FEIRA EM HISTÓRIA

FEIRA EM HISTÓRIA: A evolução da micareta ao longo do tempo

14/2/2018, 19:3h

A  MICARETA NO TEMPO 

Adilson Simas 

A primeira festa momesca em Feira com o nome Micareta foi aberta no sábado, 27 de março de 1937, com o mesmo ritual dos tempos atuais: coroação das majestades e entrega das “chaves” da cidade ao Rei Momo. Era prefeito, Heráclito Dias de Carvalho [na foto abaixo].

Foto: Heráclito Dias de Carvalho era o prefeito da cidade na primeira Micareta

Nos clubes, principalmente “25 de Março” e “Victória”, na famosa “Rua Direita”, hoje Conselheiro Franco, foram realizados bailes a fantasia reunindo a sociedade local, da região e até gente da “Bahia” (alusão aos moradores da capital).

Nas ruas, em especial também na “Rua Direita”, que foi o primeiro “quartel general” da folia, blocos, cordões, mascarados e batucadas (“As Melindrosas”, “Flor do Carnaval”, “Amantes do Sol”, etc) se encarregaram de encher de brilho o que hoje se denomina “sitio da festa”.

Ao longo do tempo, a micareta deixou de acontecer em razão da Segunda Guerra Mundial, e em 1964 por conta do “Golpe Março”. Mas em 1945 só não houve folia de rua, pois a “25 de Março” publicou edital anunciando a realização de quatro grandes bailes.

Concebida por personalidades notáveis da cidade, como Antonio Garcia, João Bojô, Mestre Narcisio, Maneca Ferreira, Manuel de Emilia, Álvaro Moura, Arlindo Ferreira e seguidores como Oscar Marques, Gilberto Costa, Carlos Marques, Ildes Meireles, Joselito Julião Dias, Osvaldo Franco e tantos outros escolhidos para presidi-la, a maior micareta do Brasil, cresceu e avançou.

No começo dos anos 70, na gestão do prefeito Newton Falcão, a prefeitura criou uma diretoria especial e assumiu totalmente a festa em 1971, “aposentando” as tradicionais comissões organizadoras que com o famoso “livro de ouro” visitavam pessoas e empresas buscando os recursos que bancavam a folia.

Ainda naquela década o prefeito José Falcão criou a Secretaria de Turismo para cuidar de toda a programação. Na seqüência, em 1975, instituiu concurso para a escolha do Rei Momo, não mais trazendo “Ferreirinha”, o Rei Momo do carnaval de Salvador. Já o prefeito Colbert Martins criou os primeiros camarotes e arquibancadas.

A micareta soube acompanhar os avanços da cidade. Os bailes à fantasia trocaram os salões da “25 de Março” e “Victória”, pelos amplos e modernos da Euterpe Feirense, Feira Tênis Clube, Clube de Campo Cajueiro e outros menores como Clube dos Comerciários, Ali Babá, Clube dos Sargentos e Clube dos Trabalhadores. Ressalte-se que Tênis e Cajueiro, criaram os bailes pré-micaretescos, “Uma Noite no Hawaí” e “Caju de Ouro”,  respectivamente.

Os desfiles e a animação popular, no começo na “Rua Direita” (desde a Conselheiro Franco até a Tertuliano Carneiro), chegaram às praças da Bandeira e João Pedreira, se expandiram pela avenida Senhor dos Passos e quando davam sinais que ocupariam toda a extensão da longa avenida Getulio Vargas, foram transferidos em 2000, na ultima micareta do milênio, para a avenida Presidente Dutra, na administração do prefeito Clailton Mascarenhas, que promoveu as primeiras melhorias.

Eunice Boaventura foi a primeira rainha da Micareta de Feira

O espetáculo do préstito momesco com ricos carros alegóricos (os últimos nasceram da imaginação do artista Charles Albert), conduzindo rainha e princesas arrancando aplausos - entre elas e em tempos diferentes, Eunice Boaventura, Doralise Bastos, Helenita Tavares, Sonia Cerqueira, Alda Lima Coelho, Maria Angélica Caribé, Ana Maria Nascimento e Sônia Menezes - cederam lugar aos carros sonoros conduzindo moças e rapazes com coloridas mortalhas do “Bloco do Caju”, “Fetecê”, “Mendonça” e outros.

Os blocos e batucadas, das primeiras folias, foram ganhando sucedâneos, de diversas origens, como o  “Pinta Lá”, dos servidores públicos municipais; os trio-elétricos, como o pioneiro “Patury” de Péricles Soledade, nos anos 50, deram lugar a máquinas potentes como a da banda “Chiclete com Banana”; as marchinhas de compositores da cidade (Carlos Marques, Juca Oliveira, Estevam Moura, Gastão Guimarães, Eliziário Santana, Adalardo Barreto, Arlindo Pitombo, Aloísio Resende, Dival Pitombo, Alpiniano Reis, Honorato Bonfim e outros), saíram de cena dando espaço a letras interpretadas por  “furacões” como Ivete Sangalo.

As escolas de samba e os cordões de antigas micaretas abriram alas para “Malandros do Morro”, “Unidos de Padre Ovídio”, “Império Feirense”, “Os Formidáveis” e “Marquês do Sapucaí”, que à exemplo das antecessoras entregavam a autoria dos seus enredos à nova geração de compositores da terra, entre eles Carlos Piter, Vadu, Roberto Pitombo, Edson Bonfim, geralmente pregando o grito de liberdade, ou exaltando o mundo do candomblé.

Eventos que anunciavam mais uma festa de momo, como “Grito de Micareta nos Bairros” com os cantores locais interpretando antigas e novas marchas e ranchos e o “Baile dos Artistas”, este surgido no final dos anos 60, reunindo os meios artístico-culturais e convidados ilustres, as vezes com transmissões ao vivo, foram substituídos por “levadas” e “feijoadas”, da mesma forma reunindo foliões e artistas, dias antes da abertura da festa.

Por fim, no lugar dos antigos serviços fixos de som, narrando a folia registrada nas ruas - “SPR Constelação, a voz do sertão, falando diretamente da marquise da Loja Pires para onde abrange toda a sua rede sonora” -, as numerosas equipes das emissoras de rádio e televisão transmitindo em tempo real, para a Bahia, o Brasil e o Mundo, os lances de uma micareta que preserva do passado a grande animação dos foliões.

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FEIRA EM HISTÓRIA: Crônica destaca os atrativos turísticos de São José na década de 60

5/2/2018, 14:46h

O professor José Maria Nunes Marques dedicou a maior parte de sua vida às questões educacionais. Lecionou em várias escolas, comandou colégios, foi secretário municipal de educação, primeiro diretor da Faculdade de Educação de Feira, membro do conselho diretor da Fundação Universidade, pró reitor e reitor da Uefs. Colaborador dos jornais locais, principalmente Situação e Feira Hoje, brindava os leitores narrando o cotidiano da cidade. Em 1967, na crônica “Domingo em São José” ele tratou da beleza da lagoa localizada dentro da sede do distrito. Vale a pena lembrar (Adilson Simas).

