FEIRA EM HISTÓRIA

FEIRA EM HISTÓRIA: Jovens feirenses, amantes da astronomia, idealizaram o Observatório Antares na década de 70

16/4/2018, 18:5h

Comerciante, empresário, publicitário, produtor cultural, José Olímpio Mascarenhas tem uma intensa presença nos mais diversos segmentos de Feira de Santana. Na comunicação, por exemplo, foi um dos diretores do “Feira Hoje” quando o tradicional jornal passou a circular diariammente, e na imprensa falada a ele se deve a primeira emissora de Rádio FM, hoje a Princesa FM. Em artigo publicado em 2002, José Olímpio fala da sua luta com César Orrico e outros amantes da astronomia, que culminou com a criação, nos anos 70, do Observatório Antares, o primeiro do Norte e Nordeste do Brasil. Vale a pena a leitura (Adilson Simas).

OBSERVATÓRIO ANTARES

Alberto Oliveira, a pedido nosso e de César Orrico, doara seiscentos metros quadrados de área em loteamento de sua propriedade, no fim da Getúlio Vargas, para que fosse construído o Observatório Antares.

José Olímpio teve intensa presença em vários segmentos

Everaldo Cerqueira, arquiteto e também astrônomo amador, fizera a planta e havíamos adquirido um telescópio em Manaus, um pouco mais potente do que o de César Orrico.

Estávamos na residência de Beto Oliveira e de Áureo Filho, vizinhos, tratamos dos primeiros passos do Antares quando Beto, entusiasmado, mostra o projeto e comunica ao pai, Deputado Áureo Filho, a boa nova:

- “Zé Olímpio, César Orrico e um grupo entusiasta vão construir um observatório astronômico em nossa cidade. Doamos o terreno e o projeto está aqui”.

Mostra ao deputado a planta de Everaldo Cerqueira, Áureo Filho, balança a cabeça, encara Beto, eu e César e, com uma frase seca e gutural nos choca de início:

- “Feira de Santana não merece isso”.

Ficamos sem entender, e Alberto Oliveira, meio sem jeito com a reação do pai deputado, tenta consertar e amenizar a decepção:

- “Que é isso, meu pai, os jovens querem fazer algo por Feira, construir um observatório, despertar o interesse pela astronomia, etc etc e o senhor desanima, que tem de errado”.

O nosso deputado, visionário, idealista, sonhador, mente aberta, olhos de águia, ensaia um discurso:

- “É isso mesmo, Feira de Santana não merece isso, temos que trazer para nossa cidade o que tiver de maior. Na Universidade de Salvador, as aulas de Astrofísica não são ministradas por falta de um observatório na Bahia e está na hora de instalarem um em nossa cidade, um observatório digno desta juventude estudiosa e sadia” e continuava o seu discurso inflamado como se estivesse falando na tribuna da Câmara, defendendo o projeto, com todo entusiasmo e eloquência.

Eu, César e Beto nos entreolhando.

Quando fez uma pausa, virou-se para mim e César:

-“Vou ter uma audiência com o governador Antônio Carlos daqui a pouco, se vocês quiserem vão comigo e prometo que o governador será simpático à ideia”.

César Orrico foi um dos principais entusiastas do Observatório

César Orrico e eu pegamos em casa um paletó e seguimos com o deputado para falar com o governador da Bahia. Nascera naquele momento, o grande Observatório Antares, construído em área mais adequada, doada pela Imobiliária de Milton Falcão de Carvalho, Bubu, e projeto de Raimundo Torres, conhecer dos observatórios mais modernos do mundo naquela época.

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Teatro Margarida Ribeiro surgiu por iniciativa de movimento cultural na década de 70

9/4/2018, 14:20h

O publicitário Antônio Miranda lembra como nasceu no início dos anos 70, o Teatro Municipal Margarida Ribeiro. Com o título “O Teatro e o Lampião de Gás”, o texto Miranda, considerado um dos grandes responsáveis pelo agito do movimento artístico e cultural da cidade, foi publicado em 2002 no livro do artista plástico Gil Mário de Oliveira Menezes e vale a pena ler de novo. (Adilson Simas)

O TEATRO E O LAMPIÃO DE GÁS

Parece coisa dos tempos de antanho, mas não é. É mais recente do que sonha nossa vã cronologia. Início da década de 70, anos férteis da contracultura. Nosso grupo à luz de um pibigás com lampião por falta de uma luz que iluminasse novos palcos na cidade, reunia-se para ensaiar CLEÓPUTO. Um espetáculo experimental que reunia textos escritos em nossas andanças por São Paulo.

O local emprestado já tinha sido casa de peças (de automóveis, não de teatro), Boliche e Boate do círculo que, a título de nos fazer sentir metropolitanos, batizamos de Rua Augusta. A área abrigava o Feira Tênis Clube, barzinhos, casas noturnas, etc, e reunia a nata – da  esquerda – festiva teatral da cidade.

Pibigás aceso, elenco no palco improvisado, iniciados os laboratórios dramáticos (tão em vigor na época), um devaneio.

- Puxa, isso aqui até que daria um teatrinho legal!

- Tá sonhando Miranda?

- Não. Dá mesmo! Vamos até aqui na esquina falar com seu Modesto, que é o dono do prédio, perguntar quanto é o aluguel e amanhã a gente vai ao prefeito pedir para ele reformar e pagar o contrato.

- Miranda pirou de vez!

Esta não era a gíria da época, mas piramos todos.

Toda gente de teatro: Geraldo Lima, Luciano Ribeiro, Gildarte Ramos, Alvaceli Lima, Zé Maria, Naron Vasconcelos, Aliomar Simas, Gilberto Duarte, Dimas Oliveira, Luis Arthur, Iderval Filho, Getúlio (Pelé) Marinho da Natividade, Ronaldo Souza Santos, Hélio Cerqueira.

