e sem maiores consequências para os que dilapidam os nossos históricos recursos naturais, as lagoas e os olhos d’água vão desaparecendo da cena feirense e em breve não restará sequer um quadro na parede para doer em nossa alma.

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O primeiro militar a se eleger vereador em Feira

9/10/2017, 9:38h

Na revista do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana, editada em 2012, o decano radialista e jornalista Zadir Marques Porto lembra a figura do sargento Antônio Antunes dos Santos, mais conhecido como “Sargento Aranha”, que teve importante passagem na vida da cidade. Vale a pena ler de novo este texto publicado em  20 de julho de 2012.  (Adilson Simas).

Sargento Aranha “Meu tipo inesquecível”
ZADIR MARQUES PORTO

Um patriotismo que poderia ser medido pela sua própria estatura – mais de 1,95 m, de músculos e vitalidade – aliada às atitudes, ao ponto de dar a um dos seus filhos o nome de Brasil. De aparência irascível, que chegava a amedrontar, na verdade era um bonachão, um homem preocupado com todos os que queriam, sim, um país melhor e um povo com o necessário espírito de civismo. E nessa missão se empenhava tanto que, às vezes, por não entendê-lo, muitos achavam que ele era intransigente e mandão. Sem querer plagiar a seção da tradicional revista Seleções Reader’s Digest, poderíamos incluí-lo em “Meu Tipo Inesquecível”, muito embora só o tenha visto de perto pouquíssimas vezes.

Antônio Antunes dos Santos, pernambucano de Recife, nascido em 15 de agosto de 1920, o eterno “Sargento Aranha”, mesmo depois de ter sido elevado a 1º tenente, foi uma figura que marcou em Feira de Santana. Depois de comandar a Polícia Especial em Salvador, veio para esta cidade, como instrutor do Tiro de Guerra 17 (TG-17) que tinha sede na Praça Dois de Julho, Rua de Aurora (Rua Desembargador Filinto Bastos). Era militar na extensão da palavra. Não admite brincadeiras ou “corpo mole” nas atividades que comandava. O amor à pátria aflorava em cada atitude.

Nos desfiles de 7 de Setembro e 2 de Julho, ou qualquer outro momento cívico, ele estava à frente, liderando, com passadas largas, pisando forte, peito estufado e voz de trovão. E ai de quem não lhe acompanhasse! Fundou a Escola Dois de Julho, com fardamento verde-amarelo, que funcionou nesta cidade e em Conceição do Jacuípe. O conceito era a Pátria e os pais corriam para colocar seus filhos nesse estabelecimento. Antes de vir para a Terra de Santana fora lutador e já com a idade avançada para a prática de luta livre, aceitou o desafio de um pugilista profissional jovem, em nome de Feira de Santana.

Antônio Antunes dos Santos foi professor de Educação Física do inesquecível Ginásio Santanópolis e eleito vereador em 1963, como primeiro militar a chegar a Câmara Municipal. Foi substituído no cargo pelo suplente José Ferreira Pinto. Em 1970 voltou a ser eleito mas renunciou, substituindo-lhe o atual presidente, o advogado e professor Nilton Belas Vieira. Era um brasileiro convicto e não aceitava, em hipótese alguma, que alguém falasse mal de Feira de Santana ou do Brasil na sua presença. Mas era de um coração talvez maior que o seu corpanzil. Emocionava-se a uma demonstração de amor à pátria e fora do rigor das atividades oficiais era um ser extraordinariamente afável.

Promovia torneios esportivos, festas e outros eventos sociais aos quais os jovens acorriam sabedores de que ali haveria ordem e respeito. Os festejos de São João que realizava em sua residência, na Rua Araújo Pinho, até hoje são lembrados com saudade pelos jovens daquela época. Fartura em bolos, canjica, milho verde, amendoim, licores, muito forró, onde surgiam namoros respeitosos. Sair da linha, nem pensar! No esporte também marcou. Apaixonado pelo futebol construiu um campo, em frente ao atual prédio do Empresarial Rosilda Dantas, na Avenida João Durval. Mas a gurizada tinha que estudar para jogar no time do “Sargento Aranha” que não gostava de perder.

Há fatos no mínimo hilários corridos no futebol, envolvendo esse patriota sem igual. Jogo Duro no Campo Dois de Julho com o time do Sargento, que também era o juiz, empatado em 0 x 0. Apito final e a garotada deixando o campo quando um apito forte e o vozeirão do sargento se faz ouvir:

- Volta todo mundo.