José Maria Nunes Marques 

- Uns poucos quilômetros de asfalto novo separam Feira da cidadezinha de São José das Itapororocas, onde se entra por um “bequinho estreito”, composto em verdes pelas árvores, com um segundo plano encantador nas linhas branco-acinzentadas da igreja, de lado, alta e grande em relação à pequenez do casario circundante. Ao sol é um sonho de pintor paisagista, de qualquer antigo e desprestigiado copiador da natureza.

As pessoas do lugar, que por ali passam cada dia, certamente não vêem, ou talvez sofram a mesmice, o desencanto que envenena o que é visto, revisto, esmiuçado, despido, virado e revirado mil vezes, tornando-o pesado e indexável. Para o visitante, porém, é uma sugestão tranquila e boa de paz campestre. Pela entrada de São José das Itapororocas só passa um carro de cada vez. E isto é um dos seus encantos. Vencida a estreita passagem estamos em uma enorme área, que é quase tudo, malhada, feira e praça, tendo a igreja ao centro com um pequeno campanário junto, e logo o mercado da feira, de forma circular, coberto de palha.

As casas se ajuntam em pelotões compactos e quase fecham um quadrado. Não fosse a fragilidade infinita que sugerem, assim toscas e iguais como as casas do sertão, e poder-se-ia dizer que formam uma praça forte, embora com um flanco desprotegido. O tempo corre aqui mais vagaroso.

Há no chão verde e terra, o destaque de homens, cavalos e ovelhas pela malhada. Garotos de pés descalços, carregando badoques, vão passarinhar.

Lagoa de São José foi durante anos um atrativo na região

Do outro lado, poucos metros de estrada, está a placidez da lagoa de S. José, contra o verde do que chamam de serra, única elevação na grande planura feirense, a brisa é suave sobre a lagoa e a sombra dos cajueiros silvestres é amável e convidativa. O espírito se tranquiliza – sem qualquer pílula – quando os olhos descansam na face negra da água, levemente franjada.

Ainda que o sol seja o de sempre, agreste, forte, vivo até o exagero, a lagoa lhe empresta amenidade e contraste. E a alma inquieta afasta ou esquece o vir a ser ansioso em que se exaure, para sonhar coisas estáveis, prontas, realizadas. Apenas ser, sem qualquer compromisso para o próximo instante. Sentar aqui e “esperar D. Sebastião, quer venha ou não”.

Um homem deste século vinte, que enfrenta seu 67º ano, quanto minutos pode entregar o pensamento à brisa que passa pela lagoa, em S. José das Itapororocas, e libertar-se do jugo de seus desejos!? Quantos segundos!?

A lagoa, satisfeita consigo mesmo, é uma lição. Parece feliz pela oportunidade que tem agora de doar-se muitas, distribuindo prodigamente seus dons, suas riquezas de cores e sugestões. A alegria de acolher. Sua felicidade não é feita de desejos sucessivos, sempre adiada e asfixiante como a que o homem inventou, mas é bem outra, suave, boa e certa, alguma coisa assim como o instante nos olhos dos que se olham e esquecem.

No entanto, nem tudo são divagações às margens da lagoa de S. José, fresca como um oásis. Há coisas mais objetivas, como gente, o banho ou o passeio de barco, um barco tosco, com cerveja gelada, e ainda é possível, sem muita diligência, encontrar uma ou outra ninfa desgarrada, quando menos capaz de entreter o alegre jogo da conquista. Na praia os locais para o esporte estão separados, o que permite certa tranquilidade aos banhistas.

A estrada segue até o fim da lagoa, e quem chega ao ponto mais distante encontra, entre árvores frondosas, inclusive uma bela “cajaeira”, curiosa churrasqueiras erguidas pelo chão, nas quais se pode preparar um bom almoço de piquenique.

São José das Itapororocas, ali junto de Feira é um encanto natural já humanamente abençoado com as vantagens de algum conforto moderno, que favorece o turismo, a circulação do dinheiro e, de quebra, alegra o coração dos mortais.

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FEIRA EM HISTÓRIA: O dia em que um boi tentou entrar no prédio da Prefeitura

29/1/2018, 16:22h

Foto: professor Evandro Oliveira 

Aluno, professor e diretor do extinto Colégio Santanópolis, concebido pelo pai Áureo de Oliveira Filho na primeira metade do século passado, em 1933 e extinto em 1984, o professor Evandro Oliveira é um estudioso da vida feirense. Como poucos sabe de casos e ‘causos’ ocorridos nesta gleba de Padre Ovídio de São Boaventura. Vale a pena lembrar seu relato sobre o boi que tentou, pelas escadarias, chegar ao andar superior do Paço Municipal. (Adilson Simas).

BOI TENTA ENTRAR NA PREFEITURA



A Praça do Nordestino, fim da Avenida Senhor dos Passos, onde era localizada a segunda feira de gado bovino de Feira de Santana até 1943, não tinha Currais de contenção das boiadas e sim algumas varas, e em muitos casos nem varas existiam.

Nessa época a cidade já tinha se expandido e como a Avenida Senhor dos Passos era um dos caminhos de acesso a estrada do sertão, migrou mais rapidamente para este setor.

Decorrente dessa situação foi criado um corredor que atingia a feira livre nas praças da Bandeira e João Pedreira, mais a Rua Marechal Deodoro e adjacências. De vez em quando algumas reses desgarradas corriam para o centro da cidade.

Era um Deus nos acuda, bois e vaqueiros em disparada invadiam a feira livre, o povo em correria, estragando as mercadorias, machucando pessoas. Um pandemônio.

Era criança quando contaram que um boi acuado tentou entrar em nossa casa, caindo na escadaria que dava acesso ao corredor.

Morava na esquina da Rua Marechal Deodoro com o beco que dava para Avenida Senhor dos Passos. Hoje não existe mais o casarão e o beco atualmente é um calçadão.

Mas um caso de estouro de boiada que ficou marcado na cidade por algumas características, mereceu uma atenção especial.

Em uma segunda-feira, algumas reses escaparam dos vaqueiros e parte delas correu em direção do centro da cidade pela Avenida Senhor dos Passos, gritaria dos vaqueiros, o povo apavorado entrando nas casas abertas, outras espantando os animais com gritos, uma zorra total.

Um dos bois atarantado, procurando uma brecha para escapulir chegou à porta da Prefeitura Municipal, chegando subir as escadas do passeio entrando até a bela escada de madeira.

(Esta escada tem características, que vale a pena discorrer. Foi feita na Europa e montada em Feira de Santana. É toda de encaixe, não tem pregos nem parafusos).

