ONDE É A MICARETA? É NO FEIRA TÊNIS CLUBE. O FOLIÃO NÃO ESQUECE!
A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade
Que na vida material tudo passa é elementar, e todos sabem disso, mas há coisas e determinados momentos que, para muitos, deveriam se eternizar. É o caso do Feira Tênis Clube (FTC), primeira agremiação social de grande porte da Cidade Princesa, surgida em 1944 e extinta oficialmente em 2013, quando foi a leilão, embora já estivesse desativada e sem qualquer atividade.
Onde é a Micareta? A resposta estava pronta na boca do folião: é no Feira Tênis Clube! E foi assim durante muito tempo, em que a festividade, originária das ruas, dividiu-se em termos de espaços, pela natural evolução do evento, acompanhando o que ocorria com a cidade em transformação e a forma de comemorar imposta por classes sociais distanciadas, de forma perceptível, pelo poder aquisitivo. Assim era o ‘Aristocrático’, fundado em 8 de dezembro de 1944, com características de uma agremiação sócio-desportiva, voltada para a sociedade local, como era considerada a parcela da população mais afortunada. A grande fatia da população era formada por trabalhadores, que, não integrando a sociedade — pelo menos essa distinção era sentida —, permanecia nas ruas com os desfiles de escolas de samba, batucadas, trios elétricos e a indispensável participação do Rei Momo e da Rainha da Micareta, ladeada pelas duas princesas.
Dezoito anos após, em 12 de fevereiro de 1962, com o surgimento do Clube de Campo Cajueiro (CCC), ditado pelos preceitos da sociedade feirense, uma nova fragmentação ocorria, com uma boa revoada de associados do FTC para o CCC. Mas os frequentadores do Aristocrático continuaram vivenciando a festa momesca com intensidade. Na verdade, a rivalidade entre as duas agremiações fazia bem à sociedade, que contava com opções na “primeira divisão” social, digamos assim, fazendo um paralelo com o futebol. A “segunda divisão”, menos favorecida em termos financeiros, contava com a Euterpe Feirense, que promovia grandes festas, o Ali Babá e outras agremiações menores.
Mas o enfoque no Aristocrático vem por conta da sua primogenitura entre as agremiações sociais da Cidade Princesa, ditando uma modernidade já existente em cidades mais evoluídas. Foram também notáveis as conquistas da comunidade através do FTC. A piscina do clube possibilitou aos associados e frequentadores desfrutarem do prazer do nado, só possível até então no mar, em Salvador. A partir de 1964, com a criação dos Jogos Abertos do Interior (JAIS), o mais importante evento esportivo amadorístico da Bahia, e até hoje não igualado, o FTC tornou-se polo fomentador do amadorismo no estado.
O futebol de salão — hoje futsal — do Feira Tênis Clube chegou a ser o mais forte do estado, competindo com Sergipe e Ceará. No voleibol e no basquetebol, as equipes masculina e feminina eram referências na Bahia. Nas concorridas boates do azulino, foram inúmeras as atrações musicais, como Ângela Maria, Cauby Peixoto, Agnaldo Timóteo, Gregório Barrios, Jerry Adriani, Roberto Carlos, Jorge Ben, Dóris Monteiro, Altemar Dutra, Nelson Gonçalves, Ronnie Von, Orlando Silva, Wanderléa, Wanderley Cardoso, Emilinha Borba, Raimundo Fagner, Kid Abelha, Sandra Sá, Cassino de Sevilha, Paralamas do Sucesso, Golden Boys, Roberta Miranda, Noite Ilustrada, Lafayette, Trio Irakitan, Fafá de Belém e muitos outros.
Na parte esportiva, mesmo depois da extinção dos Jogos Abertos do Interior, que reuniam, anualmente, delegações de várias cidades baianas, independentemente da região, o clube continuou com o seu trabalho interno, revelando atletas de escol, incluindo grandes nadadores. E, mesmo sem abrir as páginas do grande capítulo escrito com as memoráveis festas sociais, como ‘O Broto do Ano’, ‘Uma Noite no Havaí’, ‘Rainha da Cidade’ e ‘Festa das Debutantes’, promovidas pelo colunista social M. Portugal, é impossível falar da primeira grande agremiação social da cidade, que foi extinta na primeira década dos anos 2000 e leiloada em 2013, sem usar a sua mais expressiva marca, que hoje, mesmo com a sua inexistência, parece soar de forma inapagável: Onde é a Micareta? É no Feira Tênis Clube!
Por Zadir Marques Porto
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