FEIRA EM HISTÓRIA

FEIRA EM HISTÓRIA: A MICARETA DE 1947

15/4/2019, 9:9h
Texto lido por este cronista em 21 de abril de 2007, dentro do programa Primeira Página, da Rádio Povo, então comandado por Valdomiro Silva. (Adilson Simas)
 
Parece saudosismo, mas quem se dedicar à leitura de antigos jornais, revistas e outras publicações locais, vai concluir que mesmo com o advento do trio elétrico e tantos outros elementos, a micareta de Feira já não exibe a mesma animação de tempos passados.
 
A falta de animação, é bom frisar, não é um fato que ocorre nos dias atuais nem  de poucos anos  atrás. Há mais de cinco décadas, em 1966, por exemplo, logo após a realização de mais uma micareta, o jornal “Folha do Norte” já dizia que “a cada ano que passa, a animação de rua vai desaparecendo”.
 
Também naquele ano o jornalista Franklin Machado, em artigo com o titulo “Velhos Tempos”  dizia textualmente: “O fato é que no meu tempo de menino víamos batucadas, cordões, ranchos, blocos e fantasiados desfilando pelas ruas  fazendo todo mundo rir com seus trajes  em cartazes cômicos.”.
 
Feitas  essas observações, vamos hoje lembrar de uma micareta mais distante, a de 1947, realizada nos dias 11, 12, 13 e 14 de abril, com grande animação nas ruas e nos clubes.  
 
A cidade, como de resto o país, vivia a transição entre a queda do Estado Novo, a instalação da Assembleia Constituinte que come uma nova constituição que devolveu ao país o regime democrático. Nesse período, até que fossem realizadas eleições gerais, vários prefeitos assumiram como interventores os destinos da cidade..
 
Quando da realização da micareta de 1947, era prefeito  o farmacêutico João Barbosa de Carvalho, que substituiu Carlos Valadares que se afastou para ser candidato a deputado estadual. Homem bondoso, dono da antiga Farmácia Agrário, João Barbosa era tido como médico pela classe pobre da cidade. Morreu no exercício do cargo e foi substituído por mais um prefeito tampão, o advogado Edelvito Campello, mas esse é outro assunto, pois hoje estamos tratando de micareta.
 
Naquele ano Feira  ainda era uma cidade pequena basicamente com  quatro grandes ruas no centro, alguns becos que ficariam famosos e cerca de meia dúzia de subúrbios com poucas casas. Entre eles, Tomba e Sobradinho. Tanto  assim que segundo  os números oficiais do IBGE, nos anos 40  todo o município de Feira de Santana tinha apenas  83.268 habitantes, sendo 63.608 na zona rural e sòmente  19 mil e 660  pessoas residindo na sede do município.
 
Sobre a micareta, os jornais da época destacam que além dos três clubes tradicionais -  25 de Março, Vitória e  Euterpe Feirense, que ainda funcionava no prédio da antiga Prefeitura, em frente a Igreja Senhor dos Passos, também houve festa no caçula Feira Tênis Clube, que tinha três anos de fundado.
 
O Tênis realizou quatro bailes cobrando do não associado 50 cruzeiros por noite e 150 cruzeiros pelas quatro noites. Vale ressaltar que para melhorar a sede  em razão da festa momesca, o diretor Newton Falcão conseguiu da Fábrica de Tintas Renner a doação de 72 galões de tintas Reko, para que fosse feita a pintura do clube.
 
Também foi grande a animação nas ruas. O jornal “Folha do Norte” que circulou depois da micareta, disse em matéria de primeira página:
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FEIRA EM HISTÓRIA: A Micareta de 1975

8/4/2019, 11:19h
No sábado, 14 de abril de 2007, participando do programa Primeira Página comandado por Valdomiro Silva, na Rádio Povo, abordei como tema a Micareta de 1975. Já que estamos às vésperas de mais uma folia momesca vale a pena lembrar aquela festa 44 anos depois (Adilson Simas)
 
- No último programa fizemos uma retrospectiva sobre antigas micaretas, começando com a primeira, realizada em 1937. Hoje vamos continuar com o tema focalizando a folia momesca de 1975.
 
Optamos por 1975 uma vez que naquele ano alguns elementos novos foram incorporados à festa. Entre eles a eleição para a escolha do Rei Momo e a criação do mais um baile pré-micaretesco, o “Caju de Ouro”.
 
A micareta foi realizada de 19 a 22 de abril, mas já a partir  de março a cidade entrou no clima momesco. No comercio, por exemplo, em meio a confetes e serpentinas, as lojas exibiam nas suas vitrines camisas havaianas, shortes, sandálias e principalmente mortalhas. 
 
Naquele tempo ainda existiam os gritos de micareta. Com grande afluência de público, o primeiro aconteceu no sábado, 29 de março, na Cidade Nova e no dia seguinte repetiu-se o sucesso no Alto Cruzeiro.
 
Os gritos prosseguiram no dia 5 de abril na Queimadinha, dia 9 no Sobradinho, dia 12 no Jardim da Paquera e encerrando a série houve grito no dia 16 na Praça da Kalilândia. Tamanha a importância desses ensaios que muitas vezes as emissoras de rádio faziam transmissão direta.
 