Pedimos audiência e fizemos o pedido ao Prefeito João Durval. Fomos atendidos.

Reza a lenda que um assessor chamou a atenção do prefeito. Vamos imaginar que a conversa foi assim:

- Dr. João, o senhor vai dar um Teatro para os comunistas?!

- Não, eu vou dar um Teatro para a cidade.
 Fecha a cortina.

Naquela época, apesar da repressão braba, da censura prévia, formávamos a juventude libertária que ainda se alimentava de esperança, apesar de tonta com a tortura esporada ao AI 5.

Margarida Ribeiro foi considerada uma "mulher símbolo" na cultura local

Voltamos ao Teatro. Já tínhamos as cadeiras, o projeto foi feito, as obras realizadas. Prosseguimos os ensaios, estreamos a peça e o TEATRO MARGARIDA RIBEIRO.

Justa homenagem a uma companheira, mulher-símbolo-de-nossa-época, que perdemos em uma fatalidade.

Depois de CLEÓPUTO, veio EXUMA, veio LUCAS DA FEIRA, vieram novos espetáculos e veio o fechamento do MARGARIDA RIBEIRO com a mudança de prefeito.

Ai, o Auditório do Colégio Monteiro Lobato se transformou e ganhou a pompa de TEATRO MUNICIPAL MARGARIDA RIBEIRO, numa tentativa de substituição.

Dizem que quiseram tirar o nome de MARGARIDA RIBEIRO, para ficar TEATRO MUNICIPAL DE FEIRA DE SANTANA. Pensando, talvez, em receber um dia o Balé Bolshoi ou os “pavorittis” da vida.

Mas a classe teatral reagiu. Essa história não vivemos.

Nem  testemunhamos.

Quem souber que nos conte outra...

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Ilustres moradoras da Avenida Senhor dos Passos, as irmãs Dantas marcaram época na cultura local

2/4/2018, 15:30h

A Avenida Senhor dos Passos, tantas vezes cantada pelos nossos poetas, como a saudosa Irma Amorim, é exaltada na crônica de Neuza de Brito Carneiro. Com o título “A Casa das coisas boas: Uma homenagem a quem gostava de fazer alegria”, a escritora e musicista lembra personalidades que viveram na avenida, em especial as irmãs Dantas – Alcina, Ester e Alice que muito contribuíram para o engrandecimento artístico e cultural da terra de Georgina Erismann, Aloisio Resende e tantos outros. Vale a pena a leitura do artigo da também poetisa e artista plástica. (Adilson Simas)

Neuza de Brito Carneiro é escritora e musicista

 

A Casa das coisas boas: Uma homenagem a quem gostava de fazer alegria

A Avenida Senhor dos Passos foi cenário para inúmeras coisas boas. Na década de 1950, época da minha infância e adolescência, muitos personagens ilustres moravam nela. Recordo de muitos deles e posso citar alguns, começando por Nafitalino Vieira, minha lembrança maior, meu pai, famoso fotógrafo daquela época.

Havia também profª Helena Assis, Dr. Otto Schimdt, Dr. Renato Sá, seus filhos Renatinho e Ieda Sá; Profª Maria Luiza, seus filhos Carlos Augusto, Moacir e ( ); Seu Lopes e sua esposa que tinha uma pensão em frente à Praça Bernardino Bahia, seus filhos Gildásio, Riso, Ana Maria e Licinha; Francisco Pinto, Profª Diva, Iara Cunha e sua família; João Marinho Falcão e seus filhos Alfredinho e Xandinha; Dr. Wilson Falcão e filhos; seu Osvaldo (farmacêutico) e sua esposa D. Tinga, com suas filhas Vera e Sinai; Dr. Mário de Paula, sua filha Marli de Paula; Osvaldo Franco (Ioiô Goleiro), sua esposa, Olga e suas filhas Sônia e Tânia; Seu Bubu, sua filha Milma, e tantos outros enlaçados pela amizade sincera, mas cujos nomes agora me fogem a memória.

Porém, quero falar de uma dessas residências, cujas moradoras tinham o dom de fazer alegria. Trata-se das irmãs Dantas: Alcina, Ester (mais conhecida como D. Zinha) e Alice, residentes na casa que ficava na esquina com a Rua Intendente Freire, onde hoje existe uma loja de roupas femininas.

Alice estava viúva do seu terceiro marido, mas Alcina e D. Zinha não se casaram. Apesar de já não serem jovens, elas eram encantadoras mesmo assim. Elas tocavam e ensinavam a tocar piano, acordeon, violino, violão e bandolim.

Muitos alunos seus eram pessoas bem conhecidas como João Andrade (violino), Tiago (violino), Manoel (acordeon), Cleoilda (bandolim), Marquize (piano), Neuza (piano). Marli (piano), Gislaine (piano), José Ferreira Carneiro (piano e violino, e que depois seria o meu primeiro marido), Marluce (violino) e tantos outros cujos nomes também me fogem à memória no momento.

As irmãs Dantas restauravam e esculpiam imagens de madeira, os santos de sua clientela católica, assim como elas eram. Elas também acompanhavam no órgão (harmônio) as missas da Igreja dos Remédios; assim como acompanhavam ao piano os filmes mudos exibidos no antigo Cine Santana.

Elas ensinavam teatro e montavam espetáculos, levando suas peças teatrais tanto aqui em Feira de Santana, no palco da elegante Rádio Cultura, como também em cidades circunvizinhas (participei de algumas desses grupos). Elas mantinham programa de rádio ao vivo, aos domingos, programa de calouros, programas infantis, com cantores mirins bem badalados, concursos de naturezas diversas, nesse mesmo referido palco da Rádio Cultura; concertos com seus alunos de música, mantendo uma plateia de elite satisfeita com aqueles eventos.