E a meninada sem entender pergunta o motivo e Aranha no seu tom incontestável:
- Esqueci de marcar um pênalti! – naturalmente, para o time dele.

O goleiro adversário debaixo da trave e o jogador do Dois de Julho, escolhido para a cobrança, nervoso com a responsabilidade, deu um violento chute para longe.
- É tinha que ser empate mesmo -, balbuciou Aranha, enquanto deixava o campo.

Em outra oportunidade, durante um jogo no Campo da Usina de Algodão, que ficava próximo ao atual Colégio General Osório, no início da Rua Castro Alves, também estava empatado quando um atacante, depois de bela jogada, chutou muito forte e a bola passou raspando a trave defendida por Branco, excelente goleiro, apesar da baixa estatura. Aranha acompanhou o lance e saiu correndo para o meio de campo. Como era natural, o goleiro protestou:

- Foi pra fora Sargento.

E Aranha categórico: “Mas se fosse dentro você não pegava!”.

Muitos e muitos outros casos engraçados ocorreram com o espirituoso Sargento Aranha, mas nada comparável ao seu patriotismo, ou seu espírito militar, ao seu amor pela família e aos valores morais.

Aliás, por tudo que representou para a juventude da época, Antônio Antunes dos Santos, até hoje está a merecer um maior reconhecimento da terra que ele tanto defendeu.

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Manoel da Costa Falcão e o "discurso que não foi lido"

2/10/2017, 14:41h

No livro “Memórias de um Comendador”, são quatorze páginas dedicadas a “Fatos Pitorescos”, narrados por Jonathas Carvalho, envolvendo pessoas de suas relações de amizade. Vale a pena lembrar um deles, envolvendo Manuel da Costa Falcão, empresário que comandou o Centro das Indústrias e vereador que chegou a presidência da Câmara Municipal (Adilson Simas).

FATOS PITORESCOS
Jonathas Carvalho

A vida para que seja bem vivida necessita que seja ponteada de acontecimentos que deixam marcas que a engrandecem e a tornam alegre e salutar. E durante a minha não tem sido diferente! Sempre procurei fazer do meu ambiente de trabalho um local o mais agradável possível, e procurei transformar os servidores ou funcionários numa verdadeira família. Para descontrair, por vezes, eu aprontava das minhas, tornando ameno o peso do trabalho, mas – esclareça-se! – sem perder a ética e o respeito aos outros.

Sempre foi assim: onde estou, procuro tornar o ambiente agradável. Evidente que sempre me limitei a fazer brincadeiras com amigos e pessoas de minha intimidade. Estas compreendem e se divertem com o lado pitoresco de cada situação: Vejamos alguns.

O DISCURSO QUE NÃO FOI LIDO - Manoel da Costa Falcão, nosso conhecido Manezinho Falcão, filho de João Marinho Falcão, era uma figura muito querida e respeitada. Bem relacionado nos meios políticos e sociais, com sua influência, conseguiu junto a um amigo que exercia as funções de Diretor do SENAI em Salvador, a vinda de uma unidade desse órgão para a nossa Feira de Santana.

Concluídas as obras das instalações, havia a necessidade de serem inauguradas. E para tanto teve de preparar uma linda festa, prestigiada com a presença de autoridades e o povo em geral. Manezinho estava todo prosa, empolgado com o empreendimento que sua cidade iria receber.

Chegou o grande dia. Palanque armado, presenças confirmadas, Manezinho com o  “improviso” no bolso do paletó, aguardava o convite do mestre de cerimônias para o seu justo, merecido e oportuno pronunciamento. Ele não perdia oportunidade para mostrar a sua eloquência, resultado de anos de estudo e dedicação às regras da boa oratória. E a plateia gostava de ouvi-lo. Naquele dia estavam presentes o governador do Estado, diversos Deputados, Diretores do SENAI. O povo feirense sempre prestigiando tais eventos, lotava toda a área em frente ao palanque. Eu me encontrava ali, junto ao nosso orador. Percebi, então, que sua peça de oratória estava à vista, no bolso do paletó e, no empurra, empurra, todos queriam uma posição privilegiada para isto trocando cotoveladas e pequenos encontrões.

Aproveitei o descuido de Manezinho, este com os olhos fixos no mestre de cerimônia, aguardando o chamado desse para usar a sua vez de falar, e enfiei os dedos, indicador e o médio no paletó conseguindo “pescar” sorrateiramente o “improviso” do meu amigo orador. E saí de fininho, tratando de desaparecer da vista do orador.