No dia do primeiro grito no sábado de Aleluia, o Feira Tênis Clube brindou seu quadro social com o famoso baile “Uma Noite no Havaí”. Após a leitura do  testamento de Judas, teve inicio a folia ao som da bandinha  Fetecê e do trio Tapajós.
 
No sábado seguinte, dia 5, substituindo o baile “Ula Ula” o Clube de Campo Cajueiro realizou pela primeira vez o  “Caju de Ouro” que se constituiria no maior evento divulgador não só da micareta, como da Feira de Santana.
 
O primeiro “Caju de Ouro” foi realizado em grande estilo. Além das ricas e luxuosas fantasias do carnaval carioca, à Feira vieram artistas  da Rede Globo, inclusive os que estavam participando das novelas em exibição.
 
Dos nomes globais aqui estiveram Elisangela, Isabel Tereza, José Augusto Branco, Miriam Pérsia, Marina Montini. Com eles costureiros famosos como Clovis Bornay, Evandro Castro Lima e Eloy Machado.
 
Também no “Caju de Ouro” Vinicius de Morais, Gesse Gessy e a ex-missa Marta Vasconcelos, que ao lado de personalidades locais, como o arquiteto Juracy Dórea, formaram no júri que  escolheu e elegeu as melhores fantasias em luxo e originalidade.
 
Naquele concurso, Charles Albert, para uns, mexicano, para outros argentino e para nós um feirense de coração, expressão da cidade na arte da tapeçaria e da criação de fantasias, encantou os visitantes exibindo suas ricas criações concebidas em solo feirense.
 
No sábado, 12, uma semana antes do inicio oficial da micareta, aconteceu mais um elemento novo. Foi o concurso para a escolha do Rei Momo, sendo eleito Hilkias Carvalho, o conhecido Gordo do Portão, como era denominado um dos pontos de encontro dos artistas da cidade, na Praça Padre Ovídio, onde também funcionava a Gafes – Galeria de Artes de Feira de Santana. Vale frisar que até 1974 a cidade trazia Ferreirinha, Rei Momo do carnaval de Salvador, para reinar na Micareta de Feira.   
 
Na sexta, 18, no palanque armado na Praça João Pedreira, o prefeito José Falcão da Silva coroou Silene Machado como rainha e as jovens Helena e Marizete como princesas. Já o Rei Momo recebeu as chaves da cidade.
 
Findo o ato simbólico, rei, rainha, princesas e autoridades se dirigiram ao Ginásio do FTC, onde com muita pluma e paetês, teve inicio mais um Baile dos Artistas, quando Neide Sampaio, a rainha dos artistas em 74, passou a coroa para Alvalice Mércia, a nova rainha.
 
De sábado a terça-feira, foi só alegria. Nas ruas, além do préstito de domingo e terça-feira, muitos blocos, cordões, escolas de samba, batucadas, e trios elétricos arrastando a multidão. Nos clubes, além de bailes no Clube Ali Babá, Clube Sesi e Clube dos Sargentos e Subtenentes, os chamados grandes clubes,  Cajueiro, Tênis e Euterpe, juntos, promoveram 28 bailes.
 
O Tênis, presidido por Dazio Brasileiro Filho, tendo como secretário João Marinho Gomes e Eduardo Teles diretor social, brindou o associado com a decoração  “Arlequim Supeestar”, bolada por Charles Albert.
 
No Cajueiro a Orquestra Yemanjá contratada pelo diretor social José Olimpio Mascarenhas tocou para o folião pular nos salões decorados com o tema “Aquário Musical”. Jacob Aguzzoli era o presidente.
 
Na Euterpe, presidida por Rubem Carvalho, além dos cantores locais como Geraldo Borges interpretando velhas marchinhas, a presença do famoso Zé Pretinho da Bahia. “Micareta na China” foi o tema da decoração.
 
Tranquila foi aquela micareta e não poderia ser diferente. Dias antes do início da festa, Nivaldo Tourinho, delegado de Furtos e Roubos, tratou de recolher na pensão de seu Emídio, como era chamada a Cadeia Pública, hoje Câmara de Vereadores, todos os indivíduos como passagem pela delegacia, desde o famoso “Barriga Lascada” ao perigoso “Gasparzinho”.
 
Por sua vez, Jurandir Fernandes, Delegado Regional, percorria os bares tradicionais do centro, como o Boteco do Regi, Boteco do Vidal, Coréia de Edgar, Katucha de Aniceto, Visgueira da Vitorino Gouveia e tantos outros vendo in loco se estava sendo cumprida sua portaria, na qual dizia ser proibida a venda de bebidas alcóolicas a pessoas que estejam em liberdade condicional.
 