Elas eram devotas de São Cosme e São Damião e para eles promoviam festas bem animadas com o famoso caruru em sua bem frequentada residência. Elas bordavam, costuravam, sabiam dar conselhos, enfim, exerciam seus brilhantes dons com dedicação e alegria.

Delas jamais ouvimos queixas, mas sempre ouvimos coisas boas e histórias edificantes. Elas jamais deixavam de atender com seus préstimos a quem as procurasse. Elas eram mulheres modernas e cheias de alegrias, estando bem adiante do tempo em que viveram.

Elas foram minhas primeiras mestras nas artes que abracei e assim foram para muitos e muitos feirenses. Por isso, nada mais justo do que lhes prestar esta singela homenagem, embora tardia, mas em tempo oportuno.

Sei que muitos se lembrarão do que aqui está relatado, por terem feito parte dessa história que permanece viva em nossos corações. Quem jamais se esquecerá daquela casa tão cheia de alegria? Resta-nos, pois, uma eterna saudade, este sentimento que imortaliza aqueles a quem amamos.

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Mulheres não participavam da Procissão do Fogaréu em Feira de Santana

26/3/2018, 14:55h

Este é o momento oportuno para lembrar como era em Feira de Santana, em tempos idos, a Procissão do Fogaréu que acontecia nas quintas-feiras da Semana Santa. Os mais antigos são unânimes em afirmar que a fé tem sido a mesma durante a procissão, que, no entanto muito tem perdido em afluência e solenidade. Vale a pena, pois, lembrar a Procissão do Fogaréu de antigamente, conforme editorial da Folha do Norte de abril de 1997. (Adilson Simas). 

A PROCISSÃO DO FOGARÉU EM FEIRA

A procissão, que ficou em nossa memória, era majestosa. À frente, com seu porte marcial, andar  pausado, o Coronel Álvaro Simões Ferreira, levando a imagem do Crucificado, seguido da irmandade da Santa Casa de Misericórdia, encapuzada, numerosa e dividida em duas alas, a conduzir tochas.

Em seguida vinha o Padre Mário Pessoa, a puxar a ladainha com voz  suave mas audível à distância, tal o pesado silêncio que se fazia.

Surgia, depois, a matraca, tangida, nos intervalos, por Claudio “Macaca Fêmea”, e o bombardino, tocado por Oscar Bombardino, que dava, ao cortejo, tom lúgubre e cerimonioso. Só depois aparecia o povão, tomando toda a largura da rua, mas respeitando o espaço das principais figuras da procissão.

O cortejo saia da Matriz, entrava na Marechal Deodoro pela Travessa de Santana, ganhava a Praça João Pedreira, na direção da Prefeitura e entrava na Avenida Senhor dos Passos em cuja igreja fazia a primeira parada, seguindo pelo Beco do França, detendo-se na Igreja dos Remédios e subindo a Rua Conselheiro Franco, parava na Capela de São Vicente, desaparecida como o prédio da Pensão Universal, com a construção do Mandacaru, recolhendo à Matriz a cuja porta, todos de joelhos, contritos, entoavam  o “Senhor Deus”.

Ninguém jamais conseguiu substituir o Padre Mário na ladainha e no “Senhor Deus” da Procissão de Fogaréus cuja melodia, no decorrer do tempo, foi sendo alterada até se tornar quase irreconhecível.

Naqueles tempos mulheres não entravam na Procissão, que simbolizava a prisão e a condenação de Jesus Cristo ao martírio, fatos de que mulheres não participaram. Ficavam, elas, em grandes grupos, nas esquinas, nos passeios, precipitando-se de uma rua para outra só para ver passar aquela enorme massa de homens contritos a entoar o “ora por nobis” nas pouco iluminadas e quase desertas ruas da nossa cidade, que davam à Procissão, aspecto  fantasmagóricos.

Contava-se, na época, que em tempos anteriores e mais ignários, frades estrangeiros, vermelhões de vinhaça, afastavam as mulheres da Procissão com poderosos e certeiros golpes dos pesados cordões das sotainas. Já naquela época as mulheres queriam se meter em tudo.

A procissão atraia notáveis tipos populares. Para Claudio “Macaca Fêmea”, que tocava a matraca, nas ruas, durante toda a Semana Santa, a grande glória era a de participar, de balandrau roxo, da Procissão de Fogaréus, o que também acontecia com Oscar “Bombardino”, que se preparava durante todo dia, para a Procissão, mandando às goelas boas doses de cana para temperar o sopro, que sempre saia suava e contido, como a ocasião exigia.

No meio da massa humana, que acompanhava a Procissão, entretanto, há que se destacar o grande número de cantores de todas as escalas e de todos os timbres, que ensaiava o “ora pro nobis” nas vendas, nos botecos, nos bares, reforçando as cordas vocais com aguardentes variadas, mas, principalmente com os produtos do alambique da Lapa, aproveitando o meio feriado de quinta-feira de trevas (a tarde não se trabalhava), para expandir a voz na Procissão.

O mais importante deles talvez tenha sido Euclides Alves Mascarenhas, escriturário da Prefeitura, ator do grupo teatral “Taborda”, tenor  dramático e notável intérprete de “O Ébrio” de Vicente Celestino.

As transformações sofridas por Feira de Santana têm sido profundas, radicais. Tudo aqui muda rapidamente. Hábitos, costumes, trajetos, crenças, aspectos e cacoetes. Mas, nem sempre para melhor.

