FESTA DE BONFIM DE FEIRA: A HISTÓRIA DE AFETO DE UM FAZENDEIRO PELO ESCRAVO

29/5/2026, 16:21 | Fotos: Acervo pessoal
A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade

Em meio ao terrível flagelo que foi a escravidão, também havia coronéis que, com dignidade, sabiam tratar os infelizes empregados com humanidade e até afeto, abrandando o impiedoso infortúnio. Esse sentimento de um casal de fazendeiros sem filhos, por um jovem escravo desaparecido, deu origem ao distrito de Bonfim de Feira, a partir da construção de uma capela do Padroeiro, com o rogo de ter o retorno do afeiçoado escravo.

Sem data precisa, mas estimada em 1800, a comemoração festiva alusiva a Senhor do Bonfim, no distrito de Bonfim de Feira — antes Senhor do Bonfim, a 31 km de Feira de Santana —, tem uma história interessante que justifica plenamente a sua manutenção pelo devotado povo bonfinense. Tudo teria começado de uma forma pouco convencional e até novelesca, com a fuga ou desaparecimento de um jovem escravo da fazenda de Manoel Antônio Bastos que, casado com Bernarda Maria da Conceição, mas sem herdeiros, tinha-o como um filho. Tamanha era a estima pelo escravo que o fazendeiro fez promessa e ergueu uma capela para Senhor do Bonfim, do qual era devoto, rogando ao santo o retorno do escravo, independentemente da situação dele. Na capela, entronizou uma imagem do santo, vinda de Portugal. Há um hiato nessa interessante história, sem registros do desfecho do episódio, não se sabendo o que teria acontecido com o escravo.

A partir daí, outros fazendeiros e moradores da região passaram a expressar sua fé no pequeno santuário recém-edificado, e essa crescente confraternidade resultou na formação do povoado, tornando-se a área conhecida pelo topônimo de Senhor do Bonfim, lógica homenagem ao padroeiro. Posteriormente, devido à existência de outras comunidades homônimas, ganhou o nome atual: Bonfim de Feira. Em 1803, tropeiros que constantemente cortavam aquela região, principalmente oriundos dos estados de Minas Gerais e Goiás, com destino à cidade de Cachoeira, transportando mercadorias diversas em suas tropas de animais, ergueram uma cruz de pedra em frente ao santuário, em honra a Senhor do Bonfim, até hoje preservada pela população.

Originalmente, a região era chamada pelos indígenas que habitavam a extensa área de Itacuarussu, que no idioma tupi significa furna ou cova de pedra. Fiel devoto do santo, o povo bonfinense promovia o festejo em sua homenagem no primeiro semestre do ano, mas o calendário foi modificado devido a evento similar realizado em Salvador, no mês de janeiro. A festa passou a ser feita no segundo semestre, mas voltou ao ciclo inicial do ano, no mês de maio. A mudança levou em consideração, principalmente, a questão climática e o seu reflexo na festividade, uma vez que a base de rentabilidade financeira da comemoração é o tradicional leilão de bovinos e, no segundo semestre, com pouca chuva e falta de pastagens, o gado perde peso, ao contrário do que ocorre no período entre janeiro e junho. Os leilões de gado são muito concorridos e a renda é revertida para a igreja e obras sociais na comunidade.

Bonfim é um distrito de muitas tradições culturais, como antigas instituições musicais que marcaram época, forte cultivo de fumo no ciclo correspondente e nomes como o médico e fazendeiro Teódulo Bastos de Carvalho, que foi Intendente de Feira de Santana (1937/1938) e suplente de deputado estadual em 1955, além de muitos outros, a exemplo de Augusto Moreira Bastos, João Rodrigues, Gracindo Medeiros, mestre Cizino, José Adorno, Pedro Pinto, Elmiro Borges, Aguinaldo Bastos, Ubirajara Leite, Godofredo Leite, Nestor Beirão, Rafael Alves Pereira, Juracy, Orlando, Ana Maria e João do Genipapo. O fazendeiro Silvio Leite, da Fazenda Candeal, com 99 anos e plena lucidez, uma referência de trabalho e seriedade na região, está sendo homenageado na festa deste ano.

O evento — de 22 a 31 deste mês — tem na presidência a ex-secretária municipal Lúcia Miranda, residente no distrito, ao lado de Célia Bastos e Orlando Bastos. Na coordenação, o padre Emanoel David Sobrinho, com apoio de Gracindo Medeiros, Augusto Moreira Bastos, Pedro Pinto, Luiz Alvim, João do Genipapo, dentre outros.

Por Zadir Marques Porto



  •