Quando chamado, o eloquente tribuno, depois de saudar as autoridades e ao povo, meteu a mão no bolso para tirar o discurso e gelou: Cadê a peça literária? Aí, a coisa ficou cômica: Manezinho, nervosamente, remexia todos os bolsos, puxando-os para fora em desespero, enquanto a população ria gostosamente. Mas o orador não perdeu a esportiva: fez o pronunciamento verdadeiramente de improviso, meio vacilante e sem entusiasmo, sem graça que estava... Ao final da inauguração, estive com ele e alegando haver encontrado no chão o seu discurso. Mas ele não acreditou e me encheu de desaforos e palavrões, enquanto eu ria, divertindo-me. Entre outras coisas, me disse:

- Como é que você faz uma coisa dessas, rapaz?! Viu a minha embaraçada situação? Não fosse a minha grande experiência, tomaria uma estrondosa vaia da multidão. Mas, não tem nada, não!... Você me paga, vou à forra. Se prepare.

Manezinho nunca teve essa oportunidade e nunca mais colocou discurso no bolso do paletó. Deve ter me perdoado antes de sua partida para o reino eterno, amigos fraternos que éramos...

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Jonathas Telles de Carvalho: memórias do comendador

25/9/2017, 12:12h

Feirense nascido nas terras da Fazenda Coroá, em Bonfim de Feira, Jonathas Telles de Carvalho, falecido em 2013, aos 97 anos, teve uma intensa participação na vida da cidade. No livro “Memórias de um Comendador”, um reencontro com uma rica trajetória, inclusive fatos pitorescos durante sua longa existência. Vale lembrar o prólogo da obra, editada em 2009 (Adilson Simas).

O COMENDADOR JONATHAS CARVALHO

Feira de Santana, segunda-feira, 30 de março de 2009. A madrugada se despede do dia. Estamos em nossa casa na Rua São Pedro, bairro da Santa Mônica. Abro os olhos e, de imediato, vem à mente um fato que me enche de satisfação e melancolia: estou completando 93 anos. Como sempre aconteceu há mais de 6 décadas, mal me movimento, Cecília acorda e é dela o primeiro beijo de parabéns. Calço os chinelos para, vacilante, arrastar o peso dos anos até o banheiro. Depois de escovar os dentes, lavo o rosto e me olho no espelho. Nele vejo as muitas caras que tive na vida. Resmungo:

- É, Jonathas, você está bem usadinho... – E sorrio para mim mesmo.

Como num filme as lembranças começam a me assaltar. A Fazenda Coroá, meu pai, minha doce mãezinha, minha farmácia em Santa Bárbara, os momentos vividos no Rotary, tantos os que se foram... Sei que já não tenho a memória prodigiosa de ontem e, amanhã, não terei a de hoje e, por isso anotei tudo e guardo como um tesouro. Faço um esforço para lembrar onde estão os meus alfarrábios e vou pegá-los. Ainda são cinco horas da manhã. 

A casa está silenciosa. Mal abro a porta do quarto, tudo na penumbra, sinto algo se enroscando em minhas pernas. É Sasha, minha cadela de estimação, uma nada valente, mas amorosa companhia. Fecho a porta para a claridade não incomodar Cecilia, acendo a lâmpada e constato que a sala, meu refúgio, está como sempre: a minha cadeira de lona, a mesinha ao lado com os livros que gosto de ler, tudo denunciando o jeito de Cecilia: limpo, elegante e sempre arrumado. 

Sasha quase me atropela, levantando as patas dianteiras que apoia nas minhas pernas, balançando o rabo numa alegria amorosa. Sorrio e correspondo o gesto de afeto, alisando-lhe a cabeça e coçando atrás de suas orelhas, coisa que adora. Depois, como se estivesse abençoando (é um velho costume, este de pedir ao Criador que proteja minha família!) levanto o olhar para a casa do meu filho Marcelo, que deve estar dormindo ao lado de sua Célia. Moramos vizinho e nenhum muro nos separa. Contemplo o verde que nos cerca e vou me sentar à mesa da sala de estar. Deposito as anotações sobre ela e passo a folhear tudo, começando pelas mais antigas. 

E estas fotografias? Minha linda mãe, o dia do meu casamento... Ah, quantas coisas que considerava esquecidas, mas ali, naquelas páginas amarelecidas, narradas com caligrafia firme, depois vacilante, consequência dos anos. Meu Deus do Céu, como tudo se parece ter sido ontem!... ELE foi muito generoso comigo! Permitiu que eu chegasse a quase 100 anos, com a mente ágil, podendo gerenciar minha vida e meu raciocínio...

