FEIRA EM HISTÓRIA

Jornalista lembra cores, cheiros e sabores do São João em sua infância

19/6/2018, 19:2h

Há onze anos, no sábado, 23 de junho de 2007, dia da fogueira, no programa “Primeira Página”, comandado pelo jornalista Valdomiro Silva, viajei no tempo e abordei o São João da minha infância, vivido aqui na Feira de Santana no circuito Praça Fróes da Motta, Nagé e Sobradinho. Vale a pena lembrar de novo:

O SÃO JOÃO DE TEMPOS IDOS

Por Adilson Simas

No São João daquele tempo a gente via as residências feericamente iluminadas, adornadas de graciosas lanternas e longas fitas coloridas pelos corredores da casa.

Do São João daquele tempo guardo na memória a bem forrada mesa tendo sobre ela pratos maravilhosos, de travessa, contendo morena e saborosa canjica – a rainha da festa de São João, que tinha como seus seguidores os doces secos e de calda, frutas variadas, entre elas gostosas laranjas.

No São João de outrora, também presente na mesa a leitoazinha tostada, vaidosa ainda, exibindo uma flor na cintura, parecendo namorar o porquinho sizudo, no entanto cheiroso como um cravo.

No São João da minha infância, o rei da mesa, no entanto, era o peru, com seu papo recheado, orgulhoso, desafiando os seus adversários gastrônomos, principalmente as galinhas assadinhas, enfeitadas de tirinhas de papel.

No São João de um passado distante tinha muita mais na mesa de todas as casas. Tinha queijos de cuia, doce de caju, doce de leite, etc. Tinha vinho, tinha cerveja, mas tinha principalmente o saboroso licor de jenipapo a disputar com o licor de maracujá a preferência dos convivas.

No São João da minha infância, na frente de cada casa não existia apenas a fogueira assando milho, batata doce e outros produtos típicos. Tinha a árvore plantada com seus ramos cheios de milhos, laranjas, cocos e tudo mais conforme o dono da casa.

No São João dos velhos tempos a gente bebia, dançava e pulava fogueira, num ritual que motivava o surgimento de  compadres e comadres que muitos vezes até  terminava em casamentos com as graças de Santo Antonio e a proteção de São João.

Exalto o São João da minha infância sem a pretensão de achar que a festa junina acabou e muito menos o São João. Mas se é verdade que ela ainda existe, também é verdade que ela não tem mais a beleza do passado.

Na Feira de Santana de todos os meus dias, quando o São João já não motivava o intenso vai e vem das pessoas de casa em casa, o prefeito José Falcão, ainda no seu primeiro mandato, no começo dos anos 70, fez do distrito de Maria Quitéria, sede da grande festa junina.

Viajo no tempo, estou na rodovia Feira/Serrinha e na entrada da estrada dando acesso a sede do distrito deparo com uma enorme placa de zinco exibindo a tentadora frase: “Entre e veja como é bonito o São João de São José”.

Com o passar dos anos, mesmo nas outras gestões do próprio alcaide, foram desaparecendo as fogueiras, as quadrilhas e outros componentes tradicionais. Na imensa praça, além das barracas com muita cerveja e nenhum licor, um enorme palco armado com artistas famosos executando as músicas dos programas de rádio e televisão.

E no mais, mesmo nas poucas residências onde a festa tenta resistir, no lugar das canções de amor interpretadas por Marines, Trio Nordestino e outros mestres do período junino, ouve-se musicas de duplo sentido como aquela que diz “Eu conheço a cara da mulher de pode”, ou  “Eu nunca fui de mal com você..."

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Joselito Amorim descreve Feira sem carros e rodovias

11/6/2018, 17:32h

Aluno e professor do antigo Colégio Santanópolis e ex-prefeito de Feira de Santana nos anos sessenta, mestre Joselito Falcão Amorim viajou no tempo e lembrou os caminhos de desta cidade em artigo publicado em 14 de junho de 2011 no Blog do Santanópolis. Vale a pena acompanhar o educador nessa lembrança de tempos idos. (Adilson Simas):

O PROFESSOR E “OS CAMINHOS DA FEIRA”

Alcancei Feira sem carros, logo sem rodovias. O que havia eram caminhos vicinais, veredas, estradas carroçáveis e boiadeiras.

A principal era a estrada Real, que vindo da Cidade de Cachoeira, via Belém, Conceição de Feira, São Gonçalo, Magalhães, Tapera, Tomba, chegava a Feira (Praça da Matriz) e, daí, partia em direção ao Norte: Rua Direita (Conselheiro Franco), Sobradinho, Campo Limpo, Pedra Ferrada, São José das Itapororócas, Santa Bárbara, Tanquinho, Jacobina, Juazeiro, transpondo o São Francisco atingindo Pernambuco.

Estrada essa que, tal a sua importância, mereceu a ligação ferroviária, Feira-Cachoeira, entroncando com a ferrovia Leste Brasileiro que ligava Salvador ao Sul do País. Que a modernidade, sem visão e planejamento, deixou-a sucumbir.

Em seguida, vinha a Estrada das Boiadas, que alimentava Salvador. Partindo da Boa Viagem (Professor Geminiano Costa), Ponto Central, entroncamento dos Eucaliptos, Limoeiro, Humildes, Lapa, São Sebastião do Passé, Água Comprida, Paripe, Salvador. Vindo depois a ligação com o resto País, Minas Piauí via Camisão (Ipirá), Santo Estevão, Almas (Anguera), Bonfim de Feira, Bom Despacho (Jaguara), ponte do Rio Branco, sobre o rio de Jacuipe, Calumbi, Feira, tendo uma variante via Sobradinho/Feira.