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Carnaval e Micareta: qualquer semelhança não é mera coincidência

20/3/2018, 9:32h

Em razão da micpareta que se avizinha, o artigo desta semana, publicado no jornal Folha do Norte de fevereiro de 2002, fala sobre lembranças e imitações da festa nesta cidade em tempos idos. O texto destaca figuras como Maneca Ferreira, Tuta Reis, Aloisio Resende, Manuel de Emília, Estevam Moura, Álvaro Simões, Alcides Fadigas e tantos outros que ajudaram, cada um no seu tempo, para que o evento se transformasse na maior micareta do Brasil. Recordemos, pois. (Adilson Simas)


CARNAVAIS: LEMBRANÇAS E IMITAÇÕES

Os festejos carnavalescos desta cidade nunca mostraram qualquer originalidade, salvo em algum  detalhe, que se perdeu no tempo sem deixar marca. Essa ausência de autênticas novidades nas festivas manifestações populares talvez seja decorrente, em parte, da pobreza de população, que sempre viveu agarrada a ganhos, ainda que pequenos, evitando gastos extraordinários e farturas desnecessárias, de que teria resultado tendência para o prático, barato e simples, que só recentemente, com o crescimento dos negócios, pode tomar outros rumos.

Jamais nos distanciamos, entretanto, de outras comunidades no que diz respeito ao gosto pela folia e algum desregramento, natural aos seres humanos, embora sob censura, às vezes severa, dos mais conservadores, os guardiães da moral, que nesta cidade, em outros tempos, mostraram-se muito mais atuantes e eficazes do que nos permissivos dias de hoje, forçando a existência de condutas e aventuras supostamente secretas, os chamados segredos de Polichinelo, como a do professor, que bebia em casa, secretamente, mas caia na rua, dando lugar a sábio preceito genuinamente feirense: beba na rua e caia em casa.

Na Micareta, como no mais das coisas, imitamos tudo. Cordões (o das “Melindrosas”, de Manoel de Emília e das “Garotas em Folia”, de Romário Braga, eram os mais famosos) como o dos “Duvidosos”, de Alcides Fadigas, da Rua da Aurora, e batucadas, como a criada pelo maestro Estevão Moura (foto), “Os Cadetes do Amor”, não passavam de cópias do que se fazia em Salvador, que não deixava de imitar o que ocorria em outras praças famosas como o Rio de Janeiro e o Recife.

Nos primórdios da Micareta, afamadas festas carnavalescas da capital do Estado tomava a imaginação da juventude local pelas maravilhas que delas eram narradas. Glória eterna frequentar os bailes da Associação Atlética ou do Bahiano de Tênis. E criamos os nossos.

O mais concorrido, o da “25 de março” no sobrado, que ainda existe, da centenária sociedade, na Rua Conselheiro Franco, era desejo de muitos. O salão de festas, no andar superior, embora exíguo, mostrava-se suficiente e deslumbrante.

Os bailes, sob o comando do maestro Tuta Reis (foto), chegou a atrair gente de toda parte e reunir multidão, à porta, somente para ver as personalidades que ali chegavam, mas, principalmente, para se embasbacar com a roupa das mulheres. Muitos ficavam no sereno, noite adentro, quando o cheiro do lança perfume “Rodhouro” (não o veneno que se vende hoje), usado quase sempre para atrair a atenção das senhoritas, tomava toda a rua.

Havia outros bailes, menores, como o da “Sociedade Vitória”, também na Rua Conselheiro Franco, o da “Euterpe”, em velho prédio (hoje reformado) da Praça João Pedreira e o das “Melindrosas”, na Rua do ABC, visto, pelas mães de família, como coisa diabólica, o mais curto caminho para o Inferno.

Os desfiles de carros alegóricos da “Flor do Carnaval” e dos “Amantes do Sol”, alguns surgidos da genialidade de Manoel da Costa Ferreira, seguiram o modelo do Rio de Janeiro e de Salvador. Na capital do Estado brilhavam o “Clube dos Fantoches da Euterpe” e o “Cruz Vermelha”. Este chegou a exibir seus carros, nesta cidade, no desfile dos “Amantes do Sol”, de que era presidente o Coronel Álvaro Simões Ferreira e adepto fervoroso o poeta Aloísio Resende (foto), despertando críticas da facção adversária, que dizia que os adereços do “Cruz Vermelha” aqui chegavam mijados, amassados e vomitados.

Ultimamente, quando resolvemos adotar a monoatração carnavalesca do trio-elétrico, poderíamos imitar outros centros criando espaço onde as manifestações carnavalescas se possam desenvolver sem entraves, embaraços e prejuízos para a comunidade. Necessária e urgente providência.

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Cinema da Vitória e Teatro Santana, uma fusão que deu certo, no século XIX

5/3/2018, 17:4h

Maior conhecedor da sétima arte na Feira de Santana, vale a pena ler o artigo de Dimas Oliveira, lembrando o tempo do Cine Teatro Santana. Um dos mais antigos jornalistas da cidade, que em 2014 lançou o livro sobre cinema, comenta na imprensa impressa e nas redes sociais, os filmes que diariamente são exibidos nas salas de cinema da cidade (Adilson Simas)

LEMBRANÇAS DO CINE TEATRO SANTANA

Dimas Oliveira (foto)

“Cine-Teatro Santana, que me faz sonhar, outrora com bandidos roubando a minha coleção de selos e com certa lourinha mordendo-me a ponta do nariz!” (Eurico Alves Boaventura)

Há 96 anos, em 24 de maio de 1919, a inauguração do Cine-Teatro Santana, a partir da fusão do Cinema da Vitória e o Teatro Santana, que existiam no século XIX. O espaço passou a ser utilizado tanto para as exibições de filmes, quanto para os espetáculos teatrais, musicais e literários. Era situado na antiga Rua Direita, atual Rua Conselheiro Franco, em área pertencente à Santa Casa de Misericórdia. O espaço era considerado um instrumento de difusão dos ideais de civilidade e modernização.