Por fim, numa dessas visitas, ao chegar no Boteco do Regi, local preferido do pessoal da imprensa, Jurandir, sempre gaguejando,  perguntou  ao saudoso sargento Regi se ele estava cumprindo rigorosamente a sua portaria. Regi alisando a cabeça forrada de brilhantina goltora respondeu em voz alta e causando risos:
 
Tô não amigo velho! Você mandou realmente a portaria e eu colei ali na parede. Mas  esqueceu de mandar o álbum de fotografias, para eu poder identificar  os clientes foliões que estão em liberdade condicional. (Adilson Simas)
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FEIRA EM HISTÓRIA: Uma mulher especial

1/4/2019, 8:35h

No seu disputado livro A Feira na Década de 30, o decano historiador Antônio do Lajedinho relembra seu ingresso na Escola Normal em 1939. Com o título “Uma Mulher Especial” ele lembra seus colegas, entre eles Analdina, filha de Leolindo Silva (Lili) e Dona Maria Silva (Maria de Lili). Vale a pena lembrar (Adilson Simas):

- Em 1939, depois de passar pelas escolas particulares de D. Neném, Professora Edith M. Boaventura, Margarida Brito e Emengarda Oliveira, submeti-me ao exame de suficiência e fui aprovado para ingressar na Escola Normal Rural de Feira de Santana.

Dos colegas de turma recordo-me Boanergens Santos, Divaldo Franco, Valdir Pomponet, Eurico Pinto, Antônio Pereira, Aloísio Cerqueira, Wagner Mascarenhas, Elza Macedo, Cibele Almeida, Maria Éster Portugal, Niá Guimarães, Dalva e Abgail Moreira, Percília Dórea, Tereza, Ivete, Margarida, Faraildes, Aidil, Carmosina e mais outras quarenta colegas, além de outros já em fase de professorandos como Arlindo Pitombo, Antônio Barreto, Itan Guimarães, etc. 

Naquele ano entre os colegas de turma estava Analdina, a mulher que nasceu na década de 20 com o espírito de mulher do ano 2.000. Filha de Leolindo Silva (Lili) e Dona Maria Silva (Maria de Lili), irmã dos meus amigos Osvaldo e Evilásio, família de classe média alta, Analdita agia como age hoje uma universitária: mantinha amizade com colegas de ambos os sexos, discutia assuntos políticos, montava a cavalo com calça de homem e era espirituosa e criativa.

Uma vez, durante uma prova de língua francesa, o professor, Padre Mário Pessoa, flagrou Analdina com uma pesca enrolada na meia que vinha acima do joelho. Com sua voz macia, porem firme o Padre Mário pediu – D. Analdina, devolva-me a pesca que está em sua meia. Mas Analdina contestou – Não há pesca nenhuma em minha meia e se o senhor acha que tem pode vir tira-la.

Embora todos sorrissem do desafio, o Padre Mário aproximou-se, mentalizou a localização da pesca, virou o rosto, levantou um pouquinho a ponta da saia e pegou a pesca na dobra da meia. Enquanto todos voltavam a sorrir o Padre Mário mostrava a pesca como sinal do dever cumprido. Era um bonachão e deixou-a prosseguir na prova.

Analdina deixou a Escola Normal no ano seguinte e em Salvador adquiriu um Taxi, sendo talvez a primeira taxista na Capital. Depois encontrei com Analdina em Salvador dirigindo um ônibus, que certamente também lhe conferiu a posição de primeira motorista de coletivo.

Analdina era muito brincalhona e estava constantemente se metendo em encrencas, o que levava seu pai a castiga-la, principalmente cortando-lhe a mesada.
Mas um dia, segundo me contou seu irmão Osvaldo, Analdina acordou cedo e foi à cozinha e, por acaso, flagrou seu pai beijando a empregada.

Surpresa, exclamou: “Pa-pai!”

O velho assustado perguntou:

“Esta não é a tua mãe, não?!”

E arrematou:

“Eu sem óculos não sou ninguém!!!”

Daquele dia em diante a mesada de Analdina teve uma estabilidade maravilhosa.

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FEIRA EM HISTÓRIA: Vereadores da 1ª Legislatura (1948 a 1950)

18/3/2019, 10:7h
Com a morte do Estado Novo e o nascimento da  redemocratização, a nova constituição promulgado marcou eleições gerais para 1947. Hoje vamos lembrar os treze vereadores eleitos no domingo 21 de dezembro de 1947. Feira tinha cerca de 10 mil eleitores. 
 
Áureo de Oliveira Filho  -  Já tinha sido vereador antes da redemocratização, era  dentista e educador que criou o antigo Colégio Santanópolis.  Áureo foi deputado estadual em mais de uma legislatura e faleceu no exercício do mandato em 1976.
 
Augusto Matias - Exerceu mais de um mandato tendo sido inclusive presidente da câmara. Na sequência foi secretário municipal de Saúde no tempo do prefeito Amorim e depois deputado estadual várias vezes. Por último foi indicado conselheiro  do TCM.
 
Abilio Santa Fé Aquino -  Eleito  com base eleitoral no então distrito de Tanquinho de Feira, onde se instalou em 1931, vindo de Irará sua terra natal. Comerciante, produziu em sua fazenda a famosa a “Manteiga Santa Fé”. Faleceu em setembro de 2009.
 