Tal a importância dessa estrada, que mereceu a construção pelo Governo Federal, de uma ponte metálica linda, sobre o Rio de Jacuipe, denominada “Ponte do Rio Branco”, a qual por falta de assistência, veio a desmoronar-se. Que pena! Essa estrada quando o Rio de Jacuipe permitia, tinha percurso Santo Estevam, Pedra do Descanso, onde havia um grande alojamento para vaqueiros e tropeiros.

Outra estrada de grande movimentação era: Boa Viagem (Geminiano Costa), Rua do Fogo, Lasca Gato, Lagoa Grande, Fortaleza (Jaiba), São Simão, Coração de Maria, Irará, Pedrão, Alagoinhas, Estância, Sergipe, etc.

Havia, também, uma outra estrada menos transitada, via Queimadinha, Mangabeira, São Vicente (Tiquaruçu), Santanópolis, Irará, Alagoinhas, etc.

Foram essas as estradas que fizeram a grandeza de nossa Terra e que hoje, quase todas pavimentadas, continuam a incrementar a sua prosperidade.

Na juventude, tive oportunidade de percorrer grandes percursos, em todas elas. Meu pai, Manoel Bispo de Amorim, era marchante, negociava com gado, carnes verdes, e, tinha hábito de sair pelas fazendas próximas, a comprar gado. Na época, não havia balanças para gado vivo, comprava-se, como se dizia, em pé, a olho...

Eu tinha um animal, devidamente arreado e nas férias acompanhava o velho. Lembro-me de que certa feita fomos até Tanquinho de Feira, a uma feira de gado. Dolorosa viagem, três dias de cama, em compressas de água e sal. Era o remédio da época.

Este comentário terá continuidade, pois pretendo registrar um fato importante, histórico, que teria ocorrido no caminho de Boa Viagem (prof. Geminiano Costa), Rua do Fogo, Lagoa Grande, Fortaleza (Jaiba), são Simão, Coração de Maria, Irará, Pedrão, quando de retorno do General Labatut à Bahia, na época da luta pela independência, de passagem por Feira de Santana, onde montou Quartel.

Até a próxima.

Joselito Falcão de Amorim

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Falecido há 42 anos, Áureo Oliveira Filho era um educador a frente do seu tempo

4/6/2018, 16:18h

Este mês de junho lembra o passamento do educador Áureo de Oliveira Filho, ocorrido em 1976, há 42 anos. A dedicação do mestre à causa educacional, o Colégio Santanópolis por ele criado e os hábitos da  juventude feirense nas décadas de 30 e 40, estão no artigo  publicado em 2002 no livro de Gil Mário Menezes, por Matilde Matos, Crítica de Arte e que foi aluna do Colégio Santanópolis. Vale a pena ver de novo (Adilson Simas).

O COLÉGIO SANTANÓPOLIS E OS HÁBITOS DA JUVENTUDE FEIRENSE NAS DÉCADAS DE 30 E 40

A minha lembrança do Professor Áureo de Oliveira Filho é afetiva. Ela traz de volta memórias que amealhei dos 10 aos 15 anos, quando tudo era uma nova descoberta e a vida corria mansa. Como inúmeras pessoas que viviam no interior, minha irmã Ernestina e eu fomos favorecidas pelo seu Ginásio Santanópolis, onde tivemos o privilégio de estudar quando a ligação de Feria com Salvador se fazia por uma estrada de barro sinuosa e esburacada, num trajeto que consumia mais da metade do dia.

Vivíamos na Senhor dos Passos, longe do convívio da família, mas andávamos todas as manhãs para o Ginásio com a animação de quem ia a uma festa. Centro de tudo que desfrutávamos com o entusiasmo dos jovens – as aulas, os novos amigos, o esporte, o grêmio, as paradas, as tertúlias e as festas – o Santanópolis era para nós o melhor colégio do novo mundo que se revelava pela erudição dos mestres Gastão Guimarães e Honorato Bonfim, a objetividade e Ilhaneza de Renato Silva, o refinamento de Dival Pitombo, a doçura do Prof. Garcia, a informalidade espontânea do Prof. Brito, o discurso fluente e exato do Dr. Áureo e a eficiência e presença constante da Profª. Edelvira, sempre disposta a resolver qualquer problema.

Também atento a tudo que pudesse interessar os jovens o Prof. Joselito Amorim nos incentivava nos esportes, nos desfiles de Sete de Setembro, nas reuniões do grêmio e nas apresentações artísticas, mas era o discurso inflamado do Prof. Umberto Alencar, pregando nos comícios para o Brasil entrar em guerra que “mocidade sem rebeldia é velhice precoce”, que nos levava ao delírio.

Estudamos no Santanópolis de 37 a 41 quando dominavam os colégios de padre, para os meninos e de freira, para as meninas. O ginásio de Aurinho – como carinhosamente nós alunos o chamávamos na sua ausência – era misto, um avanço para a época que só trazia benefícios. Que graça teríamos encontrado nas disputas ferrenhas de basquete, sem os irmãos Villaça, Muritiba, Salomão e tantos outros craques a defender o nosso time, contra a perícia infalível de Barretão do Instituto Normal, rival maior e quase imbatível? A convivência saudável com os jovens rapazes, muito nos favoreceu na vida.

Foram tantas as presenças que deixaram marca nas nossas lembranças, mais que as outras a comunicação fácil e alegria de viver das meninas de D. Vivina, Marinete e Dedé, companheiras de todas as horas. Antonieta, Marinita, Lindaura, Jacira, Edelzuita, Tereza Góis e seus irmãos, Salomão, Papinho, Almeida, Bubu, Washington, Costa Neto, Beto e Juca, e tantas outras faces cujos nomes não lembro mais.