Quando cheguei a Feira de Santana, no início dos anos 50, a sala não mais existia. Assim, nunca assisti a um filme no local. Ainda criança e adolescente sempre passava em frente da fachada preservada do prédio. Depois, foi derrubado para servir de estacionamento.

O que sei sobre o Cine-Teatro Santana foi contado pelo meu pai, Carlos Simões de Oliveira, “habituê” do espaço, de quem herdei o gosto pelo cinema. Eliziário Santana, seu confrade no charadismo, então era o proprietário do Cinema Santana.

Também sei através do historiador Antônio Moreira Ferreira, conhecido como Antônio do Lajedinho, que conta sobre o Cinema:

“(...) Tendo na frente uma porta larga que servia de entrada para a sala de espera, mais duas portas de frente, para saída, e duas bilheterias entre as portas. Ainda na frente existiam três janelas na parte alta, no mesanino, que, com advento do cinema, foram fechadas as laterais e transformadas em seteiras. A central onde foi instalada máquina de projeção. (...) A parte interna era mobiliada com cadeiras, tendo uma divisão na parte próxima do palco.”

Quanto às exibições de filmes e séries, foram apresentados aqueles que tinham a participação de atores renomados no período, como Buck Jones, Buster Keaton, Charles Chaplin, Douglas Fairbanks Jr., Rodolfo Valentino, Tom Mix, entre outros. Filmes como “Tarzan, O Homem Macaco”, de Scot Sidney, 1919, com Elmo Lincoln; “O Garoto”, de e com Charles Chaplin, 1921; “O Filho do Sheik”, de George Fitzmaurice, 1926, com Rodolfo Valentino e Vilma Banky; “A General”, de e com Buster Keaton, 1926; “Cavalheiro Amador”, de Thornton Freeland, 1936, com Douglas Fairbanks Jr. e Elissa Landi; ‘Flash Gordon”, de Frederick Stephani, 1936, com Buster Crabbe e Jean Rogers; “As Aventuras de Sherlock Holmes”, de Alfred L. Werker, 1939, com Basil Rathbone e Nigel Bruce e muitos outros.

Os espetáculos musicais ficavam a cargo das filarmônicas locais - Euterpe Feirense, 25 de Março e Vitória - que faziam saraus, além de cantores de fora que animavam as noites das elites feirenses com diversos ritmos. A poetisa e musicista Georgina Erismann, criadora do Hino à Feira, por várias vezes se apresentou no espaço. Em 1919, quando da passagem do Circo Belga pela cidade, foi realizada uma exibição da trupe belga LebAlberts e “seus cães sábios”.

Nas apresentações teatrais, destaque para o Grupo Dramático Taborda, o Grêmio Lítero-Dramático Rio Branco e as apresentações de cunho religioso, organizadas por grupos como o núcleo das Noelistas.
Além de um espaço de cultura e lazer, o Cine-Teatro Santana foi palco de grandes eventos políticos, como a conferência de Rui Barbosa, quando de sua visita a Feira de Santana, em 25 de dezembro dc 1919. Foi quando ele denominou Feira de Santana de “Princesa do Sertão”.

Eurico Alves Boaventura no poema “Cinema” (trecho no início deste texto) destaca que o cinema era um espaço para se sonhar. Antônio do Lajedinho diz mais que a plateia se entusiasmava com as exibições dos filmes: “a rapaziada fazia questão de ocupar as gerais, porque ah todos aplaudiam batendo o acento da cadeira e gritando a cada castigo que o mocinho aplicava no bandido”.

Ao piano, Anita Novais ou Alcina Dantas executava ritmos compatíveis com as cenas exibidas. As de amor eram acompanhadas com valsas. As de pancadaria, com foxtrote. Durante 30 anos, até o final da década de 40, o Cinema Santana funcionou sem concorrentes.

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FEIRA EM HISTÓRIA: Oscar Erudilho, um símbolo da Micareta

26/2/2018, 16:8h

Com todas as atenções da cidade já voltadas para mais uma micareta – sua maior festa popular, vale a pena lembrar artigo do falecido historiador Hugo Navarro, sobre a trajetória de Oscar Erudilho, considerado pelo cronista da Folha do Norte e por todos que o conheceram como “um dos mais importantes incentivadores e participantes da nossa grande festa de que é verdadeiro símbolo”. (Adilson Simas)

Foto: Historiador Hugo Navarro

- Oscar Erudilho da Silva Lima era filho do Major Juvêncio Erudilho da Silva Lima, prócer da “Soc. Filarmônica 25 de Março”, conselheiro municipal e destacado membro da comunidade, dono de chácara na rua que hoje tem o seu nome e vai da Barroquinha ao alto do Cruzeiro, antigamente simples vereda, local de aprazíveis e bucólicas caminhadas da gente da cidade. Ali, Oscar, ainda garoto, perdeu olho, atingido por inseto, o que o obrigou a usar artefato de vidro durante o resto da vida.

Ainda jovem Oscar mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se tornou figura conhecida como nadador e ponta esquerda das divisões de base do C.R. do Flamengo e chegou a ser propagandista da cerveja “Cascatinha”.

De volta a Feira, deram-lhe o cargo de escrivão. Naquele tempo os processos eram manuscritos e Oscar tinha letra cheia de arabescos e enfeites, aprendidos certamente no Paleógrafo, que lhe dificultavam o entendimento. Na época, réus pobres eram defendidos, no Júri, por pessoas da comunidade, como Arnold Silva, Álvaro Silva Lima (Ioiô de Calú) e Áureo Filho.