Almachio Alves Boaventura - Tinha  grande popularidade e já na eleição seguinte foi eleito prefeito pelo PSD, derrotando  Carlos Bahia, da UDN. Professor, tabelião do 1º ofício, foi fundador do jornal “Diário da Feira”,.
 
Antônio Ribeiro Cunha - Nasceu no distrito de  Tanquinho de Feira mas ainda jovem se transferiu para o distrito de Pacatu, hoje Santa Bárbara, que terminou sendo sua base eleitoral. De família tradicional, sua neta Iara Cunha foi a primeira reitora da Uefs.
 
Antônio Leopoldo Cabral - Poeta e comerciante do ramos de tecidos, foi acima  de tudo um político militante ligado ao líder Eduardo Motta. Entre seus filhos, o jornalista Muniz Sodré de Araújo Cabral  que chegou a presidência da Biblioteca Nacional. do Rio de Janeiro.
 
Antônio Oliveira Matos - Professor formado na Escola Normal, lecionou Matemática no Santanópolis e foi um dos fundadores do Feira Tênis Clube. Irmão da profª Diva Matos Portela e tio do ex- Ministro da Educação Eduardo  Portela, Matos faleceu em Recife.
 
Demócrito de Lima Soares – Servidor fazendário  e  fazendeiro, que viveu parte da infância em Salvador, foi vereador eleito para aquela legislatura e reeleito em 1950 para a legislatura seguinte. Um dos seus filhos, Cláudio Soares, o sucedeu na militância política.
 
Edelvito Campelo D’Araújo -  Antes de ser vereador e primeiro presidente da câmara pós redemocratização, foi secretário da prefeitura e chegou a assumir o executivo com a morte de João Barbosa de Carvalho. Foi o primeiro presidente da OAB local. 
 
José Joaquim Saback - Tinha a patente de tenente e com esse titulo aqui chegou vindo de Salvador, para reestruturar o antigo Tiro de Guerra. Voltou a residir em Salvador, onde veio a falecer.  Um dos filhos, Paulo Saback, foi vereador na capital.
 
João Baptista Carneiro - Pai de João Durval Carneiro, avó do ex-prefeito de Salvador João Henrique Carneiro e do ex-deputado  Sergio Carneiro. Mesmo com grande votação não se reelegeu em 1950, porque seu partido, o PRP não atingiu o coeficiente eleitoral.
 
Renato Santos Silva -  Antes de formar entre os vereadores eleitos   para a 1ª legislatura, teve seu nome cobiçado para ser o candidato a prefeito dos pessedistas. Seu filho, Angelo Mário (Arena), foi candidato a prefeito em 1976 e o genro Antônio Navarro (PTB), em 1988 
 
Servilho Alves Carneiro - Eleito vereador com base no distrito de Bom Despacho, hoje Jaguara, foi naquela legislatura  o vice-presidente da casa. Voltaria à câmara na quarta legislatura, mas como suplente. (Adilson Simas)
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FEIRA EM HISTÓRIA: A Feira há 66 anos

11/3/2019, 9:37h

Vamos voltar a tempos idos, lembrando o que estava acontecendo em Feira no dia 13 de março de 1953, portanto há 66 anos tomando como fonte algumas publicações da época, assim como noticias vinculadas nos jornais que existiam na cidade.

Sobre os jornais vale frisar que além do decano semanário “Folha do Norte” mais dois estavam em circulação. O também semanário “Vanguarda”, do vereador Demócrito Soares e o “Diário de Feira” do prefeito Almachio Boaventura.

Antes das notícias, um pouco daquela Feira de Santana que no inicio da década de 50, segundo dados do IBGE, tinha um total de 107 mil 205 pessoas habitando o município, sendo 34.277 no distrito sede e 72.928 nos demais distritos zona rural.

Feira tinha como seu prefeito, o tabelião Almachio Boaventura, que antes exerceu o cargo de vereador. Almachio, entre outras realizações, construiu o estádio municipal que mais tarde, em 1966, deu lugar ao atual Jóia da Princesa, edificado por Joselito Amorim.

Treze vereadores integravam o poder legislativo. Entre eles três ex-prefeitos: Heráclito Carvalho que governou por dois períodos, no final dos anos 30 e inicio dos anos 40. Francisco Caribé que foi um dos muitos nomeados após a queda do Estado Novo e Aguinaldo Boaventura eleito em 1947, com a volta do regime democrático.

Também entre os treze vereadores dois jovens estreantes que entrariam para a história política da cidade. O médico Wilson Falcão e o advogado Francisco Pinto ambos já no “andar de cima”. Em 1971 os dois passariam a atuar juntos na câmara dos deputados.

O poder judiciário continuava funcionando no prédio da Prefeitura e as sessões do júri no espaço hoje denominado salão nobre. Juiz de Direito da Vara Cível da Comarca de Feira de Santana, Candido Colombo Cerqueira era a autoridade maior.

Feitas essas lembranças, vamos às noticias do tempo que a cidade tinha suas poucas ruas do centro e dos subúrbios, interligadas por muitos becos, alguns famosos com seus nomes exóticos, como o Bom e Barato, Lasca Gato, e Baixinha da Égua, Jibóia e outros.