Lembro dos sapotizeiros que faziam sombra aos canteiros de gérberas e violetas e do cheiro do café que vinha do gabinete do secretário da prefeitura, Oscar Erudilho, ao lado da Biblioteca, vizinha do Santanópolis. No final das tardes, quando o cheiro do café se espalhava no ar, as aulas chegavam ao fim e saíamos em grupo, atraídos pelos livros, pelo cafezinho e a afabilidade do Seu Oscar, com quem aprendemos a apreciar do magistral mulato do Morro do Livramento Machado de Assis, aos estrangeiros Voltaire, Rilke, Dostoiewski, Tolstoy, Flaubert, Thomas Mann e tantos mais que Seu Oscar nos apresentou, despertando o nosso gosto pela literatura.

As segundas, dia da feira do gado e da maior feira livre do nosso estado, atento para a importância da cultura, Aurinho suspendia as aulas do último horário da manhã e a estudantada partia para o mercado. Claro que apreciávamos do artesanato às iguarias locais, com atenção especial à carne de sol, requeijão e rapadura. Mas havia também uma espécie de retreta bem no meio do mercado, como aqui na Rua Chile: os rapazes enfileirados ao longo de uma larga passagem obrigatória e as moças aos grupos. Era a chance que os adolescentes tinham de encontrar outros fora do Santanópolis. Bebida e dança, nem pensar, mas se flertava bastante.

Aqueles anos que antecederam a segunda guerra foram os últimos românticos de um mundo que nunca mais seria o mesmo. De Hollywood vinham os sonhos, o glamour e o romance que os grandes astros e estrelas encarnavam. Os sons eram os das grandes orquestras americanas que embalavam o mundo e no Brasil porfiavam com o samba exaltação, samba canção e o fox dolente na voz de Orlando Silva ou Silvio Caldas. Ainda era possível se encarar a vida de óculos cor de rosa. A partir dos anos 50 o ritmo do mundo acelerou-se, mudaram os usos e costumes e deram fim à tranquilidade.

O que despertava a admiração e respeito da adolescente de então pelo Dr. Áureo era a sua visão esclarecida, sua modernidade e o seu entusiasmo. Entendia que o ensino não se limita às salas de aula e dava a maior importância ao esporte, as artes e ao grêmio onde os alunos escreviam, falavam, recitavam, promoviam tertúlias com números de canto e dança, e montavam peças. Até hoje lembro frases retumbantes da Ceia dos Cardeais: “Se não desfiei o sol lá nas alturas, foi para não deixar Salamanca às escuras”.

Sempre afável, bem humorado, elegante, vaidoso e apaixonado por tudo que fazia, se o Prof. Áureo de Oliveira Filho tivesse se radicado na capital, meio século depois, o nosso ensino com certeza estaria mais avançado, como avançada foi a semente que plantou em Feira de Santana.

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Professor Evandro Oliveira lembra causos de Peleteiro Rajó, torcedor símbolo do Flu de Feira

28/5/2018, 17:27h

Este mês de maio lembra que há 3 anos, em 2015, a  Feira de Santana e principalmente o Fluminense de Feira, perdeu Segundo Peleteiro Rajó, um espanhol que gostava de se declarar feirense. Vale a pena, pois, lembrar causos que marcaram a passagem de Peleteiro Rajó, contados pelo professor Evandro Oliveira (Adilson Simas):

SEGUNDO PELETEIRO -  UM VALENTE MEDROSO

Segundo Peleteiro (foto), feirense, baiano e brasileiro que nasceu sem querer na Espanha, é um homem dos mais valentes, corajoso capaz de desafiar a torcida adversária com a polícia na cidade deles, é só prejudicarem o seu Fluminense.

Homem "brabo" está ali, não tem medo de nada, nada? Bem não é assim também, tem um medo terrível de alma do outro mundo, e sabem como é, basta ter medo para elas aparecerem. 

Certa feita estava ele indo para casa de madrugada montado numa bicicleta, ouviu uma voz dizer Seguuundo, não teve outra, largou a bicicleta correu desabaladamente até sua casa, acordou a mulher e mandou ela ir buscar o seu transporte abandonado. 

Outra vez, depois da meia noite, hora horrível para o aparecimento destes fenômenos, andando pela Praça da Bandeira, nervoso balançando a mão com a chave do carro, sem querer bateu esta naqueles grandes tanques de coleta de lixo, saltando daí um cachorrão  que estava à procura de alimento.

Ninguém sabe quem ficou mais assustado ele ou cachorrão, mas com certeza se estivessem nas olimpíadas, ele e o cão, teriam trazido medalhas de ouro em corrida para nosso país.

Contudo o caso mais estranho aconteceu com ele e Alteração, como era conhecido um ótimo lavador/polidor de carro. Alteração é o que se pode chamar de horroroso, baixinho, corcunda, um nariz enorme tomando toda sua face pequena, com os dois olhos tão juntos e vesgos que pareciam ser um só, totalmente careca. Tenho certeza que Spielberg o conheceu e se inspirou nele para criar o personagem ET, só que deu um toque doce que Alteração não tinha.

Alteração tinha ótimos clientes e sabia quando eles paravam o carro e iam demorar, aí ele limpava, polia e depois cobrava, às vezes até no fim do mês. Segundo Peleteiro era um desses clientes.

Certa vez parando sua Rural Willis na porta da “Filarmônica  25 de Março” para se distrair, Peleteiro como de costume, não trancou a porta do veículo – naquele tempo não tinha roubo de veículos – para que Alteração fizesse o serviço. 