O boi não subiu ao andar de cima, pois quando tentava escorregou, caiu e os vaqueiros laçaram é trouxeram de volta à Praça do Nordestino. A única vítima registrada foi de um heroico funcionário defensor do Paço Público Municipal. Seu Moreira, como era conhecido, quebrou o braço na tentativa de barrar o boi enlouquecido.

Como todas as questões se transformam em política partidária em nossas plagas, o episódio teve várias versões irônicas.

- O Bovino foi reclamar das condições ruins da feira de gado;
- O boi estava querendo fazer parte da administração;
- A revolta de ser denominado boi, quando era um touro, e várias outras.

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FEIRA EM HISTÓRIA: Os primeiros médicos de Feira

22/1/2018, 10:49h

Na foto, o escritor Antônio Moreira Ferreira

 

No livro “A Feira no século XX”, o escritor e poeta Antônio Moreira Ferreira [na foto acima] destaca os primeiros médicos residentes em Feira de Santana, aqui clinicando a partir da Santa Casa de Misericórdia fundada no século XIX, mais precisamente em 1865. O escritor ressalta o trabalho de Joaquim Remédios Monteiro e Gastão Clóvis Guimarães [na foto abaixo] em tempos distintos, além de citar outros como Fernando São Paulo, Honorato Bonfim e Joaquim D’Almeida Couto. Vale a pena a leitura do texto:

Foto: Joaquim Remédios Monteiro e Gastão Guimarães

- Não podemos afirmar com exatidão, mas parece-me que a Santa Casa de Misericórdia foi fundada em 1865 sem que houvesse um médico residente em Feira de Santana.

O Dr. Joaquim Remédios Monteiro, ao que sabemos, chegou em Feira entre 1880 e 1890 e, embora tenha vindo em busca da sua saúde dentro do bom clima de Feira, foi realmente o primeiro médico residente a clinicar nesta cidade, quando já existia a Santa Casa de Misericórdia.

Quanto ao segundo médico, ainda depende de uma pesquisa (1º trabalho para a futura Academia de Medicina de Feira de Santana?), pois está muito próximo o período entre Dr. Fernando São Paulo, Dr. Gastão Guimarães, Dr. Honorato Bonfim e o Dr. Joaquim D'Almeida Couto.

Os quatro atuaram na década de 10, porém só temos certeza da residência do Dr. Gastão Guimarães que, em 1914, já se firmara em Feira.

Os primeiros médicos aqui chegados, fizeram o trabalho de verdadeiros desbravadores do atavismo, oriundo do sincretismo que misturava curas, religiões, superstições, com rezas, chás, etc.

Dr. Gastão fez um trabalho de catequese tão perfeito, que não foi muito difícil vacinar o povo contra varíola e posteriormente contra a peste bubônica.

É bom lembrar que, então, não existiam escolas de 2º grau e a maioria das escolas primárias eram regidas por professoras leigas e, assim, não podiam ajudar muito naquele campo.

Por oportuno, lembramos que a escova de dente chegou em Feira no fim da década de 30. O campo da higiene foi outro que coube aos primeiros médicos o trabalho da educação. E, para tanto, tinham que descer do seu linguajar clássico para o coloquial do tabaréu da região.

Agora me lembrei de uma estória, contada por meu avô, acontecida aqui em Feira quando Dr. Remédios Monteiro começou a clinicar.

Segundo ele, existia um fazendeiro na região que, apesar de rico, era muito ignorante. Desejando educar a filha única (Mariinha), mandou-a para um colégio em Salvador donde, tempos depois, voltou professora.

Ao regressar da capital, encontrou sua mãe doente. Perguntando ao pai pela doença da sua genitora, o velho respondeu sem titubear: - "Tá cum tumô na bunda."

Ela, então, aconselhou levá-la imediatamente ao médico.

Enquanto preparavam o carro de boi para levá-la deitada, a moça chamou o pai em particular e recomendou: - "Quando o senhor chegar ao médico, não fale em tumor na bunda. Diga: tumor nas nádegas." - Com um pouco de dificuldade, o velho entendeu que a palavra "bunda" era, então, indecente.

Depois de algumas horas de viagem, chegaram ao consultório do médico, que mandou o casal entrar. A moça preferiu ficar do outro lado do cubículo, o qual era dividido por tábuas de meia altura.

Inicialmente, o Dr. Remédios perguntou ao velho o que havia com sua esposa, e ele disse que ela estava com tumor... como não conseguiu lembrar das nádegas, pôs a cabeça sobre o tablado e perguntou em voz alta: -

"Mariinha!!! como é mesmo o apelido que você botou na bunda de sua mãe?".

Por: Adilson Simas

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FEIRA EM HISTÓRIA: Reminiscências do passado de um feirense

15/1/2018, 10:47h

Por: Adilson Simas

Em artigo assinado para publicação em livro do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana, o industrial feirense Helnando Ramos Simões [na foto abaixo] viaja no tempo, lembrando fatos ocorridos durante sua infância e adolescência. Lembranças como a do Continental Circo, que armado na Praça Padre Ovídio foi o primeiro a trazer a esta cidade um “grande elefante, vários leões e outras feras”, assim como a primeira transmissão de rádio, ocorrida durante a posse do prefeito Aguinaldo Boaventura, efetuada pelo rádio técnico Raul Barbosa que tinha sua oficina em frente à casa de Francisco Pinto. Vamos, pois, acompanhar Helnando nesta nostálgica viagem: 


 
- Quero relatar alguns fatos que lembro de terem ocorridos durante a minha infância e adolescência. Morei na Rua Direita, hoje Rua Conselheiro Franco, onde tudo acontecia, em frente a Escola Normal, que uma vez por semana, arrumava seus alunos, os quais, em frente à mesma, cantavam o Hino Nacional diante da Bandeira Brasileira.

Lembro-me das Festas de Santana, quando os pisos, ao redor do coreto em que as filarmônicas tocavam, ficavam cobertos de confetes entrelaçados de serpentinas. O lança-perfume corria solto, era vendido em duas bancas: a do Sr. Eugênio e a do gringo Sabino Smera, juntamente com bolas coloridas, serpentinas e confetes.

Depois vinham as procissões da Semana Santa, em seguida a Micareta, que naquela época, os préstitos com os carros alegóricos eram a grande atração. Quero destacar a de 1938, em que foi feito uma biga romana com dois cavalos empinados. Em 1938 foi a vez do préstito denominado “A visita da Rainha de Sabá ao Rei Salomão”. Eram dois elefantes e dois camelos que traziam em seu dorso senhoritas e também um carro com uma “corbreille” com a rainha e suas damas de honra, conduzindo o estandarte do Clube “Flor do Carnaval” que desfilava.

