EURICO ALVES BOAVENTURA: O JEITO SERTANEJO DO PREMIADO ESCRITOR FEIRENSE

21/3/2025, 9:56 | Foto: Divulgação - Arquivo ZMP
A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade

Autor feirense que mais editou livros, com impressionante multiplicidade de assuntos, foi, também, o que defendeu com mais veemência a preservação das raízes do povo sertanejo. De temperamento forte, posicionava-se contra os governos ditatoriais e sentiu na pele a demonstração de poder do governo militar. Dentre outras obras, lançou o festejado *Fidalgos e Vaqueiros*.

Considerado intempestivo e de temperamento difícil, Eurico Alves Boaventura foi um poeta, um homem de letras essencialmente preocupado com a sua terra - o sertão que tem início em Feira de Santana - e que, já nos primeiros anos da década de 1920, procurava sair do seu bucolismo, com acelerado crescimento, aventurando-se a um tempo de progresso inusitado. Apesar desse apego à terra, era um cidadão de visão progressista, o que, talvez, criasse em torno de si uma aura conflitante, entre o amor telúrico, pelas suas raízes, e ideias avançadas. Todavia, só quem o conheceu de perto poderia ter a propriedade de analisá-lo e não julgá-lo, pois esse não é o propósito.

Nascido em 27 de maio de 1910, em Feira de Santana, filho de dona Maria Amália Boaventura e Gonçalo Aves Boaventura, próspero comerciante de couro com loja especializada instalada na Praça dos Remédios, Eurico demonstrou, desde cedo, sua inclinação para as letras, aprofundando-se na literatura. Muito cedo se dedicou ao estudo do Direito, formando-se em Salvador, onde frequentou o Colégio Marista, o Colégio Nossa Senhora da Vitória e o Colégio da Bahia, antes de chegar à universidade. Fixou-se na capital, atuando na advocacia e exerceu a função de Juiz de Direito.

De posições definidas contra regimes governamentais que se apoiassem no autoritarismo e na ditadura, foi vítima de ações desse porte pelo regime militar, que interrompeu a democracia brasileira, tendo o cargo de Juiz de Direito cassado de forma ignóbil e arbitrária, assim como a prisão a que foi submetido em cela comum. "Eurico era um homem apaixonado por suas próprias raízes e por sua terra. Não obstante emotivo, capaz de assomos de palavras e de veemência na defesa de suas opiniões, Eurico sempre foi um homem discreto e recolhido." Esse perfil descrito pelo saudoso professor José Maria Nunes Marques, que foi reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), talvez seja o que melhor defina o autor de *Fidalgos e Vaqueiros*, sua obra mais festejada.

Dizia o mestre José Maria Nunes Marques que Eurico era um homem singular e acrescentava: "O poeta é essencialmente singular", deixando a entender que nada havia de errado no modo de ser do poeta, ensaísta, cronista e contista, consagrado como o autor feirense que mais ditou livros sobre temas diversos, dentre eles: *Beira Rio*, *Cipós Verdes*, *O Sertão e a Alimentação Nordestina*, *Ruínas do Passado*, *Folclore*, *Costumes do Sertanejo Baiano* e *Aristocracia Rural*. Além de escrever, voltava-se para a arqueologia, que era uma das suas preferências nos estudos que realizava.

Consoante um vetusto artigo do professor José Maria Nunes Marques, o poeta Eurico Alves Boaventura "rebelava-se contra a descaracterização da cultura sertaneja, contra a insensibilidade e a omissão". Progressista nas letras, na poesia e na esperança do aperfeiçoamento comunitário, ele era claro quando "estigmatizava a ignorância e a feiura das adaptações e 'reformas' de velhas construções senhoriais, tornadas simples monstrengos informes". Mas foi modernista, participando do grupo responsável pela revista *Arco e Flexa*, militando também, por outro feirense, Godofredo Filho. Mantendo seus ideais inalterados, Eurico Boaventura adoeceu e faleceu em Salvador.

Por Zadir Marques Porto



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