Já passava das seis horas da noite, Alteração decidiu: vou fazer meu último trabalho do dia, bem caprichado para o “espanhol” abrir a mão na gorjeta. Trabalhou com afinco, lá pelas vinte horas, tinha terminado estava cansado, pois acordou as sete e aquele era o oitavo carro do dia. Recostou no banco traseiro e adormeceu.

Peleteiro terminou de jogar às 15 para a meia-noite, e como era certo não descia aquelas escadas sozinho, ainda mais quando olhava aquele mundo de retratos dos ex-presidentes já falecidos, que ficavam expostos na parede. Só doze e meia quando Jorge resolveu também ir embora, Peleteiro pegou a carona na descida da escada que rangia e ele achava fantasmagórico. 

Já na rua, Jorge entrou no seu Landau e Peleteiro na sua Rural, ligou a máquina e arrastou, dobrou a esquina e subiu as praças João Pedreira e da Bandeira seguindo a Avenida Getúlio Vargas com destino à Kalilândia onde residia. Quando fez a curva para sair da Getúlio, a Rural balançou e Alteração acordou botou a cabeça pavorosa para cima e gritou “Ei que é isso?” 

Segundo Peleteiro, o valente, olhou pelo retrovisor, que distorcia ainda mais o rosto horrendo, clamando por todos os santos e vociferando “vade retro Satanás” saltou da Wilis Overland, correndo como um louco, só parando quando chegou em casa.

Meia hora depois, recuperado o fôlego pode contar o que estava acontecendo à sua esposa e enquanto isso o pobre carro, sem motorista, conduzindo o assustado Alteração, subia o meio-fio, batendo de raspão no poste.

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Em maio de 1945, Feira fez festa para comemorar o fim da II Guerra Mundial

21/5/2018, 15:17h

Em 1973, ano em que a Feira de Santana comemorou o centenário de emancipação política (o Dia da Cidade é outra coisa), a coluna “Pois é”, do jornalista Helder Alencar abordou o fim da II Grande Guerra Mundial, que ocorreu em maio de 1945 e as festividades na cidade ao receber a notícia. Vale a pena ler de novo. (Adilson Simas)

FIM DA II GUERRA MUNDIAL - A COMEMORAÇÃO EM FEIRA

– Os quase seis anos da II Grande Guerra Mundial, que por pouco não levaram o mundo à destruição, chegaram ao fim em maio de 1945, quando a Alemanha rendeu-se, incondicionalmente, às tropas do mundo livre.

Era o fim da tormenta. E o começo de uma era que se esperava fosse de paz. O mundo inteiro comemorou o fim do pesadelo. Festas foram realizadas.

A Feira de Santana, saudando os pracinhas da FEB, dentre eles alguns feirenses, alegrou-se e engalanou-se para marcar o início da nova era e o fim da longa noite sem estrelas que durou de setembro de 1939 a maio de 1945.

Logo que a notícia do fim da guerra chegou à Feira de Santana a festa começou. As bandeiras foram hasteadas, os foguetes pipocaram e as filarmônicas ganharam as ruas, falando em diversos pontos da cidade, inúmeros oradores.

Mas as comemorações maiores foram fixadas para o domingo posterior, 13 de maio,  quando a Feira renderia suas homenagens  à Força Expedicionária Brasileira e ao fim da Grande Guerra.

Para que os festejos alcançassem êxito invulgar, cinco comissões foram formadas:

Comissão central – Srs. Eduardo Fróes da Motta, Alibert do Amaral Baptista, Augusto Vital Graça, Edelvito Campelo D’araújo, Carlos Valadares, Quintor Café Nascimento, Mário Lustosa de Aragão, Edelvira Oliveira, Frei Fernando Guerise, Monsenhor Mário Pessoa, Gilberto Borges da Costa, Jorge Leal, Isaias Mendo, Manoel Mathias de Azevedo, Capitão Osvaldo Ferraro, Delorisano Bastos, Manuel Ferreira e Maria Luiza Motta.

Comissão de desfile – Capitão Osvaldo Ferraro, Gastão Guimarães, Áureo Filho, Gilberto Costa e Manuel Matias.

Comissão de convite – Edelvito Campelo D’araújo, Carlos Valadares, Isaias Mendo, Quintor Café, Dolarisano Bastos e Frei Fernando Guerise.

Comissão de organização e ornamentação – Áureo de Oliveira Filho, Edelvira Oliveira e Mário Lustosa Aragão.

Comissão de imprensa – Manuel Ferreira, Arnold Silva, Jorge Leal, Monsenhor Mário Pessoa e Quintor Café.

Às 8 horas do dia 13 de maio de 1945 aconteceu Missa Campal na Praça João Pedreira, com a presença da Imagem do Senhor do Bonfim, falando em seguida, o sr. Quintor Café. Logo após a Missa, um desfile cívico, com a presença do 18º RI, Escola Normal, Colégio Santanópolis e escolas primárias públicas percorreram as ruas da Cidade.

Às 16 horas a Imagem do Senhor do Bonfim, em solene procissão, foi levada da Igreja do Senhor dos Passos para a Igreja Matriz, onde realizou-se um Te-Deum com a comparência de enorme massa popular.

Finalmente, às 20 horas, realizou-se a sessão cívica, na Prefeitura Municipal, em homenagem a Força Expedicioária, falando o sr. Áureo de Oliveira Filho.

Todas as ruas receberam ornamentação, as casas foram decoradas, os foguetes cruzaram os céus, os sinos replicaram em dobres de alegria, as filarmônicas foram às ruas a Imagem de Senhor do Bonfim saiu em procissão, o povo delirou.