No mesmo ano veio o Clube Cruz Vermelha, de Salvador, com seus belíssimos carros alegóricos iluminados. Em 1940 foi a vez de um carro alegórico com uma grande baiana, com um tabuleiro na cabeça, ela gritava e sambava, foi um grande sucesso! Esses carros alegóricos eram confeccionados pelos artistas João Bojô e Maneca Ferreira.

Outro fato que lembro foi o dia em que faltaram pães na cidade, quando chegou o exército com quase mil homens e que compraram quase todo pão existente. E ainda, a queda do avião do Aero Clube, um Cessna ou Teco-teco amarelo de prefixo PP-TMI. Os voos rasantes nas Avenidas Senhor dos Passos [foto acima] e Getúlio Vargas eram tão baixos que se via a fisionomia dos pilotos. Esses aviões eram americanos, sediados em Salvador durante a Segunda Guerra Mundial e que vinham sempre nas segundas-feiras. Veio aqui também um dirigível prateado muito bonito nessa mesma época.

Houve aqui um quebra-quebra da Companhia de Energia Elétrica e Telefônica, cuja frente do prédio era toda de vidro – e que ficava na Rua Direita – motivada pelas constantes faltas de energia elétrica, que ocorria entre 18 e 22 h diariamente.

Aconteceu também aqui uma passeata de protesto contra a instalação da Mafrisa em Cachoeira, onde o Dr. Áureo Filho, discursando  nas escadarias da Escola Normal, proferiu a seguinte frase: “Que o governo nada nos dê, mas que não tire o que é nosso por direito”.

Aconteciam aqui também corridas de cavalos, sendo realizadas nas imediações do Ponto Central numa estrada de poeira. Os páreos mais concorridos eram entre os cavalos “Rio Pardo”, de Carlito Bahia e o  cavalo “Duvidoso”, pertencente a João Almeida.

Lembro-me também da vinda dos cavaleiros cossacos russos, aqui se exibiam no campo do Sr. Flávio, que ficava próximo a Usina de Algodão.
Recordo-me do Zoológico Continental Circo, instalado na Praça Padre Ovídio, o primeiro circo a trazer um grande elefante, vários leões e outras feras.

Lembro-me também das marinetes que eram fabricadas aqui em Feira de Santana pelo Sr. Esaltino Costa, onde é hoje a Escola Ruy Barbosa. As estruturas da carroceria eram feitas de madeiras e chapas de zinco, montadas em chassis de caminhão.

Recordo-me do eclipse total do sol. Era mais ou menos entre nove e dez horas da manhã, quando o dia foi escurecendo como se fosse o começo da noite. As estrelas apareceram no céu, as aves começaram a recolher-se, durante alguns minutos.

Por último esclareço sobre a primeira transmissão de rádio, em Feira de Santana, que muitos pensam que foi em período pré-micaretesco. Porém, esta ocorreu, durante a posse do prefeito, Sr. Aguinaldo Boaventura. A transmissão foi efetuada pelo rádio técnico, Raul Barbosa, que tinha sua oficina na Rua Senhor dos Passos, em frente à residência do Dr. Francisco Pinto [foto acima].

São esses alguns fatos que marcaram a minha memória

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FEIRA EM HISTÓRIA: "Requiem para uma Feira"

8/1/2018, 15:13h

Esta quarta-feira dia 10, lembra que há 41 anos aconteceu a transferência da secular feira-livre do centro da cidade para o Centro de Abastecimento, ocorrida no dia 10 de janeiro de 1977, que naquele ano caiu numa segunda-feira. Foi um fato histórico, que marcou e dividiu a cidade entre favoráveis e contrários. Além do amplo noticiário sobre o acontecimento, o jornal Feira Hoje na sua edição seguinte, de nº 813, publicou um artigo que o jornalista, advogado, poeta e cordelista Franklin Machado [na foto acima] assinou com o título “Requiem para uma feira”, que vale a pena ler de novo quatro décadas depois:

– Somente a natureza amanheceu chorando ontem.

Na praça principal, a azáfama da feira-livre se repetia como em toda segunda-feira.

Ninguém diria se não soubesse que aquela seria a última feira ali, depois de uns duzentos anos.

E ali a feira se despedia sem solenidade.

Como um general que ganhou a guerra e se aposenta sem querer receber nenhum louro. Como um filósofo que sabe serem essas coisas efêmeras. O que vale é o registro histórico.

O tempo chorou, mas sabemos que amanhã é um novo dia.

E o sol nascerá radioso, brilhante.

Logo, a feira não se acabou. Apenas, muda de local.

Um local que ainda está meio escondido, pois lhe faltam as vias de acesso projetadas e a visão psicológica de quem chega na praça e não a vê. Como no velho costume.

Somente um bequinho por entre o Umuarama Hotel (quer dizer reunião de amigos em tupi-guarani) e a Loja Pires junto, justamente, à Visão.

O último dia da feira passou em brancas – nuvens, como nos lembrou o ex-radialista Lucílio Bastos (hoje se revelando um cronista das coisas e gentes feirenses).

E o comerciante Carlos Marques que, talvez, se estivesse nos seus tempos carnavalescos de rapaz, faria uma marcha sobre o acontecimento.

Aliás, retruquei “brancas nuvens”, não, pois as nuvens estavam escuras da chuva.

A hora não é para saudosismo nesta Feira que se industrializa, que se asfalta em ruas e estradas, que se alteia, arranhando o céu.

Mas a feira ali dava qualquer coisa de original e único. De coisa bem personalística como seu nome: Feira de Santana!

 

Nome que começa com seu começo. Em torno da capelinha de Sant’Anna, da fazenda Olhos D’água, dos velhinhos portugueses Domingos e Ana Brandão.

Ali na estrada de São José das Itapororocas para Cachoeira, feirinha dos tropeiros, dos boiadeiros, dos vaqueiros, dos mascates, etc.

História oficial que hoje também está sujeita às mudanças pelos estudos do Monsenhor Renato Galvão.

Não vamos mais ficar a lamentar ou a rememorar fatos, uma vez que nós feirense somos gente portuguesa acostumada a sair pelo mundo para criar mundos.

Gente afeita a olhar para o futuro, mas chorando nos fados tristes.

Foram esses novos feirenses José Falcão da Silva e Lindalvo Farias que tiveram a coragem de sacudir a poeira dos séculos. Com base num plano integrado do governo João Durval.

Entrará Colbert Martins com a incumbência de consolidá-la.

Sabemos que ela será recalcitrante.

Teimará em ficar pelas adjacências como mulher apaixonada que não quer deixar seu homem.

Mas é vida. Viver é estar sempre mudando, se renovando.

Quando se perde essa capacidade é a velhice e a morte.

Tenho visões futurísticas para essa nova feira.

Já a cantei em álbum e folheto de Literatura de Cordel.

Porém não pude deixar de ver o dia chorar ontem.

E, olhando para os feirantes e suas coloridas mercadorias, também chorei.