Na saúde, a Santa Casa de Misericórdia distribuiu  balancete mostrando receita e despesas com as obras do novo Hospital Dom Pedro de Alcântara. Era provedor o vereador Wilson Falcão, tendo como tesoureiro Antônio Pinto, pai do historiador Raimundo Pinto.

Ainda sobre a Santa Casa, a instituição deu conhecimento que no primeiro bimestre do ano, janeiro e fevereiro, foram realizados 61 sepultamentos no Cemitério Piedade, de sua propriedade e único da cidade. Foram 38 em sepulturas pagas e 23 em sepulturas grátis.

No esporte a torcida da A. D. Bahia ainda comemorava a vitória de 4 a 1 no amistoso contra o Elite Futebol Clube, campeão de Santo Amaro. O “bicho papão” jogou com esta escalação: Baguesa, Lipinho e Bueiro; Cabo, Tote (Painé) e Juvenal; Alegre, Mirinho, Mário Porto, Macedo e Nozinho (Otoney).

Ainda no esporte, o time de basquetebol do Feira Tênis Clube, em que pese a grande exibição, perdeu de 29 a 26 para o poderoso C. R. Itapagipe. Clovis, Regis, Isaac, Dega e Dilermando defenderam o clube feirense que durante o jogo também utilizou os atletas  Itamar, Oyama e Helio Brasileiro. 

Na cultura, com grande presença foi realizada no Edifício Santana a primeira reunião para a criação da Associação Cultural de Feira de Santana. À frente da iniciativa estava Dival Pitombo, que foi o responsável pela redação do ante-projeto dos estatutos.

Na educação, o Colégio Santanópolis, pelo seu diretor Áureo Filho, anunciou para o dia 19 o encerramento das matriculas para os secundaristas e mais o curso comercial. No aviso, lembrou que já no dia seguinte seria iniciado o ano letivo por determinação do Ministério da Educação e Saúde.   
  
 Na política, Claudemiro Campos, presidente do PTB local, enviou dois telegramas a Getulio Vargas, presidente da republica. No primeiro sugerindo a liberação de mais recurso para as obra da rodovia Rio - Bahia e no segundo por conta da seca prolongada, pedindo medidas para amenizar o sofrimento dos nordestinos, em transito na cidade.

Na recreação, Silvério Pedra Banca anunciou excursão para quem quisesse conhecer e banhar-se nas águas milagrosas do Jorro, em Tucano. A caravana teve como ponto de partida a Rua do ABC, utilizando seu confortável caminhão de placa nº 3.00.97.

Na música, a professora Clarice Bullos Cerqueira avisou aos seus alunos e todos os interessados o recomeço das aulas do curso de piano na escola localizada na Rua Barão do Rio Branco nº 25/A.

No comércio, a loja “A Seda Moderna” comunicou aos foliões que “por conta da micareta que se avizinha”, acabou de receber entre outras marcas, “setim lumiére, lamé e duchese em todas as cores, além de organdys organzas lisas e lavradas”.  (Adilson Simas)

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FEIRA EM HISTÓRIA: Trajetória de vida de Joselito Amorim será contada em livro

18/2/2019, 10:9h

Primeiro secretário de Comunicação no tempo do prefeito Colbert Martins que criou a secretaria e titular da secretaria de Cultura, quando instituiu o Natal Encantado de Feira de Santana, já no tempo do prefeito José Ronaldo, o jornalista Jailton Batista se revela um grande escritor. Sua nova obra- O Filho da Madre, que será lançado  na próxima sexta-feira é baseado na vida do ex-prefeito Joselito Amorim, cujo “enredo de vida se confunde com uma obra de ficção”. Veja o que diz Jailton sobre o livro. (Adilson Simas)

O FILHO DA MADRE - NOTA DO AUTOR

O filho da madre é um livro inteiramente baseado na vida de um personagem às vésperas de completar 100 anos de idade: o professor de Matemática e político baiano Joselito Falcão de Amorim, cujo enredo de vida se confunde com uma obra de ficção, tão fascinantes quanto inacreditáveis foram os episódios que se desdobraram em quase um século de existência. 

Fruto de uma única noite de amor de uma jovem descendente de uma sólida aristocracia com um alemão importador de tabaco, com poucos dias de nascido ele foi entregue a uma pobre lavadeira para que a ele desse um sumiço - ou um destino. 

A vida, contudo, foi lhe bafejando com lances inacreditáveis de sorte, e ele se tornou um reconhecido professor de Matemática e um político vitorioso, amigo do general Castelo Branco, alcançando o cargo de prefeito da segunda maior cidade da Bahia, Feira de Santana, além de presidente do Tribunal de Contas do Estado, diretor de importante empresa estatal eum militar de carreira vertiginosa.