Era a Feira de Santana participando, ativamente, das grandes festas que marcaram a liberdade do mundo contra a tirania nazi – nipo – facista que ameaçava engolfar toda a humanidade.

Era a Feira de Santana homenageando os heróis, os que deixaram seu sangue na terra conflitada, para que o mundo não caísse nas mãos da tirania, da desordem, da violência.

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Há exatos 42 anos, o presidente Ernesto Geisel visitava Feira

14/5/2018, 10:6h
Este mês lembra que há 42 anos, em 14 de maio de 1976, que caiu numa sexta-feira, a cidade recebeu a visita do presidente da República, Ernesto Geisel, aqui permanecendo praticamente durante toda a manhã. 
 
Uma semana antes, a jornal “Feira Hoje”, edição de sexta-feira, 7, já anunciava: “Chegam hoje a esta cidade os batedores da Companhia de Policia do Exercito da 6ª Região Militar e do 4º Batalhão do Exército de Recife encarregados de proteger o presidente”.
 
Como o ano era eleitoral e a Arena era o partido que dava sustentação ao regime, seus lideres locais trataram de assumir a organização da visita presidencial, deixando de fora da programação a autoridade maior da cidade, o prefeito José Falcão, do MDB.
 
Tanto assim que na mesma edição do dia 7, o jornal informava que no dia anterior, Ângelo Mário Silva, presidente local da Arena, promoveu ampla reunião no auditório do Hospital Dom Pedro de Alcântara “para tratar da visita de Geisel”.
 
A nota cita alguns dos presentes convocados pelo partido. Além dos dirigentes dos principais órgãos públicos do Estado e da União existentes na cidade, também compareceram representantes de entidades como Associação Comercial, Centro das Indústrias e CDL.
 
Logo em seguida as emissoras de rádio e também os jornais, começaram a divulgar nota das entidades patronais convidando para a “grande concentração”, e anunciando o fechamento do comercio e da indústria durante a estada do presidente.
 
Foi o quarto presidente no exercício do mandato a visitar Feira 
 
 
Geisel passou a ser o quarto presidente no exercício do mandato a visitar Feira de Santana. O primeiro foi Getulio Vargas durante o Estado Novo, vindo pela ordem Juscelino Kubitschek em janeiro de 1957 e Castelo Branco em março de 1967.  
 
Além de inaugurar a Fábrica de Pneus Tropical, no Núcleo Piloto do Subaé (BR/324), veio anunciar em comício na Praça João Pedreira, a conclusão da duplicação da Feira-Salvador e a implantação da rede de esgotos sanitários.   
 
Chegou de helicóptero e pisou na terra de Santana pouco antes das 9 horas, acompanhado do governador Roberto Santos, alguns ministros e assessores militares e civis. Outros ministros e outras autoridades chegaram utilizando a BR/324.
 
Dona Lucy, a primeira-dama e a filha Amália Geisel, que sempre acompanharam o general presidente, cumpriram programa a parte, em Salvador, ao lado da primeira-dama do Estado, Maria Amélia Santos. O Museu de Arte Sacra foi um dos pontos visitados.
 
Após o ato inaugural de Pneus Tropical (que virou Pirelli), o presidente se dirigiu a Praça João Pedreira para falar ao povo feirense. Antes a multidão ouviu discursos de ministros, entre eles Dirceu Nogueira, dos Transportes e do governador Roberto Santos.
 
Vale frisar que o mercado não funcionou. A arrumação para a feira-livre de sábado em volta do mercado só começou quando terminou a concentração. O pedido para o seu fechamento foi feito ao prefeito pelo comandante João Longuinhos, do1ºBPM/FS.
 
Para os arenistas o melhor momento da fala foi quando o presidente ergueu o braço de Ângelo Mário e disse que ele seria o candidato seu e do partido para ganhar as eleições. O gesto, fotografado, foi a principal peça publicitária da campanha do partido.
 
Após o ato popular, Geisel voltou a Pneus Tropical onde almoçou. Na seqüência retornou a Salvador e por volta das 14 horas regressou a Capital Federal. Alguns membros da comitiva ficaram mais tempo na cidade discutido a sucessão municipal. Entre eles o presidente nacional da Arena, o senador Francelino Pereira.
 
A nota triste da visita de Geisel – uma deselegância na verdade, foi a tentativa de evitar a presença do prefeito José Falcão no ato público. Em que pese o gesto político do presidente anunciando apoio a Ângelo Mário, candidato da Arena, o motivo maior da visita foi o anuncio de obras para a população de um modo geral.
 
A propósito, aquela não foi a primeira visita de Ernesto Geisel a Feira de Santana. Nove anos antes, em 1967, como Chefe da Casa Militar, ele aqui esteve acompanhando o Marechal Castelo Branco, primeiro presidente da ditadura militar implantada em 31 de março de 1964 (Adilson Simas). 
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Dival Pitombo relata progresso de Feira a partir da década de 40

10/5/2018, 11:22h

No início da década de 40, na Revista Serpentina de abril de 1941, o professor Dival Pitombo, conta o avanço que a Feira de Santana já experimentava há 77 anos. E chega a dizer no seu texto com o título Matamorfoses: “E’ como se uma fada a tocasse com a sua varinha magica e de um momento para outro tudo o que estava parado começasse a mover-se, crescer, colorir-se de uma vitalidade nova e verdadeiramente miraculosa”. Vale a pena ler de novo (Adilson Simas) 

METAMORFOSES

Ha qualquer coisa de maravilhoso e surpreendente no surto de progresso porque vai atravessando a Feira. 

Ela já não é a cidade-garota dos bairros líricos onde violões boêmios enchiam de harmonias as noites de luar na mais adorável simplicidade provinciana. 

