DE FEIRA À BAHIA (SALVADOR) - VAI DE MARINETE OU DE MOTRIZ?

28/5/2026, 15:53 | Foto: Divulgacao Carlos Bacelar
A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade

Oitenta anos atrás, ou um pouquinho mais, essa pergunta era feita a quem pretendesse ir à Bahia, como era conhecida a cidade de Salvador. Duas modernas opções na época, e inimagináveis pelas gerações atuais, eram oferecidas. Ainda sem a Rodovia BR-324 Feira/Salvador, a escolha ficava entre embarcar em uma Marinete ou no Motriz. De qualquer maneira, de terno e gravata, ou com um belo vestido, o passageiro ou a passageira iria enfrentar 3 ou 4 horas de viagem, no mínimo, se tudo corresse bem!

Em tempo de correria, quando para muitos perder um minuto é perder um dia, é difícil imaginar como era ir de Feira de Santana a Salvador em transporte coletivo na década de 1940. Os 109 km que distanciam a Cidade Princesa do Sertão da capital do estado, hoje vencidos em 1h30min, em média, em viagem de ônibus pela BR-324 (Feira/Salvador), e até por bem menos, em se tratando de veículo pequeno, a depender do veículo, do motorista, da sua disposição ou necessidade, representavam uma tarefa estafante. Essa viagem, em um veículo de transporte coletivo, conhecido como Marinete, era feita de uma maneira totalmente diferente, quase um passeio turístico, com direito a paradas e à observação do verdor da bela paisagem rural, marcada por casas brancas, gado pastando e árvores frutíferas.

Como ainda não existia a atual rodovia Feira/Salvador, e o percurso era mais longo, passando pela Lapa (a mesma Amélia Rodrigues) e São Sebastião do Passé, local oficial de parada e onde muitos passageiros merendavam (hoje é lanchar), almoçavam ou jantavam, de acordo com o horário de saída de Feira de Santana. De São Sebastião, o veículo seguia para Salvador, via Água Fria. E, se era difícil chegar à Bahia (assim era chamada a cidade de Salvador, como se o estado se resumisse à antiga capital do País), também era difícil, já estando nela, alcançar o local desejado, principalmente se não fosse na área central, como a Baixa dos Sapateiros, dotada de grande área comercial voltada para a classe de menor poder econômico; já os mais abastados preferiam a Rua Chile.

A topografia irregular de Salvador, absolutamente diferente de Feira de Santana, com incontáveis ladeiras e o desconhecimento dos bairros, obrigavam o visitante, se pretendesse ganhar tempo, a recorrer a um carro de praça (táxi), ainda poucos e todos de cor preta, que era a predominante. O retorno a esta cidade, processado com a mesma dificuldade, representava uma verdadeira vitória para o viajante. Para as pessoas idosas ou com alguma enfermidade, que precisavam ir a um hospital, ainda maiores eram as vicissitudes. Nesta cidade, as marinetes (ônibus) tinham como ponto a Praça da Bandeira, mas também ficavam na Avenida Senhor dos Passos, próxima à Prefeitura Municipal. Outro detalhe comum da época era o traje. Apesar da já sentida evolução, os homens não dispensavam o terno e o chapéu. As mulheres, naturalmente, usavam o que tinham de melhor e mais atual.

Para quem não gostava das marinetes, ou preferisse o transporte ferroviário, com alguma diferença de tempo entre os dois no percurso, o embarque era na estação ferroviária implantada em 1873, na atual Praça Presidente Médici, área onde está o Feiraguai. Além de trens comuns, havia o expresso, ou Motriz, destinado a passageiros e considerado mais confortável para ir até a capital. A linha férrea passava pelo bairro do Tomba, e esse teria sido o motivo do topônimo do bairro. É que ali havia uma elevação mais acentuada, e, na subida, o trem, muito pesado, sacolejava como se fosse sair dos trilhos, e a gurizada, que se postava para ver a máquina passar, gritava: “Vai tombar, ele tomba, ele tomba”. Não há registros de acidentes, mas o bairro ganhou esse nome.

O Motriz passava em Paripe e Periperi, chegando ao fim da linha, que ficava na Calçada. Esses trens tinham poltronas duplas e, na primeira classe, ofereciam refeição e café. A saída ou chegada de um trem no terminal era sempre um momento relevante e, quando se tratava do desembarque de uma autoridade ou pessoa de destaque, havia banda de música e muita gente. O transporte ferroviário em Feira de Santana deixou de existir em 1964, por decisão do governo federal, através do Ministério dos Transportes, quando já havia a nova estação, local hoje ocupado pela grande feira livre da Estação Nova.

Por Zadir Marques Porto



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