A sua mãe, a jovem Deolinda Falcão, aos vinte anos de idade, depois de dar à luz, foi mandada ao desterro de um convento, morrendo poucos anos depois supostamente de depressão, por não suportar a clausura.
O pai de Joselito foi o senhor... Bem, aí é onde o autor introduz a ficção, que se estende ao universo de Bertolina, a velha engomadeira. Na impossibilidade de levantar precisamente em Salvador, Feira de Santana e Hamburgo, na Alemanha, a verdadeira identidade do alemão que em 1918 foi recepcionado no palacete do senhor Manoel Ribeiro Falcão e com sua filha se deitou uma noite, acabei arranjando um pai fictício para ele. 

Na lista de passageiros alemães que desembarcaram no porto de Salvador naquele ano não era possível deduzir qual deles viera fazer negócios com o exportador de tabaco, pois os nomes de suas companhias não eram registrados. Além disso, os documentos oficiais da velha firma Ribeiro Sr. Falcão desapareceram. 

Poderia ter investigado mais sobre os negócios do senhor Falcão em Bremen e Hamburgo, para onde exportava frequentemente seu fumo, mas como não sou historiador e tinha pressa, restringi meu interesse em torno da madre Deolinda Falcão e seu fruto proibido.

A negra lavadeira que recebeu a incumbência de dar-lhe um fim, também não tem sua identidade verdadeira, pois seu nome foi esquecido pelos pais que o adotaram e pelo próprio Joselito Amorim. Contudo, seu endereço e sua pobre vida existiram no bairro Tanque do Urubu, na periferia de Feira de Santana, Bahia.

Fora isso e a licença que o escritor tem para construir sua obra, tudo o mais foi baseado em fatos reais, levantamentos históricos, longas entrevistas com o professor Amorim, viagens exploratórias a Hamburgo e Frankfurt e depoimentos de muitas pessoas vinculadas por laços de família ou afinidade aos personagens do romance. 

Naturalmente, a narrativa está eivada pela fantasia do autor, especialmente na construção dos cenários. Exceto o sr. Kurt Wilhelm Rudolf, Elga, sua esposa, seu amigo Heinz Schreder, Bertolina, a negra Berta, e a madre Maria Gorete, os nomes das demais pessoas que aparecem em “O filho da madre” são todos reais.

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FEIRA EM HISTÓRIA: Entrudo, as festas de Momo que antecederam a Micareta

11/2/2019, 9:56h

No livro “31 Anos de Micareta”, publicado em 1967 pelo jornalista Helder Alencar com capa de Juracy Dórea e republicado em 2011 pela Fundação Senhor dos Passos, o editor lembra que muito antes da Micareta, a cidade comemorava as festas de Momo com a denominação de “Entrudo”. Vale a pena ler de novo o consagrado historiador feirense (Adilson Simas):

O ENTRUDO

São antigas, muito antigas mesmo, as festas de Momo na Feira de Santana. Elas datam de quando o carnaval ainda era a festa bárbara, denominada de Entrudo, festa que precedeu, no Brasil, como em Portugal, aos grandes festejos carnavalescos. 

Diz Luiz da Câmara Cascudo, inegavelmente o maior folclorista brasileiro, no seu “Dicionário do Folclore Brasileiro”, que o “entrudo brutal e alegre viveu até meados do Século XIX”. 
Assinala, ainda, Cascudo, que “pelo norte, centro e sul do Brasil o movimento era geral. Água, farinha do reino, gomas ensopavam os transeuntes - águas molhando famílias inteiras em plena batalha”. 

O velho jornal “O Comercial”, que por muitos anos se editou na cidade de Feira de Santana, condenava, em 1871, o entrudo feirense, com a seguinte nota: 
“O divertimento do entrudo passou nesta vila sem lamentar-se desgraça alguma, graças ao desuso e que vai caindo esse péssimo brinquedo”. 

O entrudo permaneceu, entretanto, até 1891, ano em que os jornais locais dão conta das primeiras manifestações carnavalescas. 

Em 1877 --  durante o entrudo feirense -  no baile das máscaras do Hotel Globo, o moço Francisco Xavier de Macedo recebeu uma estocada e, no local denominado Minadouro desancaram a pauladas a Martin Levino Diego. 

Como pode se notar a fama do Minadouro data de longos anos. 

O entrudo era, assim, uma festa bárbara, violenta e absurda, precursora do carnaval. 

Na Feira de Santana houve muitos entrudos, até que surgisse o carnaval que durou alguns anos, quando então apareceu esta festa magnífica e grandiosa que é a Micareta.

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FEIRA EM HISTÓRIA: Do antigo campo de aviação ao aeroporto

4/2/2019, 9:6h
Vale a pena ver de novo artigo assinado pelo jornalista Hugo Navarro, publicado no blog da Tribuna Feirense em 23 de janeiro de 2011, versando sobre o antigo Campo de Aviação no bairro Campo Limpo e o atual aeroporto em terras do distrito de Jaíba. (Adilson Simas)
 
O CAMPO DE AVIAÇÃO E O AEROPORTO
 
O primeiro campo de aviação da cidade, criado nos tempos do governo de Heráclito Carvalho (Seu Lolô), ocupava espaço, no Campo Limpo, onde hoje está o bairro que recebeu o nome de George Américo, líder de invasões de terras e, por isso mesmo, herói popular. O alheio, para muita gente, tem sabor especial. 
 