Já não encontramos aqui, aquele cunho de cidade sertaneja que a caracterizava. 
Cresce e civiliza-se. 

E, como se uma fada a tocasse com a sua varinha magica e de um momento para outro tudo o que estava parado começasse a mover-se, crescer, colorir-se de uma vitalidade nova e verdadeiramente miraculosa. 

Rasgaram-se avenidas, abriram-se escolas, estradas inúmeras como longas «serpentes de jaspe» levaram aos quatro ventos, a lama de uma hospitalidade que já se ia tornando tradicional.

E a cidade foi perdendo rapidamente tudo o que ainda lhe restava do antigo povoado de D. Ana Brandôa. 

As suas longas avenidas nada têm de provinciano, os seus parques outrora sombrios e melancólicos, estão inundados de luz; e a alegria radiosa da juventude das escolas forma como que uma aureola cintilante de Vida e de Graça. 

Uma verdadeira febre de construção vai possuindo a população; e os bairros novos vão surgindo numa verdadeira sinfonia de cores tecendo uma moldura rica e graciosa na paisagem. 

Ha os bairros operários onde habita modestamente a classe pobre: - casinhas enfileiradas como um longo rosário colorido. Todas as manhãs, o cortejo processional da gente para o trabalho. 

Movimento. O bom humor sadio do povo passando nas ruas embandeiradas de roupas secando ao sol. A noitinha sob a paz das estrelas, as serenatas tradicionais num lírico ambiente de aldeia. 

O bairro comercial em movimento constante reflete o dinamismo do povo. Pratico, movimentado, ele é sempre a parte que concentra toda a vida ativa da cidade. 

E por fim os bairros aristocráticos. As longas avenidas senhoriais marginadas de construções elegantes onde vive gente abastada. 

Mudou muito a minha Feira. 

Não mais cidade adolescente e romântica sonhando diante dos crepúsculos maravilhosos. 

Não mais simplicidade encantadora de sertaneja nova e inconsciente de sua beleza. 

Cresceu. Estudou. Encheu-se de adornos e de ciência. Ficou mais bonita talvez. 

Mas o teu poeta ó minha bela terra, já não poderia hoje chamar-te de “Cidade do Silencio e da Melancolia”.

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Comerciante Valbert Mansur: mestre em "tiradas hilárias"

3/5/2018, 8:42h

Considerado um dos grandes contadores de causos ocorridos no dia a dia desta cidade, o professor Evandro Sampaio Oliveira, em texto publicado no antigo Blog Santanópolis, lembra que o comerciante Valbert Mansur, um descendente de árabes estabelecido na Rua Sales Barbosa, era mestre em tiradas hilárias. Entre outras, dizia ter medo de avião explicando que “se navio afundar sei nadar mas se avião pifar não sei voar”. Vale a pena lembrar aquele comerciante com seu raciocínio inusitado. (Adilson Simas)

Foto: Professor Evandro Sampaio lembra casos inusitados em seu artigo

O MEDO DE VIAJAR DE AVIÃO

Valber Mansur, descendente de árabes, grande comerciante de miudezas na rua Sales Barbosa, casado com a bela Santanopolitana Roland, era uma pessoa interessante, tinha raciocínio inusitado, consequentemente com tiradas hilárias. 

Certa vez em um exame médico de rotina, seu médico recomendou diminuir os vícios para o bem da saúde, ele prontamente obedeceu, passou a levar seis meses jogando baralho, sem fumar ou tocar em álcool, nos outros seis meses, largava o baralho passando a fumar e nos últimos seis meses da sequência planejada, bebia a cervejinha quando saía do trabalho, desta forma dizia que só tinha um vício.

Mas o caso mais comentado pelos colegas da Sales Barbosa era o medo que ele tinha de avião, dizia “se navio afundar sei nadar, avião pifar não sei voar”.

Os comerciantes da Sales Barbosa, todo ano viajavam para São Paulo para fazer compras completando os estoques das lojas. 

Embarcavam na segunda-feira em uma aeronave, em São Paulo iam para um hotel, no outro dia recebiam um corretor de compras, entregavam lista do que queriam adquirir e iam ver o comércio, para se atualizar.

No final da semana, recebiam o corretor, conferiam os pedidos e à noite iam se divertir, que ninguém é de ferro. 

Valber viajava de carro, três dia de ida e três de volta, ia na sexta, a estrada não era asfaltada, voltava dois dias depois dos outros e perdia todas as vantagens. Não havia quem o convencesse: 

- Avião é o transporte mais seguro, diziam uns, você está perdendo de ver os shows paulistanos do sábado à noite, não está acompanhando as inovações comerciais, chega cansado não tem ânimo para nada, argumentavam outros.  Ora ele bem sabia, mas o medo superava o arrazoado.

Por fim depois de tantas evidencias, resolveu comprar passagem de avião, mas não foi com os colegas, queria fazer uma surpresa. O voo era 14:00 horas, ele chegou às sete  no aeroporto, despachou a bagagem foi para o bar pediu um litro de whisky, para tomar coragem.

Na hora marcada foi para sala de embarque decidido, depois foi o primeiro da fila, andou ereto em todo o pátio, quando o efeito do whisky não foi maior do que o pavor de entrar naquele pássaro horrendo de metal, foi quando se ouviu o berro de Valber, lendo a sigla do avião gritou: F-WWLQ, este sonhei que vai cair, saindo da fila esbravejou, não vou viajar não. 

Foi um pandemônio, outros passageiros saíram da fila. Os Comissários diziam “meu senhor, que bobagem, sua bagagem já está na aeronave” e ele já apressando o passo grita:

- “Minha bagagem não sonha”.