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FEIRA EM HISTÓRIA: FILARMÔNICA 25 DE MARÇO – UMA JOIA DA PRINCESA DO SERTÃO

2/1/2018, 9:47h

Por: Adilson Simas

Atual presidente da filarmônica “25 de Março”, o professor Carlos Brito [na foto abaixo] que tanto tem contribuído com a preservação da memória da Feira de Santana, fala do trabalho dos atuais dirigentes da secular instituição feirense, sem esquecer-se das glorias e conquistas que marcam a sua existência. Vale a pena a leitura do seu texto.

Em 25 de março de 1868, um grupo de moradores da Princesa do Sertão, objetivando contribuir como desenvolvimento cultural de nossa cidade, resolveu criar uma sociedade filarmônica, que seria denominada de Sociedade Filarmônica 25 de Março. Com sua primeira diretoria formada por João Manoel Laranjeira Dantas, Eduardo Franco, Afonso Nolasco, Antônio Joaquim da Costa, Alípio Cândido da Costa, José Pinto dos Santos (Cazuza do Deserto), Joaquim Sampaio, Francisco Costa, Galdino Dantas, Juvêncio Erudilho, José Nicolau dos Passos, Alexandre Ribeiro, Joviniano Cerqueira, Pedro Nolasco Néu e Tibério Constâncio Pereira, a sociedade representa no imaginário de todos que aqui residem, um ícone em nossa história, que sempre traz uma doce lembrança na vida de milhares de feirenses, que tiveram o privilégio de ouvir as suas retretas em nossas praças e em todas as festividades comemorativas que por aqui aconteciam. Não se pode falar de filarmônicas em nosso Estado, sem incluir nos comentários e/ou matérias jornalísticas, a grande filarmônica dirigida pelos Maestros Estevam Moura e Tertuliano Santos, que, em seus tempos de glória, encantou a todos.

Um grande questionamento que vem sendo realizado nos dias atuais, é sobre as razões do nome da entidade. Acredito que a motivação foi uma homenagem à data da outorga da l Constituição Imperial do Brasil, em 25 de Março de 1824, já que a mesma foi fundada no período da monarquia. Apesar desta minha opinião, realizei algumas buscas, em escritos da sociedade e nada encontrei. Por outro lado, durante a pesquisa que realizei, nos poucos documentos recuperados e no Cartório de Registros de Títulos, Documentos e das Pessoas Jurídicas, encontrei a certidão de nosso primeiro registro e pude verificar que o primeiro estatuto foi registrado em 30 de Novembro de 1921 e no mesmo consta o seguinte: A Sociedade 25 de Março, cujos fins são: Cultivar e desenvolver a arte municipal, formando dentre os seus associados uma banda de música e socorrer os sócios que por moléstia ou qualquer outra circunstância prevista no estatuto se declararem impossibilitados de promover os meios de sua subsistência. A sua sede é nesta cidade de Feira de Sant’Anna, em edifício proprio, à Rua Cons. Franco, nº 33. Apesar destas evidencias, não descansarei enquanto não encontrar o registro de nossa Certidão de Nascimento (Ata de Fundação) ou, na pior das hipóteses referências para que possamos reescrevê-la.

A Secular Sociedade Filarmônica 25 de Março, esta senhora de 146 anos, é motivo de orgulho para toda comunidade feirense. Não somente por sua contribuição para formação de muitos jovens de sociedade, como também pelos feitos realizados ao longo de sua vida, que muito encheram de orgulho os moradores e admiradores da Princesa do Sertão. Não quero e não vou olhar para o passado, objetivo de justficar a situação que a entidade se encontrava, quando assumimos. Isto, porque acredito que nada iria contribuir para o fortalecimento da sociedade e nem iria ajudar-nos a constitruir o seu futuro. Sem ser muito pretensioso, falo que o futuro da sociedade será brilhante, pois acredito que istituição com uma história tão bela, como a nossa Secular Filarmônica 25 de Março, jamais morrerá. Sempre teremos abnegados que estarão prontos a ajudá-la a seguir em frente e repetir com galhardia conquistas que muito dignificaram os feirenses. Como podemos esquecer as conquistas que tivemos, nos Concursos realizados, durante as Festas de Senhora Santana, nossa Excelsa Padroeira, onde quase sempre tiravamos o primeiro lugar, nas disputas com as sociedades coirmãs? Como esquecer a conquista do Troféu WERIL, com uma exibição de gala, durante a realização no 4° Festival de Filarmônica do Interior, em 1978 e promovido peça SETRABES? Se fosse contar aqui todas as conquistas da sociedade, não teria espaço suficiente. Entretanto não teria como deixar de relembrar o 1° Campeonato Nacional de Bandas, realizado no Rio de Janeiro e promovido pelo MEC- Ministério de Educação e Cultura, através da Fundação Nacional de Arte - Funarte e pela Rede Globo de Televisão, através de um programa realizado aos domingos, chamado Concertos Para Juventude. Este campeonato tem registros que narram uma instituição altamente injustiçada com a nota atribuí da pelo Maestro Júlio Medalha, colocando-a em 3° lugar, com a nota 8,5. Na disputa a nossa banda foi ao Rio de Janeiro, sob o comando do Presidente João Domingos Barbosa Doute, com os seguintes músicos: Alfredo, Toninho, Arcanjo e Jacinto (tubas); Zequinha, José Ferreira ,Agostinho, Farias e Francisco (trombones); Nagib, Gilberto, Elias, Valdomiro, Zabidiel (pistons); Dé, Wilton, Aquino (trompas); Bento, Chicão, Ferreira e Carlito (saxofones); Tupinam (sax barítono); Braga, Eloi, Ulises, Otoniel, Humberto, Nivaldo e Bonfim (clarinetas); Nilo (requinta); Raimundo (caixa); Rafael ( flautim); Saul (pratos); Aloísio (bumbo); Raimundo (tambor). Afilarmônica teve como regente o Maestro Claudeniro Daltro (Maestro Miro). Nunca uma instituição cultural divulgou tanto o nome de nossa cidade como a Secular Sociedade Filarmônica 25 de Março.

Como escrever sobre a Secular Filarmônica 25 de Março e não registrar os talentosos Maestros Tertuliano Santos e Estevam Moura? Com uma grande produção musical, os dois gênios deixaram para as futuras gerações de músicos, um incontável acervo de partituras que vêm sendo utilizadas por filarmônicas e pelas escolas de músicas em todo país.

O processo de revitalização da Secular Filarmônica 25 de Março, indispensável para rejuvenescimento e futuro da mesma, foi iniciado em 07 de agosto de 2014, com a aula inaugural da Escola de Música Maestro Estevam Moura. Esta escola, um sonho do maestro, foi concebida para manter vivo o seu projeto de formar jovens músicos para compor o corpo musical da sociedade, promover o ensino e a divulgar a música, que além de humanizar e sociabilizar, ajuda a desenvolver a coordenação motora, o raciocínio e os auxilia até mesmo a compreender melhor a vida.