De repente, senti a companhia de alguém. Surgido do nada, ali estava o Senhor do Tempo. Sentado ao meu lado, ele sorriu e me disse:

- Comendador, o que faz você que não escreve suas memórias? Utilize este tempo ocioso para dar uma arrumada nestas coisas e junte tudo num livro. Olhe lá! Não vá esquecer-se de nada! Amigo, se não fizer isso, esses registros, um dia, serão jogados fora por uma empregada doméstica desatenta ou, quando você á tiver ido desta para uma melhor, pode ser que tomem o caminho do lixo. Acorde, homem!... Vai ser este o destino destes cadernos velhos, destas fotografias antigas? Vai destruir?! – e riu divertido.

- Ora, ora... Nem eu sei para que guardei estes cadernos velhos durante décadas, como se quisesse prender a caminhada da vida com pedaços de papel! Anotei só para lembrar de vez em quando.

- Jonathas, amigo velho, não seja egoísta. Cada página lida é um alimento para a alma do leitor. E você passou por tanta coisa... Todos deveriam escrever e publicar sua história, porque todo homem é uma enciclopédia viva. Falando nisso, lembra das peças que você pregou? O perfume que seu colega passou no bigodinho, o caso das abóboras, o discurso de Menezinho, o supositório do doutor Medrado e outras e outras? Vamos, rapaz, abra este baú de lembranças! Vai deixar de contar estas coisas engraçadas? Não acredito!...

Tão absorto estava que nem percebi o primeiro raio de sol invadindo a sala. Folheio os escritos e, aos borbotões, as coisas do passado foram tomando a sala. Quando levantei a vista, o Senhor do Tempo já não estava ali. Tomei uma decisão: Esperei, com impaciência, que o relógio marcasse oito horas e dei vários telefonemas pedindo ajuda de algumas pessoas. Estava decidida a edição de minhas memórias...

A minha vontade reuniu um grupo de amigos: Zé Ronaldo, Monteiro, Carlos Brito, Dázio e outros que resolveram montar um esquema para remexer no meu baú de lembranças, coletar velhas fotografias, redescobrir documentos amarelecidos. Embora com boa memória, há muito que não escrevo, as mãos perderam a elasticidade e, de certa maneira o tato, é terrível! 

Como estou tendo dificuldade de segurar a caneta, achei melhor “contratar” os serviços do bom Boa Sorte para digitar o que eu ia ditando. Depois, como não entendemos do assunto, mais uma pessoa foi juntada ao grupo: Eduardo Kruschewsky. Este, aposentado do Banco do Brasil, tornou-se um especialista em dar formato de livro a textos e que tem, com dedicação, lido para mim tudo depois de formatado.

Pois é... Arrumamos tudo de maneira quase cronológica. Digo “quase” porque há coisas que sempre estiveram em minha vida, não dá para retalhar fatos concatenados. Eu sei que você, leitor, vai entender e pegará o fio da meada. Nestas páginas não estão só passagem de minha vida, mas, sobretudo, um pouco da história de Feira. Mergulhe de cabeça na minha narrativa e nade neste mar de recordações, mar calmo, sem muitas procelas. Afinal, não lembro de adversários e na vida sempre tive amigos, as joias mais importantes que adornam a minha cabeça de cidadão comum... 

Aqui está o meu livro. Abra-o e, pelo caminho dos registros familiares, entre a Fazenda Coroá. Apure o ouvido: Está ouvindo os latidos dos vira latas que, mais curiosos que você, procuram identificar quem chega? Eles não mordem!... São de papel, estão nas páginas deste compêndio, portanto pode se achegar despreocupado...

O dia está amanhecendo. No curral um empregado, de cócoras, tira o leite da vaca Mimosa; as galinhas começam a ciscar, cacarejando enquanto o velho galo, já meio rouco, canta anunciando a aurora. Você, recém chegado ao ambiente, tem uma função: é quem vai ficar sabendo de tudo, através dessa leitura. Assim, vá passando páginas, sentindo-se sentado embaixo da copa da velha árvore, ao lado do solar, sem ser visto pelos personagens dessa narrativa.

Preste atenção: A porta da frente está rangendo nos velhos gonzos e lá está no alpendre, Dona Umbelina. Na estrada, ao longe, ouve-se o aboio de um peão que leva uma boiada para o Campo do Gado, em Feira de Santana. No horizonte, vai surgindo uma figura toda de preto. É o padre João que desmontará da mulinha e abrirá a cancela para entrar na Fazenda Coroá, selando o meu destino, pois foi com ele que tudo começou.

