JOÃO MARINHO FALCÃO: UM CAPÍTULO ESPECIAL DA HISTÓRIA DE FEIRA DE SANTANA

1/9/2026, 9:33 | Foto: Divulgação - Arquivo ZMP
A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade

Menino pobre, vendedor, comerciante, pecuarista, industrial, banqueiro, prefeito de Feira de Santana, tudo isso com a marca da honestidade e ética que perdura 54 anos após o seu falecimento. João Marinho Falcão, assim como a heroína Maria Quitéria, um símbolo da terra abençoada por Senhora Santana.

Um dos mais fortes e respeitados comerciantes do município de Feira de Santana, do qual, com absoluto merecimento pela enorme contribuição dada para o seu desenvolvimento, viria a administrá-lo, como prefeito, João Marinho Falcão pode ser visto como símbolo de uma época, onde a solidez de personalidade, caráter e honradez – fatores nele encontrados –, eram indispensáveis para vencer, principalmente para quem não nascia em ‘berço de ouro’, que foi o seu caso.

João Marinho Falcão, quarto filho de Viriato Vasco Marinho e Alexandrina Ribeiro Falcão, nasceu em 13 de maio de 1839 e ficou órfão aos quatro anos de idade, com a morte do pai, Viriato, que faleceu aos 32 anos. Coube a dona Alexandrina, conhecida como Iaiá Sapateira, já que era uma habilidosa artesã de couro, a missão de manter a família constituída de João e as irmãs: Celina, Evangelina e Eufrôzina.

O ex-prefeito de Feira de Santana não teve uma infância feliz como merecem as crianças. Frequentou a escola por pouco mais de dois anos. Além de impulsivo, chegando a ser expulso da escola, denotava, na verdade, a vontade de trabalhar e ganhar dinheiro. Assim passou a trabalhar na pequena propriedade da família na Pedra do Descanso, também vendia pássaros e pequenos animais, exercitando a tendência para o comércio. Teve uma experiência na alfaiataria do mestre Quintino Sales, mas demonstrou que essa não era a sua vocação. Através do tio Manoel Falcão, foi trabalhar no armazém Ribeiro & Cia., na Rua do Meio (Rua Sales Barbosa).

No armazém mostrou-se incansável e comunicativo, ganhando a simpatia de todos pelo absoluto empenho e seriedade. Em 13 de maio de 1911, com o falecimento de Alexandrina – Iaiá Sapateira –, João Marinho, aos 18 anos de idade, tornou-se chefe de numerosa família. Em 1914, João pediu um adiantamento ao tio devido às despesas em casa e, com resposta negativa, deixou o trabalho no armazém. No dia imediato, foi chamado pelo coronel Agostinho Fróes da Mota, que o convidou para formar uma sociedade. João Marinho foi-lhe grato, mas não aceitou para não concorrer e causar prejuízo ao tio.

A atitude respeitosa e ética de João Marinho foi relatada por Agostinho a Manuel Falcão, que reconduziu o sobrinho ao cargo com melhoria salarial. Em 1918, João, com 25 anos, e Adnil, com 21 anos, casaram-se. O casal foi residir na Praça João Pedreira, onde nasceram os filhos Wilson e João. A família se transferiu para uma casa na Rua Marechal Deodoro, na qual nasceram Newton, Hildete, Nelson, Antônio, Walter e José. Já Manoel e Luiz nasceram no belo prédio que existia na Avenida Senhor dos Passos, chamado Palacete da Praça Bernardino Bahia. Antes disso, o casal teve dois filhos, Carlos e Carmem, que faleceram ainda pequenos.

A partir de 1922, com a morte do tio Manoel, João Marinho assumiu a direção do armazém e expandiu os negócios, passando a viajar com uma grande tropa de burros para vender mercadorias no interior baiano. Assim adquiriu parte do armazém Ribeiro & Cia. e convidou o comerciante e amigo Adalberto Constâncio Pereira, que com ele se associou. Todavia, em 1927, com o afastamento de Adalberto, surgia a Marinho Santos & Cia., na Rua Direita (Conselheiro Franco), estabelecimento ímpar na cidade, tanto nas instalações como no estoque. Em 1930, adquiriu, mediante leilão, por 68 contos de réis, o palacete da Praça Bernardino Bahia.

Passou a atuar com a mesma capacidade na pecuária e foi além, associando-se a dois amigos para o surgimento da Empresa de Carnes Verdes da Bahia. Visando à exportação de fumo, constituiu a Bartolomeu Santos & Cia., fundou também a Ferragem Gonçalves, Falcão & Cia. e, em Salvador, a firma Bernardino Carneiro & Cia. Ltda. Foi proprietário da Usina Itapetingui. Em 1942, trouxe o Banco de Administração S.A. para esta cidade. Em 3 de outubro de 1954, foi eleito prefeito de Feira de Santana, realizando uma profícua administração. Em 25 de dezembro de 1960, a loja Marinho Santos e Cia. era destruída por um grande incêndio, mas ele já estava afastado dos negócios. Apesar do dinamismo que marcou sua existência e sua incomparável vocação para os negócios, tornando-o um notável empreendedor, foi um homem extremamente sociável. Casado duas vezes, por conta de uma viuvez, foi um chefe de família extremoso, considerado excelente marido e, para os 13 filhos, um líder disciplinador e bondoso. João Marinho Falcão faleceu nesta cidade, aos 78 anos de idade, em 29 de novembro de 1971, deixando 13 filhos, 64 netos, 109 bisnetos, um trineto e uma história irretocável de trabalho, inteligência e dignidade. João Marinho Falcão não apenas faz parte da história de Feira de Santana; ele é um dos capítulos inapagáveis dessa magnífica história.

Por Zadir Marques Porto



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