Como todo sonho para ser implementado, precisa ter ações concretas para sua realização. Buscamos na comunidade feirense, o apoio para aquisição de todo instrumental da escola e o resultado não poderia ser outro, conseguimos em quinze dias arrecadar os valores necessários para aquisição do mesmo. Isto é uma prova inconteste do amor que o povo de nossa cidade tem pela Secular Filarmônica 25 de Março.

Por outro lado, estamos contando com a colaboração voluntária do Maestro Antônio Carlos Batista Neves Júnior, que vem comandando com muita eficiência a formação e preparação dos 23 jovens músicos, utilizando para tanto o método de ensino do Professor Joel Barbosa, com aulas vespertinas, às segundas, quartas e sextas- feiras no Centro Comunitário Ederval Femandes Falcão.

Nesta luta incansável pelo resgate da Sociedade Filarmônica 25 de Março, temos um grande desafio, a restauração da sede da Rua Conselheiro Franco. O primeiro passo já foi dado, a elaboração do projeto para recuperação do telhado e logo em seguida irá executar o projeto. Após a reforma do telhado, começaremos a busca para a aprovação do projeto para reforma total da edificação, através dos programas de incentivos fiscais dos governos federal e estadual. O sonho de nossa entidade é restaurar o velho prédio, para devolvê-lo à comunidade feirense em todo seu esplendor.

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ESCOLA RUY BARBOSA: UM MARCO EM FEIRA DE SANTANA

26/12/2017, 9:39h

Por: Adilson Simas

Licenciada em Letras, professora aposentada da Uefs e ex-secretária municipal de Educação, Ana Rita de Almeida Neves, em artigo para a edição especial do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana ressalta a importância da Escola Ruy Barbosa criada nos idos de 1945 e exalta a vocação educacional de sua criadora, a professora Valdemira Alves de Brito, carinhosamente chamada de “Profª Nena” nascida nesta cidade em abril de 1918 e que se viva estivesse completaria neste 2018 que se avizinha, cem anos de existência.  Vale a pena ler o texto da mestra Ana Rita de Almeida Neves.

“Na época da internet, para que serve o professor?” Esta curiosa pergunta é feita por um estudante ao seu professor numa crônica do italiano Umberto Eco (2007).

No seu texto, Eco observa que, sem dúvida, as informações da internet podem até serem mais amplas e também mais aprofundadas que aquelas apresentadas pelo professor em classe, todavia a internet não ensina como “ligar dados e estabelecer visões sistemáticas entre eles, nem como filtrar; selecionar; comparar; julgar as informações, de modo a aceitá-las  ou recusá-las”.

Professora Nena foi a fundadora da Escola Ruy Barbosa

As considerações do professor italiano trouxeram-me à lembrança a Escola da Prof Nena: a Escola Ruy Barbosa, incontestavelmente um marco na história da educação na Princesa do Sertão.

Escola de tradição em Feira de Santana, a Ruy Barbosa apresentava no escudo gravado na camisa da sua farde o slogan: EDUCAR e INSTRUIR.

Se Eco pretendeu fazer seus leitores refletirem sobre a ideia de que não é suficiente o domínio da informação, mas é importante, também - ou sobretudo -, desenvolver competências e habilidades que possibilitem ao sujeito aprendiz saber o que fazer, como lidar com as informações, a Ruy Barbosa no seu slogan, buscava revelar a sua pretensão de EDUCAR, formando, com base em valores firmes, como respeito, disciplina, compromisso, responsabilidade, cidadãos instruídos, contudo capazes de irem além da instrução, da mera aquisição de conhecimentos.

Certamente, por esse esforço de não apenas instruir, mas principalmente educar, a Escola da Profª Nena se fez viva – e viva se mantém – no decorrer das décadas de sua história na educação de Feira de Santana, contribuindo na formação de profissionais que vivificam o desenvolvimento do município e de tantos outros rincões.

Por suas salas de aulas, corredores, pátios, transitaram aqueles que hoje são psicólogos, professores, odontólogos, políticos, juízes, profissionais liberais, médicos, artistas, escritores, advogados, engenheiros, poetas, administradores, economistas, contadores, fisioterapeutas, turismólogos, jornalistas, comerciantes... aqueles que, atuando nas mais diferentes áreas de trabalho, de alguma forma, revelam na sua atuação profissional, muito do que aprenderam com a palavra, com a postura, com as atitudes, com o exemplo da Profª Nena e daqueles  que com ela atuaram na Escola Ruy Barbosa.

Valdemira Alves de Brito – Profª Nena – nasceu em Feira de Santana, em 13 de abril de 1918, formou-se em Professora Primária em 1938, pela Escola Normal de Feira de Santana, que funcionava na Rua Conselheiro Franco (Rua Direita), no prédio onde hoje funciona o Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA). Por aprovação em concurso público foi designada para lecionar no Município de Maracás/Bahia de onde foi transferida para o Município de Conceição do Jacuípe/Bahia e, depois, para Feira de Santana.    

Em Feira, em 1945, na garagem de sua residência, na Avenida Senhor dos Passos, 47, começou a lecionar a um pequeno grupo de crianças. O grupo cresceu com a chegada de mais crianças, e duas professoras foram convocadas: as irmãs Lourdes Santana e Didi Santana, as primeiras professoras contratadas para lecionar na Escola da Profª Nena, cujo nome – Ruy Barbosa – nasceu da votação entre os alunos da época.

A Profª Valdemira Alves de Brito faleceu em 6 de janeiro de 1998. Uma personalidade desta terra formosa e bendita, que marcou a área educacional do seu rincão natal. Atuou na educação por quase seis décadas, sempre com altruísmo, dedicação, responsabilidade, compromisso, firmeza, e – apesar de não gostar de revelar – com um coração sensível, humano, justo, próprio dos que compreendem a educação como direito de todos, como um valor fundamental na vida do ser humano.

Em vida, recebeu, com alguma resistência, homenagem do Rotary Clube de Feira de Santana, e  teve, por deferência  do prefeito da época, Dr. Colbert  Martins, seu nome numa Escola Municipal. Em dezembro de 2012, a Câmara Municipal de Feira de Santana concedeu-lhe, em homenagem póstuma, a Comenda Áureo Filho.

Pela Escola Ruy Barbosa continua a transitar por todos os seus espaços, sob a liderança de familiares da Profª Nena, crianças, adolescentes, professores, funcionários, pais, descortinando o mundo, o conhecimento, a vida, EDUCANDO e CONSTRUINDO.

Estudantes, professores, funcionários, pais continuam, como há mais de seis décadas, a fazer valer o ideal de uma mulher determinada, dinâmica, firme, que sabia o valor da disciplina, do respeito, da igualdade, da responsabilidade, uma pessoa humana, sensível, justa: Uma educadora que acreditava na educação, porque acreditava no homem.