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Como surgiu a comemoração do aniversário da Feira no 18 de Setembro

18/9/2017, 8:49h

Vale a pena lembrar texto de minha autoria, lido no sábado, 16 de setembro de 2006, no programa "Primeira Página", da Rádio Povo, à época ancorado pelo jornalista Valdomiro Silva, atual secretário  municipal de Comunicação. (Adilson Simas)

O DIA DA CIDADE

Nesta segunda-feira, comemora-se o Dia da Cidade. Foi no dia 18 de setembro de 1833 que o presidente da Província da Bahia, Joaquim Pinheiro de Vasconcelos, criou o Arraial de Feira de Santana. Tomou a decisão autorizada pelo Governo Imperial que em 13 de Novembro do ano anterior, determinou a criação de vilas em todo o país.

Durante a semana, ouvintes deste programa e leitores da "Tribuna Feirense" me fizeram a mesma pergunta: Por que o aniversário da cidade em 18 de setembro se até pouco tempo a comemoração acontecia em 16 de junho? O 16 de junho lembra a Lei Provincial nº. 1320, que em 1873 elevou a Vila à categoria de cidade, com o nome Comercial Cidade de Feira de Santana.

Em 1973 comemorou-se intensamente o centenário da data.

Começou no primeiro dia do ano com o prefeito Newton Falcão que findava o mandato. E continuou com o prefeito José Falcão, tendo como ponto alto o dia 16 de junho.

A partir de então 16 de junho passou a ser o Dia da Cidade.

Incorporado ao calendário de eventos da câmara e da prefeitura que nunca deixaram a data passar em branco. Mesmo assim historiadores continuavam defendendo 18 de setembro como sendo o Dia da Cidade.

Entendiam que a emancipação da Feira aconteceu 40 anos antes, em 18 de setembro de 1833 e não em 16 de junho de 1873.

Entre eles estava o saudoso Mons. Renato Galvão que não se cansava de pedir a mudança da data. Convidado pela Câmara em 1979, para falar em 16 de junho, sobre o Dia da Cidade, Galvão não perdeu a oportunidade. Aproveitou a sessão solene e defendeu sua tese.

Segundo ele, quando a Lei de 16 de junho instituiu a Comercial Cidade de Feira de Santana, o Arraial de Feira de Santana já tinha status de cidade. Tinha porque já existiam na vila vários serviços públicos: 
A câmara estava instalada há vários anos, Escola funcionando tanto para crianças como para adultos. Existia a Cadeia Pública e a autoridade competente.

Citou também que até já existia um jornal, “O Feirense” mantendo informada a população da Vila. Essas e outras atividades davam ao Arraial de Feira de Santana o status de cidade.

Galvão encerrou sua palestra minimizando o 16 de junho, ao afirmar que o Decreto Provincial assinado naquela data foi recebido sem que a população comemorasse com efusividade.

Somente no ano 2000, quando Monsenhor Galvão já havia falecido, sua tese e de outros historiadores foi vitoriosa. A câmara  oficializou o 18 de setembro como o Dia da Cidade.

Assim nesta segunda-feira, 18 de setembro de 2017, a cidade comemora 184 anos de existência. Crescendo e avançando.

Quem visita Feira não se cansa de elogiar principalmente a maneira como suas vias públicas foram projetadas. Vias planas, largas e longas. A beleza das nossas vias começou ainda no século XIX.

O grande jurista Filinto Bastos disse em memorável palestra sobre a cidade, proferida no Cine Santana, em 1917, que coube praticamente ao Coronel João Pedreira de Cerqueira delinear e realizar o primeiro plano de embelezamento da cidade, fazendo surgir as primeiras grandes vias em razão das edificações que construía.

No começo do século XX, por volta de 1903, foi a vez do coronel intendente José Freire de Lima dotar as vias púbicas de novo tipo de pavimentação.

Por exemplo, foram desaparecendo as chamadas pedras irregulares dando lugar aos primeiros calçamentos a paralelepípedos.

No final dos anos 50, mais um avanço: prefeito Arnold Silva introduziu a pavimentação asfáltica, começando pela Rua Castro Alves e vizinhança.

Nesse período já se destacava o engenheiro Doutor Brito, preservando na abertura de novas ruas a visão pioneira de João Pedreira.

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