Certa ocasião o Juiz, Joaquim Ferreira Coelho, entregou processo ao professor Áureo Filho para uma defesa. Áureo se esforçou para ler os depoimentos. Não conseguiu. Chamado, Oscar, depois de folhear os autos perguntou que diabo era aquilo. Teve que permutar o cargo com Gerolina Nunes Falcão, funcionária do Município.

Viu-se, de repente, transformado em tesoureiro da Prefeitura onde fez longa carreira como tesoureiro e secretário, espécie de imagem do governo municipal como homem da confiança de vários prefeitos, que representava em solenidades de toda ordem.

Não havia Semana da Pátria, enterro, inauguração ou Dia da Árvore onde não se encontrasse Oscar, gordo, roupa de linho branco, óculos escuros, sempre pronto para discurso e reclamando do calor (foi orador oficial da “25 de Março”). Discursava bem, na época em que se dava valor a esse tipo de habilidade.

Com o passar do tempo Oscar assenhoreou-se dos serviços municipais e de seus mecanismos, tornando-se indispensável a vários prefeitos que nada queriam com a administração, dando, a todos, ouvidos e explicações. Ao serviço nunca faltou e jamais chegou atrasado, pouco importando a farra da véspera.

Boêmio inveterado, autor de tiradas lembradas até hoje, quando certo prefeito, caçado por credores raivosos, ausentou-se da cidade (passou a residir em Salvador), Oscar portou-se heroicamente atendendo funcionários que lhe pediam o valor de “vales” e comerciantes a cobrar débitos diversos, puxando fumaça de cachimbo e explicando: meu querido (todo mundo para ele era “meu querido”) nem um tostão! Inventara maneira sucinta, mas definitiva, de dizer que o erário estava quebrado.

Vivendo no seio de sociedade fechada, preconceituosa, em grande parte hipócrita, a varrer defeitos e vícios para debaixo do tapete, como era a nossa, Oscar Erudilho resistiu o suficiente para farrear com representantes de várias gerações.

Morava na Rua da Aurora e durante algum tempo foi a mais importante figura daquele local. Sua casa ficava aberta durante todo o dia, frequentada por seus amigos, que podiam beber e comer, livremente, obedecendo apenas a uma proibição: ninguém ali poderia levar mulher para intimidades avançadas, prerrogativa apenas do dono da casa.

Oscar jactava-se de haver dançado, na inauguração do “Casino Irajá”, com bailarina que participou do show da festa. Era figura obrigatória na inauguração de todos os bares da cidade, não dispensava peru assado, com farofa e feijoada de feijão preto, aos domingos, e não faltava, com luzido séquito, às famosas matinées (que ocorriam nas tardes domingueiras) na “Euterpe Feirense”.

Agora, quando a Micareta volta a ser o assunto preferido da cidade, é justo relembrar Oscar Erudilho, um dos mais importantes incentivadores e participantes da nossa grande festa de que é verdadeiro símbolo.

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FEIRA EM HISTÓRIA: A evolução da micareta ao longo do tempo

14/2/2018, 19:3h

A  MICARETA NO TEMPO 

Adilson Simas 

A primeira festa momesca em Feira com o nome Micareta foi aberta no sábado, 27 de março de 1937, com o mesmo ritual dos tempos atuais: coroação das majestades e entrega das “chaves” da cidade ao Rei Momo. Era prefeito, Heráclito Dias de Carvalho [na foto abaixo].

Foto: Heráclito Dias de Carvalho era o prefeito da cidade na primeira Micareta

Nos clubes, principalmente “25 de Março” e “Victória”, na famosa “Rua Direita”, hoje Conselheiro Franco, foram realizados bailes a fantasia reunindo a sociedade local, da região e até gente da “Bahia” (alusão aos moradores da capital).

Nas ruas, em especial também na “Rua Direita”, que foi o primeiro “quartel general” da folia, blocos, cordões, mascarados e batucadas (“As Melindrosas”, “Flor do Carnaval”, “Amantes do Sol”, etc) se encarregaram de encher de brilho o que hoje se denomina “sitio da festa”.

Ao longo do tempo, a micareta deixou de acontecer em razão da Segunda Guerra Mundial, e em 1964 por conta do “Golpe Março”. Mas em 1945 só não houve folia de rua, pois a “25 de Março” publicou edital anunciando a realização de quatro grandes bailes.

Concebida por personalidades notáveis da cidade, como Antonio Garcia, João Bojô, Mestre Narcisio, Maneca Ferreira, Manuel de Emilia, Álvaro Moura, Arlindo Ferreira e seguidores como Oscar Marques, Gilberto Costa, Carlos Marques, Ildes Meireles, Joselito Julião Dias, Osvaldo Franco e tantos outros escolhidos para presidi-la, a maior micareta do Brasil, cresceu e avançou.

No começo dos anos 70, na gestão do prefeito Newton Falcão, a prefeitura criou uma diretoria especial e assumiu totalmente a festa em 1971, “aposentando” as tradicionais comissões organizadoras que com o famoso “livro de ouro” visitavam pessoas e empresas buscando os recursos que bancavam a folia.

Ainda naquela década o prefeito José Falcão criou a Secretaria de Turismo para cuidar de toda a programação. Na seqüência, em 1975, instituiu concurso para a escolha do Rei Momo, não mais trazendo “Ferreirinha”, o Rei Momo do carnaval de Salvador. Já o prefeito Colbert Martins criou os primeiros camarotes e arquibancadas.

A micareta soube acompanhar os avanços da cidade. Os bailes à fantasia trocaram os salões da “25 de Março” e “Victória”, pelos amplos e modernos da Euterpe Feirense, Feira Tênis Clube, Clube de Campo Cajueiro e outros menores como Clube dos Comerciários, Ali Babá, Clube dos Sargentos e Clube dos Trabalhadores. Ressalte-se que Tênis e Cajueiro, criaram os bailes pré-micaretescos, “Uma Noite no Hawaí” e “Caju de Ouro”,  respectivamente.