Uma educadora que deu o melhor de si pela educação, uma educadora que depositava suas esperanças na educação, porque tinha convicção de que, através da educação, o homem poderia SER MAIS: mais informado, mais competente, mais solidário, mais humano, mais comprometido consigo próprio, com o outro, com a vida, com o mundo. Mais GENTE, mais FELIZ.

É consenso afirmar-se que a educação é o bem maior para o desenvolvimento pessoal e para o desenvolvimento de uma comunidade. Não há crescimento com dignidade sem educação. A Escola Ruy Barbosa é um marco na educação de Feira de Santana.                      

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FEIRA EM HISTÓRIA: TV Subaé, uma história de sucesso

22/12/2017, 16:46h

Por: Adilson Simas

Com passagem por vários jornais e revistas da cidade, fundador e atual chefe de redação da TV Suabé, o jornalista Marcílio Costa ressalta em artigo a importância para Feira de Santana, o advento há quase três décadas, em junho de 1988, da emissora afiliada a Rede Globo de Televisão. Vale a pena ler de novo o artigo “Tv Subaé, uma história de sucesso”, do premiado profissional da comunicação.

- Feira de Santana antes e depois da TV Subaé. Certamente não é nenhum exagero fazer esta divisão dada a importância da chegada da primeira emissora da Rede Globo ao interior da Bahia em primeiro de junho de 1988. A TV Subaé representou não apenas a conexão do sertão baiano à maior rede de TV do pais. Foi muito mais do que isso se a gente levar em conta o que ela traduziu para a economia, a cultura, o esporte e para a vida da cidade como um todo, que a partir dali pode dar vez e voz a suas demandas e passou a contar com uma aliada para todas as horas.

A primeira grande marca da TV Subaé na vida de Feira de Santana já se fez sentir logo na sua inauguração. Era ano de eleição para prefeito e estava inaugurado o palanque eletrônico no maior colégio eleitoral do interior do Estado. Um aprendizado para todos. Nós da TV aprendendo a dar os primeiros passos na cobertura jornalística de um evento de tamanha envergadura.

Foi marcante realizar o primeiro debate ao vivo com os candidatos, assim como foi determinante e emocionante divulgar as primeiras pesquisas eleitorais. Um tempero que elevou a temperatura eleitoral às altura. De outro lado, os partidos políticos tendo que conviver com o horário eleitoral gratuito na telinha. Os grandes comícios davam lugar aos embates eleitorais, algo totalmente novo para os candidatos. Colbert Martins e Sergio Carneiro protagonizaram este embate com a vitória do ex-prefeito numa disputa fantástica que entrou para a história política do município.

O comércio de Feira, que já era o carro-forte da economia do município, ganhou um impulso extraordinário. O comerciante de Feira poderia a partir daquele momento anunciar na maior rede de televisão a um custo muito inferior ao que era disponível antes. Mágica? Nada. Era uma questão matemática resolvida pela regionalização da TV. Até então uma empresa de Feira só tinha como anunciar nas emissoras da capital, mas o custo era fora da realidade local. Pagava-se o preço de falar com o Estado inteiro quando a necessidade era falar com quem morava em Feira e região. A conta não fechava e não valia o investimento porque o retorno não seria suficiente para cobrir os custos. Por isso, eram poucas empresas que utilizavam este recurso e mesmo assim esporadicamente.

Ter uma emissora regional resolveu o problema e abriu a possibilidade de anunciar até para lojas de menor porte. O resultado imediato que só uma emissora de TV com a força da Globo poderia trazer era o que o mercado precisava e a TV Subaé se tornou uma aliada não só desse segmento da economia. Temos história de empresas que cresceram a partir da chegada da TV Subaé e anunciam na emissora desde o primeiro momento.

Se existia empresa para anunciar, precisava de agência de publicidade para produzir o material. Começava uma verdadeira revolução no mercado publicitário. Antes restrito a duas ou, no máximo três agências, o número atual pode ser contado em dezenas. Gerou emprego para muita gente e a força que o mercado precisava para que nascessem agências de qualidade, bem como produtoras e outros profissionais envolvidos com o mercado de comunicação. Não é à toa que a cidade tem dois cursos de publicidade. Sem medo de errar afirmo que a chegada da TV Subaé foi determinante para esta realidade no mercado de comunicação que temos atualmente na cidade.

A arte e a cultura de Feira são um capítulo à parte nesta história. Desde o primeiro momento a TV Subaé abriu todo espaço para mostrar nossos artistas. Apoiou e apoia todas as manifestações, seja institucionalmente através de seus projetos ou, principalmente, nos telejornais da emissora, onde a diversidade de manifestações é uma marca que sobrevive nestes 26 anos.

O jornalismo também é outro em Feira após a chegada da TV Subaé. Lembro a dificuldade para formar profissionais nos primeiros momentos. Eu mesmo sou fruto dessa nova realidade, visto que minha experiência era toda com impresso. Fazer parte da equipe desde o primeiro momento, quando aqui chegaram os profissionais da Globo que treinaram os primeiros profissionais locais e formaram a equipe inicial do jornalismo da TV Subaé, me permite traçar um paralelo entre o antes e depois. Já tínhamos uma imprensa forte, principalmente através do pioneirismo do Jornal Feira Hoje. Mas a TV Subaé deu a oportunidade para que todos nós avançássemos no aperfeiçoamento da profissão. E isso se multiplicou através dos profissionais formados ali, que espalharam a experiência para outros veículos.

De Feira para o mundo. A TV Subaé abriu as portas para mostrar as coisas de Feira para o Brasil e também para outros países através da Globo Internacional. A nossa Micareta ganhou muito mais com esta exposição. Entramos ao vivo no Faustão, no Fantástico, matérias em todos os telejornais da rede. Certamente ajudou a espalhar a festa para outras regiões do país. Nestes 26 anos foram inúmeras as vezes que a TV esteve presente no noticiário nacional.

Lembro-me de matérias como o “Pelotão Mundico”, criado pelo Exército com meninos; a orquestra de violino que tinha aula no quintal da casa do maestro, isso sem falar nas incontáveis vezes que estivemos presentes no Globo Rural. Como esquecer a cobertura do sequestro comandado por Leonardo Pareja que atraiu a atenção do Brasil inteiro durante três dias?

A TV Subaé nasceu com 14 municípios, mas hoje chega a mais de 50 e atinge uma população de 2 milhões de pessoas com seu sinal digital já difundido para a região. Desde 1998 integra a Rede Bahia, numa associação com o Grupo Modesto Cerqueira. A TV Subaé chegou a Feira através do empenho do empresário Modezil Cerqueira, um verdadeiro idealista que se empenhou com todo o seu empreendedorismo para implantar o sinal da Globo. Ele dotou a cidade de uma emissora que nós podemos nos orgulhar não apenas pela sua qualidade tecnológica. Desde os primeiros passos obedecemos a uma diretriz fundamental: a ética.