O Município, dono do terreno, reagiu, mas seus esforços tonaram-se inócuos porque o governador, Waldir Pires, benfeitor da humanidade porque fez discursos, declarou a área como de utilidade pública.
 No antigo campo de aviação floresceu o Aero Clube, que formou inúmeros pilotos sob o comando de oficial da Aeronáutica, contando com aviões doados por Assis Chateaubriand. Um daqueles aviões, pilotado por José Torres Ferreira (Zé Petitinga), caiu em mangueira de chácara, no Ponto Central, provocando comoção pública. 
 
A notícia chegou ao dono do imóvel, quando dava aula de Francês, no Colégio Santanópolis, o Dr. Pedro Américo de Brito, que saiu, precipitadamente, em direção ao local do desastre, seguido por quase todos os estudantes do Colégio e populares, em desabalada e esbaforida correria.
 
O acontecimento era sensacional e inédito, mas resultou em frustração porque soldados do II, 18º. R.I., armados, já haviam isolado toda a área, não permitindo a aproximação de curiosos. O avião teve danos de pequena monta, o piloto livrou-se incólume para novas aventuras aéreas, que não foram poucas, e o Dr. Pedro Américo, salvo alguns galhos quebrados e umas poucas mangas sacrificadas, não sofreu prejuízos.
 
Diante da invasão e ocupação desordenada do campo, outro governador, que tinha propriedade rural em Jaíba, resolveu dar, ao Município, novo campo de pouso, com o nome de aeroporto, unindo o útil ao agradável, mas o campo, construído perto de sua fazenda, caiu no abandono. Nem os “Irmãos Metralha” ali permaneceram. “Brevemente, entretanto, segundo promessa do governo, será recuperado”.
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FEIRA EM HISTÓRIA: Arnold Silva transcreve trabalho de Godofredo Filho sobre a Igreja dos Remédios

21/1/2019, 9:57h

No seu tempo de jornalista em plena atividade, o ex-intendente, ex-deputado constituinte e ex-prefeito Arnold Silva mantinha no jornal Folha do Norte a coluna “Vida Feirense”, lembrando fatos do passado alusivos a esta cidade registrados. Na edição do jornal que circulou em 29 de abril de 1950 o historiador transcreve o trabalho do poeta Godofredo Filho sobre a Igreja dos Remédios. Vale a pena lembrar (Adilson Simas).

NA COLUNA VIDA FEIRENSE, A IGREJA DOS REMÉDIOS


 

“29 de maio de 1940 - O poeta Godofredo Filho [foto], ilustre feirense, ex-professor da Escola Normal e assistente técnico da 5ª Região do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, está empenhado em obter apontamentos sobre a capela de N. S. dos Remédios, no sentido de colocá-la sob a proteção do mesmo Serviço” 

- Neste ponto, como em tantos e importantes outros, falham lamentavelmente os dados de que se dispõe, bastando lembrar, a respeito, que ninguém sabe como, quando e onde morreu Maria Quitéria de Jesus.
Não se conhece a data de fundação do pequenino templo, com a sua torre que é, na opinião de Godofredo ‘tudo que a Feira possui de interessante em arquitetura’, tendo sido ‘salva de maior profanação’ nas sucessivas remodelações porque passou a capela.

Diz-se que da comissão que a construiu fez parte o velho boticário Gouveia; que a louça da torre foi uma oferta do capitalista Joaquim Pedreira de Cerqueira; e que um dos sinos viera do engenho ‘IIicuritiba’, doado pelo agricultor português cel. Felipe Benício Teles Barreto. Nada, porém de certo e comprovado.
No dia 7 de novembro de 1859, pela manhã, o imperador d. Pedro II visitou a capela dos Remédios. Em 1864 era seu administrador Joaquim Pereira da Silva.

Este foi, segundo alguns antigos moradores da cidade, o fundador e construtor da capela, antes, muito antes de 1846,quando para esta vila se transferiu a sede da freguesia, que era, até então, o arraial de São José das Itapororocas.

Outras opiniões dão, porém, à capela dos Remédios origem mais remota. O certo é que já em 1835 era ali que se reunia o ‘tribunal de julgação’.

Caboclo alto, forte, já entrado em anos quando o conheceram velhos habitantes da cidade, Joaquim Pereira da Silva, se não foi o fundador e construtor, foi remodelador zeloso e devotado da capelinha. 

Negociante estabelecido em casa de molhados à Rua Direita do Comércio, tinha o apelido de Joaquim Grande e do próprio estabelecimento, que era próximo, estava constantemente a observar as obras que do seu próprio bolso fazia executar na capela.

Da torre se encarregou a princípio o pedreiro Pacheco e depois, vindo de Cachoeira, Francisco, vulgo Chico. Ficou, depois, cognominado Chico da Torre.

Estes informes devemo-los, principalmente, ao falecido Possidônio José da Silva (Possidônio Cabano)
Em 1895 estava quase arruinado o templosinho dos Remédios.  Foi restaurado e reentregue ao culto em 1900, quando se realizou, ali, uma das mais pomposas festas religiosas que a cidade tem assistido até hoje.

