JÚLIO RODRIGUES FILHO: UM CAMELÔ QUE MARCOU ÉPOCA NA ATIVIDADE
A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade
O tempo passa para todos, assim ficaram para trás os anos de ventura de Júlio Rodrigues Filho, natural de Caicó, Rio Grande do Norte, mas há 50 anos feirense de coração.
Uma vida intensa percorrendo o País, na atividade de camelô, com enfrentamentos, dissabores e vitórias. Inteligente, espirituoso, perseverante, fez da profissão seu sacerdócio.
Aos 94 anos de idade, aposentado, fisicamente bem, mas já ingressando no período em que, lamentavelmente, a mente cansada começa a falhar, Júlio Rodrigues Filho, o Julinho, afasta-se da atividade que desempenhou durante longos anos com tal eficiência que chegou a ser titulado como o “rei dos camelôs”. E assim era não apenas pelo volume de vendas, como pela facilidade de obtê-las, muitas vezes usando a sua impressionante inteligência e táticas dela extraídas, com extrema rapidez para fechar uma negociação. Ser camelô, hoje uma atividade praticamente desaparecida, era bastante difícil de ser bem-sucedido, mas Julinho, com extrema capacidade, conseguiu e ganhou fama na profissão.
Natural de Caicó, Rio Grande do Norte, Julinho foi um dos 14 filhos do jovem casal Júlio Rodrigues e dona Rosália. Nasceu no período da "grande seca de 32", que conflagrou o já sofrido sertão nordestino, como a testar o limite de coragem e destemor do seu povo. Na infância e adolescência viveu interessantes aventuras como um apurado vestibular para a vida adulta, que não seria diferente. Alistou-se no Exército de forma inteligente, apesar de não atingir a altura mínima necessária por um centímetro, elevando o corpo na hora da medição, mas tornou-se desertor. Depois conseguiu a reincorporação.
Trabalhou na Cia. Telefônica, no Rio de Janeiro, onde, vendo o trabalho de um propagandista, ficou interessado e logo estava na Praça XV de Novembro em atividade, de forma surpreendente.
“Você parece um camelô experiente, um cara veterano na profissão”, disse-lhe um carioca que vivia da atividade havia muito tempo, admirado com o desempenho do estreante.
Com o camelô Pedro Grosso encarou o desafio de trabalhar fazendo mágicas e segurando uma jiboia (cobra), coisa que alguns propagandistas faziam para chamar a atenção do público. Todavia, por não gostar de "pegar na cobra", como diziam os camelôs, resolveu inovar e adquiriu um lote de camisas "Volta ao Mundo", que naquele momento era moda na Cidade Maravilhosa. Com essa mercadoria, de grande demanda, partiu para trabalhar por conta própria, viajando pelo Brasil e se deparando com situações perigosas, hilárias ou, pelo menos, curiosas.
Tempos depois, em São Paulo, vendia peixe-elétrico em uma praça, cercado de dezenas de pessoas atentas ao que ele dizia.
“Foi quando chegou uma senhora alta, bonita e bem vestida. Ela me olhou e, com ar de superioridade, disse que não acreditava no que eu estava falando, que era tudo mentira. ‘Vou provar’, disse.”
Segundo Júlio, apesar do aviso dado, essa senhora enfiou uma das mãos na caixa de peixe-elétrico e caiu sentada no meio da rua devido ao choque. Depois de se arrumar, ela saiu rapidamente sem nada dizer.
“Na verdade, ela não podia dizer nada. Foi avisada e tinha muitas testemunhas no local.”
Na profissão de camelô, várias vezes teve que usar a esperteza para vender. Em Feira de Santana, em um dia da grandiosa feira livre — uma segunda-feira —, sem mercadoria e sem dinheiro, conseguiu comprar caixas de uma lâmina de barbear que mal era usada e enferrujava totalmente. Era de péssima qualidade, absolutamente descartável, só dava para ser usada uma vez, lembra. Como a marca já era conhecida e ninguém queria, ele passou a simular que era mudo, e isso sensibilizou uma senhora que adquiriu toda a mercadoria, o que ele agradeceu efusivamente com gestos emocionados.
Momentos depois, essa senhora chegou à Despensa do Seu Lar, localizada no Mercado Municipal (hoje Mercado de Arte Popular), e lá estava o mudo, bem falante, comprando Ovomaltine, Leite Ninho, Toddy e outros produtos de primeira, o que a transtornou.
“O senhor não é mudo, é um sem-vergonha. Procurei ajudá-lo e agora o senhor está aqui comprando coisas que eu não posso.”
Jurivaldo Alves, cordelista que viajou com ele em incontáveis jornadas pelo País, garante que Júlio Rodrigues foi um dos melhores propagandistas e camelôs de sua época no Brasil.
“Muito inteligente, não se perdia diante de uma dificuldade, tinha sempre uma saída, não era vulgar, um excelente companheiro, bom marido e bom pai.”
Depois de, durante anos, percorrer o Brasil de Norte a Sul, nas suas incontáveis aventuras, Júlio Filho fixou-se em Feira de Santana há cinco décadas. É casado e pai de três filhos bem situados na vida.
Jurivaldo Alves destaca a inteligência do amigo como um traço natural da família:
“Seu Júlio e dona Rosália, pais dele, tiveram 14 filhos. Dos 11 vivos, apenas Julinho não se formou, mas é um homem de bem, muito inteligente, contador de casos, cantor. Ele tem um irmão desembargador, Aloísio Rodrigues, que também é escritor e autor de vários livros”, destaca.
Por Zadir Marques Porto
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