Não foi à toa que em seu primeiro pronunciamento no programa inaugural da emissora ele firmou compromisso pela verdade. Nada mais que a verdade.

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Feira teve Carnaval, antes de criar a Micareta

11/12/2017, 12:20h

Autor do livro “31 Anos de Micareta”, o jornalista e historiador Helder Alencar lembra que em tempos idos existia Carnaval em Feira de Santana, ainda com a denominação de Entrudo. O advento da nova rodovia Feira-Salvador contribuiu para o declínio da festa carnavalesca na cidade, pois com as facilidades de locomoção por conta da rodovia, os foliões passaram a optar pelo Carnaval da capital. Foi assim, e graças aos artigos do jornalista Antônio Garcia, que a folia em Feira mudou de nome e data, nascendo a Micareta de Abril, a maior do Brasil. Vale a pena ler o artigo de Helder Alencar. (Adilson Simas)

O CARNAVAL NA FEIRA

Hélder Alencar


São antigas, muito antigas mesmos, as festas de Momo na Feira de Santana. Elas datam de quando o carnaval ainda era a festa, denominada de Entrudo, festa que precedeu no Brasil, como em Portugal, aos grandes festejos carnavalescos.

Diz Luiz Câmara Cascudo, inegavelmente, o maior folclorista brasileiro, no seu “Dicionário de Folclore Brasileiro”, que o “entrudo brutal e alegre viveu até meados do Século XIX”.

Assinala ainda, Cascudo, que “pelo norte ao centro sul do Brasil o movimento era geral. Água, farinha do reino, gomas ensopavam os transeuntes – águas molhando famílias inteiras em plena batalha”.

O velho jornal “O Comercial” que por muitos anos se editou na Cidade de Feira de Santana, condenava, em 1871, o entrudo feirense, com a seguinte nota: “O divertimento do entrudo passou nesta vila sem lamentar-se desgraça alguma, graças ao desuso em que vai caindo esse péssimo brinquedo”.

O entrudo permaneceu, entretanto, até 1891, ano em que os jornais locais dão conta das primeiras manifestações carnavalescas.

Em 1877 – durante o entrudo feirense, no baile das máscaras do Hotel Globo, o moço Francisco Xavier de Macedo recebeu uma estocada e, no local denominado Minadouro desancaram a pauladas a Martim Levino Diêgo.

Como se pode notar a fama do Minadouro data de longos anos. O entrudo era assim, uma festa bárbara, violente e absurda, precursora do Carnaval.

Na Feira de Santana houve muitos entrudos, até que surgisse o Carnaval que duraram alguns anos, quando então apareceu a festa magnífica e grandiosa que é a Micareta.

Passada a fase do entrudo, a cidade começa a viver o período carnavalesco propriamente dito e em 1891, a imprensa falava em Carnaval, que teve a sua primeira agremiação fundada em 1924, o “Clube Carnavalesco 2 de Julho”.

Oscilando entre a animação em certos anos e o fracasso em outros; o carnaval foi sobrevivendo na Feira de Santana, proporcionando ao povo momentos inesquecíveis de alegria, até que o aparecimento da rodovia para Salvador decretasse o início do declínio carnavalesco, aparecendo fraco e sem grande movimentação o tríduo de momo de 1932.

A nova rodovia determinava a ausência de foliões, que preferiam o carnaval de Salvador.

Menção especial merece o carnaval feirense de 1929, não só pela animação que reinou, como também pela revolta popular acontecida na terça-feira, quando a cidade ficou às escuras por certo tempo.

Portando velas, o povo realizou enorme passeata até a sede da Cia. Melhoramentos, que ficava situada defronte do local onde hoje se ergue o Feira Tênis Clube, sendo contido, entretanto pelo então intendente Dr. Elpídio Raymundo da Nova.

Voltando a luz o povo se divertiu na Praça da Matriz até as primeiras horas da madrugada de quarta-feira, ao som da Sociedade  Filarmônica 25 de Março, que no coreto realizava retrata.

O fracasso do carnaval feirense, com animação caindo de ano para ano, foi determinando o nascimento das festas de após páscoa, que pouco ganharam mais animação e consistência até o seu surgimento definitivo.

O carnaval de 1937, um dos últimos realizados nesta cidade, apresentou a Srta. Eunira Alves Boaventura como Rainha e as Srtas. Teté Fernandes, Maria Luiza Motta, Bernadete Lima Santos e Mary da Silva Azevedo, como princesas.

O sr, Heráclito Dias de Carvalho, Prefeito Municipal na época e por sinal um dos mais operosos que já passaram pelo governo de Feira de Santana, era o Presidente de Honra da Comissão, que era constituída, na parte executiva, pelos Srs. Oscar Erudilho, Hermogênes, Alvaro Moura Carneiro, Rodolfo Ballalai, Pedro Matos e Vitor Santana.

A Comissão de Propaganda apresentava:  Antônio Garcia, Oscar Erudilho. Eliziário Santana e Arlindo Ferreira, sendo a Comissão de Bailes assim constituída:  Oscar Marques, Antônio Matos, Edgard Vasconcelos, Álvaro Carvalho e Almiro Portugal.

Joaquim Costa, José Maciel Ribeiro, Florisberto Moreira e Tertuliano Carneiro eram encarregados das ornamentações das ruas, enquanto Jacy Assis, Ceres Figueiredo, Eunira Boaventura, Cremilda Sampaio, Mariinha Assis, Eunice Alves Boaventura e Bernadete Lima Santos compunham a Comissão Feminina.

Antes dos festejos carnavalescos de 1937, a Comissão Feminina realizou a Festa dos Zíngaros, que foi assim comentada por uma cronista da época: “A encantadora Festa dos Zíncaros, promovida pela prestigiosa Comissão Feminina foi o prenúncio do brilhantismo do Tríduo da Folia em que (podemos já informar) só haverá bailes a fantasia em as noite de sábado, 6 de fevereiro próximo e da segunda-feira gorda, reservados o domingo e a terça-feira de Momo para as passeatas vespertinas e noturnas de cordões, batucadas, ranchos e blocos e para o corso de veículos ornamentados”.

Foi aí que o Profº Antônio Garcia, um dos redatores da “Folha”, sugeriu a realização da Páscoa da Folia dando definitivamente, início à chamada Micareta.

Era o Carnaval de 1937 aguardado com a máxima ansiedade pelo povo que se divertiu pouco sem sentir-se plenamente satisfeito, pois chuvas intensas e forte desabaram sobre a cidade durante o tríduo carnavalesco, especialmente na chamada terça-feira gorda, a partir das 15h, quando as chuvas foram mais fortes, prolongando-se ainda por toda a quarta-feira de cinzas.

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