TENENTE CORRÓ: INTELIGENTE, IRREVERENTE E AMIGO
Nem sempre conseguimos traçar com fidelidade, através de palavras, o perfil físico ou intelectual de alguém, por motivos vários que não são necessários expor. No caso do Tenente Corró, a partir do apelido que ele jamais contestou, é fácil entendê-lo e vê-lo, imaginariamente, mesmo sem conhecê-lo. Mas o bom mesmo era conhecê-lo. Um grande homem!
Já figuras humanas enriquecem a comunidade com suas presenças, por diferentes motivos, naturalmente se de caráter benéfico, independente da condição social ou financeira. Na verdade, hoje, com o extremo avanço tecnológico, que parece suprir do homem (a espécie) alguns sentimentos, rareiam figuras populares que, sem a "alquimia" da mídia eletrônica agora existente, eram verdadeiros "influenciadores", e isso era comum em, praticamente, todas as comunidades. A Terra de Senhora Santana sempre foi abençoada pela presença de pessoas capacitadas a exercer esse papel, expandindo amizade com respeito e civilidade.
Dentro desse valioso elenco vale citar Antônio de Farias Borges que, assim tratado, pode passar em branco na memória dos que com ele tiveram a felicidade de conviver ou, de algum modo, conhecê-lo. "Tenente Corró", assim titulado pela baixa estatura física, compensava-a com rara inteligência e capacidade de fazer amigos e, o que é mais importante, preservá-los. Natural de Salvador, nasceu em 13 de junho de 1912. Antônio de Farias Borges alistou-se e serviu ao Exército Brasileiro, apesar da altura inferior à exigida pelo regulamento. De capacidade física e intelectual muito acima do que se entende por tamanho, chegou ao posto de tenente e, em 1956, aos 44 anos de idade, após passar para a reserva, transferiu-se com a família para Feira de Santana, onde alargou seu ciclo de amizades. Era exímio contador de casos e causos e conseguia, com facilidade, fazer amizade com os mais jovens, mostrando, de forma convincente, os valores morais dos quais não prescindia, apesar do seu espírito alegre e brincalhão.
Com idade próxima dos 60 anos, mantinha vigor físico admirável. Andava pela cidade diariamente, visitando amigos, aconselhando-os e alegrando-os com suas brincadeiras. Era comum "plantar bananeira" – andar apoiado nos braços, utilizando-os no lugar das pernas, que ficavam para cima. Fazia isso com a facilidade e agilidade de um garoto. Mas também tinha grande agilidade mental, se assim é possível nominar a inteligência. Fazia versos humorados, contava fatos relevantes do período militar, sem esquecer as raízes familiares, com natural respeito. Poeta, mesmo sem alarde do que produzia, teve obras poéticas publicadas em jornais, dentre eles a Folha do Norte.
Antônio de Farias Borges foi um dos primeiros integrantes da Academia Feirense de Letras (AFL), ocupando, durante vários anos, com um trabalho de qualidade, a secretaria da instituição. Depois de Feira de Santana, o "Tenente Corró" teria residido em Alagoas e, posteriormente, no Rio de Janeiro, onde faleceu aos 97 anos de idade, em 20 de novembro de 2009.
Poeta inspirado, de fácil exposição de sentimentos, de forma simples, sem exibição nem hermetismo, o soteropolitano Antônio de Farias Borges deixou vários trabalhos, como este belo soneto, alusivo à comemoração dos seus 54 anos de vida:
CONTANDO OS DIAS
Mais uma etapa de vida, hei vencido...
Cinquenta e quatro velas apaguei.
Já nem me lembro dos dias mal vividos.
E nem sequer lamento o que passei.
Ao meu modo, gozei a vida como quis...
Dentro das proporções de um viver normal.
Fui, deste modo, modesto e feliz...
Se não rico no bem, também não fui no mal.
Assim se vão os dias da minha vida.
A Deus agradeço a sua bênção,
Por ter me concedido assim viver.
Boa ou má, foi ela bem vivida.
O digo convicto e com emoção.
Obrigado, meu Deus, até morrer.
Por Zadir Marques Porto