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Construção do Cine Theatro Santana foi um marco na vida cultural feirense

24/4/2018, 17:45h

O artigo do jornalista Geraldo Lima, publicado em 2015 no livro “Feira de Sant’anna – Histórias e Estórias dos séculos XIX e XX” é rico em informações sobre Cinema e Teatro em Feira de Santana. Vale, pois, a leitura. (Adilson Simas)


Foto: Jornalista Geraldo Lima

CINEMA E TEATRO EM FEIRA DE SANTANA

O acervo cultural de Feira de Santana é de uma riqueza incomensurável em todas as linguagens artísticas, seja na música, na dança, no cinema, nas artes plásticas, na literatura ou nas artes cênicas. Tudo graças ao talento dos artistas, dentre os quais nomes de expressão nacional e internacional, que desempenham um papel fundamental nesse contexto, em que pese a ausência de mais atenção por parte do poder público. Isto, porém, não arrefece o ânimo dos artistas que, infelizmente, carecem de melhor estrutura dos espaços e do reconhecimento pelo seu trabalho, embora, mesmo assim, persistam. 

A vida cultural da cidade passou a ter mais visibilidade nos idos dos anos 20/30, quando a dramaturgia e a literatura já se manifestavam com mais intensidade, de acordo com os historiadores. A construção do Cine Theatro Santana era uma semente que brotava para acolher os cinéfilos e a produção de nossos literatos. Erguido no centro da cidade, na antiga Rua Direita, depois batizada Conselheiro Franco, as exigências inexoráveis do progresso acabaram transformando o equipamento num improvisado estacionamento de veículos. Justamente ali, onde pisaram personalidades de renome como o jurista Ruy Barbosa e a musicista Georgina Erismann, autora do Hino à Feira - citados apenas como referência por sua notoriedade -, exibiam-se filmes do cinema mudo e tertúlias literárias promovidas por entidades como os grupos Dramático Taborda, Sales Barbosa e Grêmio Lítero-Dramático Rio Branco, que embeveciam os frequentadores. Desativado depois de enfrentar concorrência, chegar à falência e ser arrendado e reformado, o empreendimento sucumbiu. 

No livro “A paisagem urbana e o homem – Memórias de Feira de Santana”, de Eurico Alves Boaventura, um dos artigos transcritos publicado originalmente em junho de 1939 noticiava que, naquela época, estava em curso um movimento com vistas a reorganizar o Clube Dramático Taborda, que se apresentava no Cine-Theatro Santana, localizado na Rua Direita (atual Conselheiro Franco). 

Um dos precursores do teatro feirense, o desembargador Raymundo Pinto anotou: em 1919, ao visitar a “Princesa do Sertão”, como Feira de Santana foi denominada, o jurista Ruy Barbosa pronunciou conferência no Cine-Theatro Santana. Em outubro de 1934, o Grupo Dramático Taborda se apresentou com um elenco que incluía Gualberto[1] Costa, Martiniano Carneiro, Manoel da Costa, Amélio Vasconcelos e Alberto Boaventura. Funcionavam ainda os grupos: Dramático Sales Barbosa e Litero-Dramático Rio Branco. De acordo com a professora e pesquisadora Lélia Vitor Fernandes, o teatro contava com uma – bancada de 300 lugares, mas em pé cabiam mais ou menos 500 pessoas. Conforme apurou, em 1947 funcionava o Cine Theatro Elite, também na Rua Direita.

Cine Theatro Santana pouco antes de fechar as portas

Em sua tese de mestrado em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana, Aline Aguiar Cerqueira dos Santos diz que o Cine-Theatro  surgiu, em 1919, a partir da fusão com o Cinema da Vitória e o teatro. “E tal espaço passou a ser utilizado tanto para as exibições de filmes, quanto para os diversos espetáculos teatrais, musicais e literários. Sobre a mistura dessas duas artes, Raimundo Fonseca, ao se reportar à realidade soteropolitana, argumenta o quanto isto foi conflituoso, posto que o cinema, por ser ainda uma novidade no início do século XX, não tinha adquirido o prestígio que o teatro tinha”. 

Na década de 50 surge o Cine Iris

Vieram os anos 50. Grupos como o Taborda tentavam se rearticular. Em 1957, surgiria a Sociedade rural e Artística de Feira de Santana (SCAFS), por iniciativa de nomes como Raymundo Pinto, Francisco Caribé, Olney São Paulo, Francisco Barreto, que marcaria época no soerguimento do movimento teatral a partir da década de 60. Neste mesmo período, já existiam o Cine-Theatro Íris e o Cine Santanópolis, que funcionava como auditório do ginásio do mesmo nome, com seus quase 1.200 lugares. Era um deslumbre verificar nas matinês centenas de jovens formando longas filas  para adquirir os ingressos e negociar a troca de gibis e revistas em quadrinho. “Às segundas-feiras eram reservadas para os famosos bang-bangs, que tinham como tradicionais ‘mocinhos’ Buck Jones, Kay Maynard, George O’Brien, Tom Mix e outros”, lembra o cronista Antônio Moreira Ferreira, ou Antônio do Lajedinho.

Cine Santanópolis passou a se chamar Timbira

As filas para assistir filmes épicos ou de faroeste começavam na frente do cinema, ao lado do Paço Municipal, e se estendia pela Avenida Getúlio Vargas até a esquina da rua J. J. Seabra, à época carinhosamente chamada Rua do Sol. Hoje, resta apenas a pipoca sujando as salas de shoppings e espectadores dividindo as atenções entre o celular e o filme, nessa ordem. Era nesse palco que acontecia a encenação de espetáculos teatrais que lotavam as salas do Santanópolis, depois denominado Timbira, do Cine Íris e também do auditório da Rádio Cultura, de frente da lateral do extinto Feira Tênis Clube, além do Cine Madri, que funcionava na Rua Castro Alves. Com a demolição do prédio da Avenida Senhor dos Passos, o Cine Íris, ainda resiste, agora funcionando na antiga Rua de Aurora, exibindo exclusivamente filmes pornográficos.

