NO AMADORISMO ATÉ DOUTOR APITAVA JOGOS DE FUTEBOL
A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade
Não se pode comparar o modo de vida de seis ou sete décadas passadas com o dos dias atuais. Seria uma incoerência absoluta, mas é sempre bom lembrar fatos e eventos que possibilitam imaginar o cenário de então e personalidades que o ilustraram com suas fortes participações. Num ambiente simples como era o futebol, há bons exemplos como o do médico Gastão Guimarães.
O futebol tem evoluído bastante desde o seu surgimento, de origem e época imprecisas. Teria sido na China, na Índia, no Egito, mas não há dados exatos. Todavia, modernamente, considera-se a Inglaterra o berço do futebol, pois ali foram estabelecidas as regras básicas para as competições, ou toda a legislação própria. Ao longo dos anos, tem havido modificações importantes, buscando adequá-lo. Mudanças nas regras, nos trajes, no material esportivo, nos estádios, na formação dos atletas, enfim, em tudo que diz respeito ao esporte mais popular do planeta.
A arbitragem, item indispensável no futebol, como responsável pela condução do espetáculo de forma organizada, respeitando a legislação específica, tem sofrido modificações que há algum tempo seriam consideradas improváveis ou até mesmo impossíveis. O tradicional trio — juiz central e dois auxiliares (bandeirinhas) — cedeu lugar a uma equipe de arbitragem que incluiu o quarto árbitro e o VAR, constituído por mais três profissionais apoiados na eletrônica. Outro detalhe é o traje do juiz de futebol, antes obrigatoriamente preto e hoje com diversidade de cores, sem se falar na presença feminina na arbitragem, com muita qualidade.
Mas tudo isso objetiva falar do tempo do amadorismo em Feira de Santana, quando a arbitragem, sem remuneração, era um verdadeiro sacrifício atribuído a desportistas que aceitavam a difícil missão, expondo-se à antipatia de muitos, críticas e até mesmo à violência e agressões. Muito antes da fundação da Liga Feirense de Desportos Terrestres (LFDT), em 1942, jogos de futebol eram realizados em Feira de Santana e, naturalmente, arbitrados. Nessa época, sem pessoas devidamente preparadas, a tarefa cabia a diretores de clubes, ex-jogadores, jogadores que não estavam em atuação e admiradores da arbitragem. Em alguns casos, um desportista que estava à beira do campo era convidado e aceitava a tarefa.
Assim, não há registro de árbitros dos primórdios do futebol feirense, mas informações interessantes, como, por exemplo, que Gastão Clóvis de Souza Guimarães, renomado médico e professor, homenageado com seu nome no Instituto de Educação Gastão Guimarães (IEGG), teria apitado jogos na década de 1920, naturalmente para suprir a ausência de algum juiz. Gastão Guimarães, que era natural de Belmonte e foi o responsável pela formação da seleção de Feira de Santana que, em 1921, conquistou o título do primeiro campeonato intermunicipal de futebol, realizado em Salvador, foi um médico humanitário, mestre da Língua Portuguesa, exímio orador, mas simples a ponto de viver com intensidade o futebol. Vale explicar que, por não ter sido realizado pela FBF, o título do campeonato de 1921, ganho por Feira, não é reconhecido oficialmente.
A partir de 1942, com o surgimento da Liga Feirense de Desportos Terrestres (LFDT), atual Liga Feirense de Desportos (LFD), os cuidados com a arbitragem foram se acentuando, mas ainda de forma precária pela inexistência de formação específica. Todavia, na década de 1960, Walkir Portela, atacante do Vasco de Feira, entendeu que já era tempo de a LFD contar com um quadro de juízes qualificados. Walkir Portela, Manoel Rodrigues, Gentil, José Soares (Zé Dunga), Pedro, Caboquinho foram os primeiros a apitar com o emblema da LFD, inclusive atuando em jogos profissionais.
A partir dessa época, surgiram muitos juízes que atuaram oficialmente pela LFD, como: Amaury Morais, Raimundo Castro Alves, Canuto Novais, Gilberto Alves “Acaçá”, João Alves “Joãozinho”, Hudson Silva, Raimundo Alves “Mundinho de Almerinda”, Roberto Mauro, Carleone Constantino, Carlos Roberto “Cal”, Lourival Fernandes “Lourinho”, Santana Careca, Alberto de Jesus “Betinho”, Eduardo Vasconcelos “Maradona”, Arivaldo Vieira, Edvaldo da Paixão, Antônio Carlos “Neco”, dentre outros, sem incluir nessa relação outros bons apitadores que não fizeram parte do quadro oficial da LFD. Hoje, a Liga tem um elenco de apitadores de excelente nível, alguns atuando pela FBF com destaque. Em 1994, o radiotécnico Edmilson Amorim — “Michelinho”, então presidente do Flamengo local, foi nomeado diretor do Departamento de Árbitros da LFD pelo saudoso presidente da entidade, José Rogério Santana (1994/1996). Michelinho continua na LFD, agora como presidente da Comissão de Arbitragem, com um trabalho elogiável, que tem revelado muitos bons árbitros.
Mas, em tudo isso, o objetivo é evidenciar as diferenças do futebol amador de décadas atrás e o futebol profissional de hoje, regido pelo dinheiro, onde até os dirigentes são regiamente remunerados. Vale lembrar homens como Manuel Fausto dos Santos (Manoel de Emília), José Francisco dos Santos (Setenta e Quatro), Manoel Narciso, Antônio Carvalho (Donga), José Barros, Antônio Machado, Raimundo Daltro (“Zé Fó”), Dr. Adir Athaíde, Antônio Ferreira, Anolino Franco, João Carneiro (João Bubu), Laerson Pimenta, Ivanito Rocha, Dr. Wilson Falcão, Moacir Cerqueira, Dr. Colbert Martins da Silva, José Enock da Cruz, Estevam Santos, João Mendes, Francisco Freitas, Willy Mendes, Miguel Serra, dentre tantos outros que “gastavam o que não podiam” por seus clubes. Um dos maiores exemplos de abnegação foi o médico e professor Gastão Guimarães, que até jogos apitou pelo amor ao futebol.
Por Zadir Marques Porto
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