JOIAS E OURO: SEMPRE FORAM IMPORTANTES PARA O COMÉRCIO LOCAL

31/8/2026, 9:43 | Fotos: Arquivo pessoal
A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade

Falar da importância do gado bovino na história do município é algo corriqueiro, mas, no segmento comercial, há outros elementos valiosos que contribuíram, e contribuem, para essa sólida posição ostentada. O comércio de ouro e joias, a partir de habilidosos ourives, mas pouco lembrados, insere-se com valor nessa história e a enriquece com fatos interessantes, como o que envolveu um vendedor de joias de Feira e o cangaceiro Lampião.

A vocação de Feira de Santana para o comércio é indiscutível, e isso é cada vez mais notório com a expressiva força desse segmento na composição da sua economia. A Princesa do Sertão nasceu vocacionada, a partir do comércio do boi em pé e, embora sem ter um rebanho de volume muito expressivo, valia-se de sua privilegiada posição geográfica no mapa do estado da Bahia. Mas a vida é feita de ciclos, como a do fumo, que foi enriquecedor para muitas famílias. Ainda em relação ao comércio do boi, pequenas indústrias, ou fábricas, começaram a surgir, tendo como matéria-prima o couro na fabricação de selas, botas, chapéus, roupas de vaqueiros e arreios em geral. Do mesmo modo, as charqueadas de carne verde impulsionavam os negócios.

O comércio inicial praticado na cidade, com produção também de cunho artesanal, alavancou o desenvolvimento nas primeiras décadas do século passado, e um dos segmentos mais alvissareiros foi o da ourivesaria, que durante muito tempo propiciou trabalho para famílias inteiras, gerando emprego e renda, ao tempo em que atraía pessoas de várias cidades interessadas em adquirir joias e peças de ouro e prata. Não era só a venda, como também o fabrico, uma vez que, nessa época, surgiram grandes artesãos, produzindo belas peças e contribuindo na expansão da fama que o comércio local já desfrutava.

Embora sem registros, o que impossibilita maior precisão, nesse período, por volta das décadas de 1930/1940, o português Joaquim Souza Coelho, com loja instalada na Rua Sales Barbosa, foi um dos mais destacados e prósperos comerciantes de joias e pedras preciosas do município. Oriundo de terras lusas, ele chegou à Bahia aos 18 anos e, sendo mestre na ourivesaria e empreendedor, montou um grande estabelecimento especializado em joias, na Sales Barbosa, que abastecia diversas lojas e comerciantes no Sul da Bahia, região do sisal, Recôncavo e até no estado de Sergipe, tendo, para isso, uma equipe de viajantes e tropa de animais, que era a forma de deslocamento existente.

Joaquim Souza Coelho era pai do empresário do ramo imobiliário Antônio Torres Coelho e avô paterno do ex-vereador e atual presidente da Fundação Egberto Costa, Antônio Carlos Daltro Coelho. Há fatos interessantes envolvendo o comércio de joias na época, e um deles teve como protagonista um vendedor de Joaquim Coelho, no vizinho estado de Sergipe. O vendedor foi abordado por Lampião e, naturalmente, temendo perder a vida, expôs todo o mostruário ao cangaceiro, que pegou apenas um belo anel de ouro. “De quem são estas joias, rapaz?”, questionou Lampião e, diante da resposta do apavorado vendedor, garantiu: “Eu só vou ficar com esse anel, mas diga ao português que, se ele não mandar três caixas de rifles e balas, ele não venderá mais nada aqui!”.

O recado foi transmitido, os rifles enviados e as joias do português continuaram chegando sem problema em Sergipe. Joaquim de Souza Coelho deixou a atividade anos depois, tornando-se próspero fazendeiro, e faleceu aos 77 anos de idade. Outra figura marcante foi Minervino Ferreira da Cruz, popularmente Pepeu, dotado de grande habilidade e técnica, que produzia joias que alcançavam altos valores, pela apurada qualidade. Esse trabalho artesanal contava ainda com mais de uma dezena de outros profissionais, majoritariamente instalados na Sales Barbosa, imediações da Galeria Caribé. Alguns relojoeiros também exerciam a ourivesaria.

Com o crescimento do comércio e a produção em escala industrial de joias e outros artigos de ouro e prata por empresas do Sudeste, em especial de São Paulo, provocando maior oferta, variedade e queda do preço, bons artesãos foram se afastando da atividade ou limitando-se à venda e consertos. Até por volta dos anos finais da década de 1960, houve um significativo comércio de peças de ouro — anéis, alianças, cordões, voltas, pulseiras — na Rua Marechal Deodoro, lateral da extinta unidade das Lojas Pernambucanas, onde havia uma grande banca de jornais e revistas.

Ainda em relação a esse segmento do comércio, o último nome de maior expressão, ou mais recente, é o de João do Ouro (João Serafim de Lima). Pernambucano de Serra Talhada, ele se instalou nesta cidade com a família, dedicando-se ao comércio de joias. Considerado homem sério, revigorou esse tipo de atividade, tornando-se uma liderança popular. Foi vereador nas legislaturas de 1967/1971 e 1983/1988. De um modo geral, a ourivesaria, em suas diferentes fases, tem sido muito importante para a economia de Feira de Santana.

Por Zadir Marques Porto



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