O movimento teatral prevaleceu durante a década de 60, quando a cidade conviveu com um intenso movimento que chegou a envolver mais de dez grupos teatrais, em que pese a censura imposta pela ditadura militar deflagrada em 1964. Eram tempos difíceis, mas os artistas conviviam e superavam os desafios, Os espaços foram desaparecendo, os artistas eram obrigados a conviver com a mutilação de seu trabalho e até exilar-se para fugir da repressão e da prisão sob a pecha de serem comunistas ou subversivos. 

A mando dos militares, supõe-se, a direção do cinema proibiu a cessão de pautas, obrigando aos grupos buscarem alternativas, passando a utilizar o auditório do centro educacional Monteiro Lobato. Continuaram na luta até que o então prefeito João Durval Carneiro sensibilizou-se, alugou um imóvel na Rua Carlos Gomes, próximo ao Feira Tênis Clube, inaugurado em 1970 com o nome da ex-atriz Margarida Ribeiro, morta em acidente automobilístico. Findo o contrato, os artistas retornaram ao auditório do Monteiro Lobato, adaptado para funcionar como Teatro Municipal Margarida Ribeiro. Mergulhado em problemas estruturais, o referido espaço passa praticamente mais tempo desativado, o que denuncia a necessidade de uma casa de espetáculos digna das dimensões de Feira de Santana. 

Enquanto isso, ao longo do tempo, os atores se profissionalizaram e surgiram novos espaços: 
Teatro do Cuca, mantido pela Universidade Estadual de Feira de Santana; Teatro da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas); Centro de Cultura Amélio Amorim, administrado pelo Governo do Estado; e Centro de Cultura Maestro Miro, gerenciado pelo gavemo municipal. Todos ainda carecem de condições técnicas mais adequadas para seu completo funcionamento.

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FEIRA EM HISTÓRIA: Jovens feirenses, amantes da astronomia, idealizaram o Observatório Antares na década de 70

16/4/2018, 18:5h

Comerciante, empresário, publicitário, produtor cultural, José Olímpio Mascarenhas tem uma intensa presença nos mais diversos segmentos de Feira de Santana. Na comunicação, por exemplo, foi um dos diretores do “Feira Hoje” quando o tradicional jornal passou a circular diariammente, e na imprensa falada a ele se deve a primeira emissora de Rádio FM, hoje a Princesa FM. Em artigo publicado em 2002, José Olímpio fala da sua luta com César Orrico e outros amantes da astronomia, que culminou com a criação, nos anos 70, do Observatório Antares, o primeiro do Norte e Nordeste do Brasil. Vale a pena a leitura (Adilson Simas).

OBSERVATÓRIO ANTARES

Alberto Oliveira, a pedido nosso e de César Orrico, doara seiscentos metros quadrados de área em loteamento de sua propriedade, no fim da Getúlio Vargas, para que fosse construído o Observatório Antares.

José Olímpio teve intensa presença em vários segmentos

Everaldo Cerqueira, arquiteto e também astrônomo amador, fizera a planta e havíamos adquirido um telescópio em Manaus, um pouco mais potente do que o de César Orrico.

Estávamos na residência de Beto Oliveira e de Áureo Filho, vizinhos, tratamos dos primeiros passos do Antares quando Beto, entusiasmado, mostra o projeto e comunica ao pai, Deputado Áureo Filho, a boa nova:

- “Zé Olímpio, César Orrico e um grupo entusiasta vão construir um observatório astronômico em nossa cidade. Doamos o terreno e o projeto está aqui”.

Mostra ao deputado a planta de Everaldo Cerqueira, Áureo Filho, balança a cabeça, encara Beto, eu e César e, com uma frase seca e gutural nos choca de início:

- “Feira de Santana não merece isso”.

Ficamos sem entender, e Alberto Oliveira, meio sem jeito com a reação do pai deputado, tenta consertar e amenizar a decepção:

- “Que é isso, meu pai, os jovens querem fazer algo por Feira, construir um observatório, despertar o interesse pela astronomia, etc etc e o senhor desanima, que tem de errado”.

O nosso deputado, visionário, idealista, sonhador, mente aberta, olhos de águia, ensaia um discurso:

- “É isso mesmo, Feira de Santana não merece isso, temos que trazer para nossa cidade o que tiver de maior. Na Universidade de Salvador, as aulas de Astrofísica não são ministradas por falta de um observatório na Bahia e está na hora de instalarem um em nossa cidade, um observatório digno desta juventude estudiosa e sadia” e continuava o seu discurso inflamado como se estivesse falando na tribuna da Câmara, defendendo o projeto, com todo entusiasmo e eloquência.

Eu, César e Beto nos entreolhando.

Quando fez uma pausa, virou-se para mim e César:

-“Vou ter uma audiência com o governador Antônio Carlos daqui a pouco, se vocês quiserem vão comigo e prometo que o governador será simpático à ideia”.

César Orrico foi um dos principais entusiastas do Observatório

César Orrico e eu pegamos em casa um paletó e seguimos com o deputado para falar com o governador da Bahia. Nascera naquele momento, o grande Observatório Antares, construído em área mais adequada, doada pela Imobiliária de Milton Falcão de Carvalho, Bubu, e projeto de Raimundo Torres, conhecer dos observatórios mais modernos do mundo naquela época.

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