Os desfiles e a animação popular, no começo na “Rua Direita” (desde a Conselheiro Franco até a Tertuliano Carneiro), chegaram às praças da Bandeira e João Pedreira, se expandiram pela avenida Senhor dos Passos e quando davam sinais que ocupariam toda a extensão da longa avenida Getulio Vargas, foram transferidos em 2000, na ultima micareta do milênio, para a avenida Presidente Dutra, na administração do prefeito Clailton Mascarenhas, que promoveu as primeiras melhorias.

Eunice Boaventura foi a primeira rainha da Micareta de Feira

O espetáculo do préstito momesco com ricos carros alegóricos (os últimos nasceram da imaginação do artista Charles Albert), conduzindo rainha e princesas arrancando aplausos - entre elas e em tempos diferentes, Eunice Boaventura, Doralise Bastos, Helenita Tavares, Sonia Cerqueira, Alda Lima Coelho, Maria Angélica Caribé, Ana Maria Nascimento e Sônia Menezes - cederam lugar aos carros sonoros conduzindo moças e rapazes com coloridas mortalhas do “Bloco do Caju”, “Fetecê”, “Mendonça” e outros.

Os blocos e batucadas, das primeiras folias, foram ganhando sucedâneos, de diversas origens, como o  “Pinta Lá”, dos servidores públicos municipais; os trio-elétricos, como o pioneiro “Patury” de Péricles Soledade, nos anos 50, deram lugar a máquinas potentes como a da banda “Chiclete com Banana”; as marchinhas de compositores da cidade (Carlos Marques, Juca Oliveira, Estevam Moura, Gastão Guimarães, Eliziário Santana, Adalardo Barreto, Arlindo Pitombo, Aloísio Resende, Dival Pitombo, Alpiniano Reis, Honorato Bonfim e outros), saíram de cena dando espaço a letras interpretadas por  “furacões” como Ivete Sangalo.

As escolas de samba e os cordões de antigas micaretas abriram alas para “Malandros do Morro”, “Unidos de Padre Ovídio”, “Império Feirense”, “Os Formidáveis” e “Marquês do Sapucaí”, que à exemplo das antecessoras entregavam a autoria dos seus enredos à nova geração de compositores da terra, entre eles Carlos Piter, Vadu, Roberto Pitombo, Edson Bonfim, geralmente pregando o grito de liberdade, ou exaltando o mundo do candomblé.

Eventos que anunciavam mais uma festa de momo, como “Grito de Micareta nos Bairros” com os cantores locais interpretando antigas e novas marchas e ranchos e o “Baile dos Artistas”, este surgido no final dos anos 60, reunindo os meios artístico-culturais e convidados ilustres, as vezes com transmissões ao vivo, foram substituídos por “levadas” e “feijoadas”, da mesma forma reunindo foliões e artistas, dias antes da abertura da festa.

Por fim, no lugar dos antigos serviços fixos de som, narrando a folia registrada nas ruas - “SPR Constelação, a voz do sertão, falando diretamente da marquise da Loja Pires para onde abrange toda a sua rede sonora” -, as numerosas equipes das emissoras de rádio e televisão transmitindo em tempo real, para a Bahia, o Brasil e o Mundo, os lances de uma micareta que preserva do passado a grande animação dos foliões.

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FEIRA EM HISTÓRIA: Crônica destaca os atrativos turísticos de São José na década de 60

5/2/2018, 14:46h

O professor José Maria Nunes Marques dedicou a maior parte de sua vida às questões educacionais. Lecionou em várias escolas, comandou colégios, foi secretário municipal de educação, primeiro diretor da Faculdade de Educação de Feira, membro do conselho diretor da Fundação Universidade, pró reitor e reitor da Uefs. Colaborador dos jornais locais, principalmente Situação e Feira Hoje, brindava os leitores narrando o cotidiano da cidade. Em 1967, na crônica “Domingo em São José” ele tratou da beleza da lagoa localizada dentro da sede do distrito. Vale a pena lembrar (Adilson Simas).

José Maria Nunes Marques 

- Uns poucos quilômetros de asfalto novo separam Feira da cidadezinha de São José das Itapororocas, onde se entra por um “bequinho estreito”, composto em verdes pelas árvores, com um segundo plano encantador nas linhas branco-acinzentadas da igreja, de lado, alta e grande em relação à pequenez do casario circundante. Ao sol é um sonho de pintor paisagista, de qualquer antigo e desprestigiado copiador da natureza.

As pessoas do lugar, que por ali passam cada dia, certamente não vêem, ou talvez sofram a mesmice, o desencanto que envenena o que é visto, revisto, esmiuçado, despido, virado e revirado mil vezes, tornando-o pesado e indexável. Para o visitante, porém, é uma sugestão tranquila e boa de paz campestre. Pela entrada de São José das Itapororocas só passa um carro de cada vez. E isto é um dos seus encantos. Vencida a estreita passagem estamos em uma enorme área, que é quase tudo, malhada, feira e praça, tendo a igreja ao centro com um pequeno campanário junto, e logo o mercado da feira, de forma circular, coberto de palha.

As casas se ajuntam em pelotões compactos e quase fecham um quadrado. Não fosse a fragilidade infinita que sugerem, assim toscas e iguais como as casas do sertão, e poder-se-ia dizer que formam uma praça forte, embora com um flanco desprotegido. O tempo corre aqui mais vagaroso.

Há no chão verde e terra, o destaque de homens, cavalos e ovelhas pela malhada. Garotos de pés descalços, carregando badoques, vão passarinhar.