Em 1917 demoliu-se a fachada principal, erguendo-se nova frente, que obedeceu a planta traçada pelo Sr. Miguel Araújo.

Volvidos três lustros, necessidade houve de uma remodelação completa na capelinha. Dela se desobrigou uma comissão em que foram figuras principais os srs. Heráclito Dias de Carvalho e Antônio Ferreira da Silva. Reabriu-se, então, em outubro de 1936. 

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FEIRA EM HISTÓRIA: "O Ouro dos Frades" e outros fatos misteriosos lembrados em crônica de Hugo Navarro

14/1/2019, 9:32h

Professor e advogado com passagem pela vida pública como procurador, vereador e advogado, o jornalista Hugo Navarro Silva, que faleceu em 29 de março 2015, deixou inúmeras crônicas sobre as coisas de Feira Santana, todas publicadas no centenário Jornal Folha do Norte. Lembremos hoje “O Ouro dos Frades”, uma das últimas antes de sua viagem para o “andar de cima” (Adilson Simas).

CRÔNICAS DE HUGO – O OURO DOS FRADES

Volta e meia Feira de Santana torna-se palco de fatos estranhos, extravagantes, misteriosos, que até sumir no tempo vão ganhando contornos surpreendentes, levados pelos exageros populares, causando estupefação e às vezes justas revoltas. Causou espanto e frenesi o caso do “ouro dos frades”, quando pessoas de certo destaque quase derrubam casa da Praça da Matriz com largas e profundas escavações em busca do ouro – um vasto tesouro semelhante ao dos piratas do Caribe – que frades teriam ali enterrado em priscas eras.
                   
A corrida do ouro atraiu pessoas que largavam “croisé”, colete, calças de flanela, cucos e cartolas para ingentes e quase secretos esforços ao cabo de pá e picareta, a começar do jornalista polemista e temido poeta satírico Cristovam Barreto, que se valeu da condição de afamado antropólogo para mascarar suas atividades, havidas por busca de ossos, cerâmicas, instrumentos e outros traços de índios que aqui teriam vivido desde tempos imemoriais.
                   
Sem querer falar do “lobisomem da avenida” e de outros fantasmagóricos freqüentadores de nossas ruas, quando chegava a madrugada, lembramos o estranho “caso das caveiras”, escândalo que ultrapassou as fronteiras do pais, liquidou, moralmente, um bando de rapazes da sociedade local e nunca foi devida e completamente esclarecido.
                   
Outro caso intrigante aconteceu na noite de 5 de dezembro de 2006, quando  irrompeu, na Rua Sales Barbosa, pavoroso incêndio. Apesar de esforços populares e de intenso trabalho dos bombeiros o fogo devorou, rapidamente, quase uma dezena de casas comerciais, causando enormes prejuízos e enchendo a cidade de apreensões.
                   
A Sales Barbosa, há tempos, vem criando ambiente para sinistro de vastas proporções. Estreita, transformada em calçadão onde não podem circular veículos, atulhada, completamente, de barracas e incrível tralha de vendedores ambulantes, formada de casas geralmente antigas, com precárias instalações elétricas, a qualquer momento poderia, como infelizmente aconteceu, transformar-se em terrível fogueira.
                   
A polícia, entretanto, descobriu os culpados. Em operação de rotina, quando ouvia conhecidos arrombadores, três deles, sem grande esforço da parte da polícia, confessaram o crime com detalhes rocambolescos e com enorme facilidade. Não possuíam mandato popular, nem eram ladrões da República, mas simples larápios, vagabundos, pés-de-chinelo. Segundo o noticiário, numa rua cheia de vigilantes noturnos e de ambulantes que ali passam a noite a vigiar barracas, os ladrões tentaram arrombar porta de comércio. Não conseguiram. Resolveram, então, atear fogo a tábua e o incêndio se alastrou de forma devastadora. A polícia, surpreendida diante do inesperado, levou os supostos incendiários ao Ministério Público para que confirmassem a estranha confissão, com o ar de quem poderia dizer: achamos o “ouro dos frades!”
                   
No Brasil de hoje nada surpreende. Não deixaram de causar espanto, contudo, declarações de pessoas de alguma responsabilidade lamentando que a polícia, ao invés de meter os supostos incendiários, imediatamente, em galés perpétuas, deixou-os em liberdade. Querem, brasileiramente, um estado policialesco.
                   
Muito mais espantoso, entretanto, é que no intenso noticiário sobre o assunto ninguém falou da preservação do local do suposto crime, mexido e remexido por curiosos e saqueadores, e nem de longe houve referência a exames periciais obrigatórios, em tais casos, que poderiam determinar a causa do sinistro e o sítio de origem se conduzidos de forma competente e honesta.
                   
Ao que tudo indica a confissão dos ladrões resolve tudo. Logo a confissão, a “rainha das provas” nos tempos da Inquisição, mas que nos dias do hoje, longe da certeza, só levanta dúvidas?

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