Lagoa de São José foi durante anos um atrativo na região

Do outro lado, poucos metros de estrada, está a placidez da lagoa de S. José, contra o verde do que chamam de serra, única elevação na grande planura feirense, a brisa é suave sobre a lagoa e a sombra dos cajueiros silvestres é amável e convidativa. O espírito se tranquiliza – sem qualquer pílula – quando os olhos descansam na face negra da água, levemente franjada.

Ainda que o sol seja o de sempre, agreste, forte, vivo até o exagero, a lagoa lhe empresta amenidade e contraste. E a alma inquieta afasta ou esquece o vir a ser ansioso em que se exaure, para sonhar coisas estáveis, prontas, realizadas. Apenas ser, sem qualquer compromisso para o próximo instante. Sentar aqui e “esperar D. Sebastião, quer venha ou não”.

Um homem deste século vinte, que enfrenta seu 67º ano, quanto minutos pode entregar o pensamento à brisa que passa pela lagoa, em S. José das Itapororocas, e libertar-se do jugo de seus desejos!? Quantos segundos!?

A lagoa, satisfeita consigo mesmo, é uma lição. Parece feliz pela oportunidade que tem agora de doar-se muitas, distribuindo prodigamente seus dons, suas riquezas de cores e sugestões. A alegria de acolher. Sua felicidade não é feita de desejos sucessivos, sempre adiada e asfixiante como a que o homem inventou, mas é bem outra, suave, boa e certa, alguma coisa assim como o instante nos olhos dos que se olham e esquecem.

No entanto, nem tudo são divagações às margens da lagoa de S. José, fresca como um oásis. Há coisas mais objetivas, como gente, o banho ou o passeio de barco, um barco tosco, com cerveja gelada, e ainda é possível, sem muita diligência, encontrar uma ou outra ninfa desgarrada, quando menos capaz de entreter o alegre jogo da conquista. Na praia os locais para o esporte estão separados, o que permite certa tranquilidade aos banhistas.

A estrada segue até o fim da lagoa, e quem chega ao ponto mais distante encontra, entre árvores frondosas, inclusive uma bela “cajaeira”, curiosa churrasqueiras erguidas pelo chão, nas quais se pode preparar um bom almoço de piquenique.

São José das Itapororocas, ali junto de Feira é um encanto natural já humanamente abençoado com as vantagens de algum conforto moderno, que favorece o turismo, a circulação do dinheiro e, de quebra, alegra o coração dos mortais.

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FEIRA EM HISTÓRIA: O dia em que um boi tentou entrar no prédio da Prefeitura

29/1/2018, 16:22h

Foto: professor Evandro Oliveira 

Aluno, professor e diretor do extinto Colégio Santanópolis, concebido pelo pai Áureo de Oliveira Filho na primeira metade do século passado, em 1933 e extinto em 1984, o professor Evandro Oliveira é um estudioso da vida feirense. Como poucos sabe de casos e ‘causos’ ocorridos nesta gleba de Padre Ovídio de São Boaventura. Vale a pena lembrar seu relato sobre o boi que tentou, pelas escadarias, chegar ao andar superior do Paço Municipal. (Adilson Simas).

BOI TENTA ENTRAR NA PREFEITURA



A Praça do Nordestino, fim da Avenida Senhor dos Passos, onde era localizada a segunda feira de gado bovino de Feira de Santana até 1943, não tinha Currais de contenção das boiadas e sim algumas varas, e em muitos casos nem varas existiam.

Nessa época a cidade já tinha se expandido e como a Avenida Senhor dos Passos era um dos caminhos de acesso a estrada do sertão, migrou mais rapidamente para este setor.

Decorrente dessa situação foi criado um corredor que atingia a feira livre nas praças da Bandeira e João Pedreira, mais a Rua Marechal Deodoro e adjacências. De vez em quando algumas reses desgarradas corriam para o centro da cidade.

Era um Deus nos acuda, bois e vaqueiros em disparada invadiam a feira livre, o povo em correria, estragando as mercadorias, machucando pessoas. Um pandemônio.

Era criança quando contaram que um boi acuado tentou entrar em nossa casa, caindo na escadaria que dava acesso ao corredor.

Morava na esquina da Rua Marechal Deodoro com o beco que dava para Avenida Senhor dos Passos. Hoje não existe mais o casarão e o beco atualmente é um calçadão.

Mas um caso de estouro de boiada que ficou marcado na cidade por algumas características, mereceu uma atenção especial.

Em uma segunda-feira, algumas reses escaparam dos vaqueiros e parte delas correu em direção do centro da cidade pela Avenida Senhor dos Passos, gritaria dos vaqueiros, o povo apavorado entrando nas casas abertas, outras espantando os animais com gritos, uma zorra total.

Um dos bois atarantado, procurando uma brecha para escapulir chegou à porta da Prefeitura Municipal, chegando subir as escadas do passeio entrando até a bela escada de madeira.

(Esta escada tem características, que vale a pena discorrer. Foi feita na Europa e montada em Feira de Santana. É toda de encaixe, não tem pregos nem parafusos).

O boi não subiu ao andar de cima, pois quando tentava escorregou, caiu e os vaqueiros laçaram é trouxeram de volta à Praça do Nordestino. A única vítima registrada foi de um heroico funcionário defensor do Paço Público Municipal. Seu Moreira, como era conhecido, quebrou o braço na tentativa de barrar o boi enlouquecido.

Como todas as questões se transformam em política partidária em nossas plagas, o episódio teve várias versões irônicas.

- O Bovino foi reclamar das condições ruins da feira de gado;
- O boi estava querendo fazer parte da administração;
- A revolta de ser denominado boi, quando era um touro, e várias outras.

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