CARLO BARBOSA: NO MÊS DE JUNHO, UMA AUSÊNCIA MUITO SENTIDA

8/7/2026, 11:39 | Foto: Divulgação - Arquivo ZMP
A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade

Autodidata, ele começou muito cedo, mostrando nos rabiscos infantis a imutável inclinação para o desenho e a pintura, que iria acompanhá-lo até o final da vida, ocorrido há 38 anos, em Salvador. Sensível e reservado, o feirense Carlo Barbosa conquistou merecidas láureas pela qualidade da sua obra artística, abastecida de fé e do sincretismo do povo nordestino.

No dia 20 do mês de junho, ele teria completado 81 anos de vida, se dela não tivesse se despedido muito cedo, aos 42 anos, em 1988, em plena atividade, com planos e talento para continuar a produzir a arte pictórica que o colocou entre os mais destacados artistas plásticos da Bahia. Introvertido, mas perfeitamente vocacionado para o trabalho artístico, Antônio Carlos de Oliveira Barbosa, antes de se tornar Carlo Barbosa, foi um menino educado, que, em casa ou na escola, tinha "a mania", como se dizia, de não poder ver um papel em branco e logo estar a "decorá-lo" com os seus rabiscos infantis, coisa que muitas crianças costumam fazer. Mas, no caso dele, foi diferente.

Ouvir estórias e histórias narradas pela avó extasiava o menino, que parecia sonhar nas fantasiosas narrativas de Dona Eufrosina. De lápis e papel na mão, Carlinhos então fazia seus rabiscos, sempre incentivado pela avó. Na então bucólica Praça Eduardo Fróes da Mota, a bola de meia ou de borracha não o atraía. Aos 15 anos, deu o "pontapé" inicial na carreira artística com o quadro, na técnica óleo sobre tela, "Apreensão", que soava estranho para um adolescente já qualificado como talentoso e promissor. Talvez estivesse em seu íntimo a ausência do pai, Antônio Cassiano Barbosa, cuja morte em acidente de carro entristecia sua mãe, dona Judith Simões de Oliveira Barbosa, e toda a família.

Aos 20 anos, fez a sua primeira mostra individual, no Salão Nobre da Prefeitura de Feira de Santana, reunindo obras com diversas temáticas, dentre elas casarios, marinhas, paisagens e cenas de convívio familiar. No total, foram 18 exposições individuais e 30 coletivas. Morou pouco tempo em Salvador e, logo após, de forma corajosa, trocou a progressista, mas ainda provinciana, Feira de Santana, a família e os amigos pelo Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa, que, para jovens artistas, assim como ele, era fundamental para abrir as portas do sucesso.

A temática da fé religiosa estampada no ambiente nordestino, tão oposto ao viver citadino no Sudeste, então bem mais evoluído, não passou despercebida por críticos e artistas conhecidos. O jovem baiano entrou na pauta com indiscutível reconhecimento. Anjos, santos e Jesus Cristo povoavam a sua cabeça, o que era perfeitamente concebível para um jovem de boa formação religiosa, oriundo de uma cidade interiorana. Mas, ao lado da inspiração, estava a qualidade do seu traço, que registrava com propriedade a ambientação. A fé, a coragem e o sofrimento, comuns à vida do sertanejo, muito mais intensos na época, eram retratados de forma expressiva. Apesar da sua devoção, não deixou passar em branco o sincretismo religioso da Festa de Senhora Sant'Ana, por meio da lavagem da igreja e de outros atos que historicamente dela fazem parte.

Usar lápis e pincéis, indo além da pintura, como um artesão da história de sua terra, parece ter sido uma das missões de Carlo Barbosa, talvez de forma inconsciente, guiado pela força da espiritualidade, difícil de mensurar por sua imaterialidade. O desmatamento e a poluição das águas, que hoje já não se tratam de ameaças futuras à humanidade, pois estão cada vez mais presentes, foram algumas das suas preocupações codificadas em telas, como faria um "anjo anunciador". Comentar a arte, comentar a vida, talvez seja fácil para quem se dedica, especializa-se ou, como um artista, nasce vocacionado. Mas aqui busca-se o registro de um feirense que viveu ao seu modo, no seu mundo, fazendo aquilo de que gostava e sabia fazer. Muitas das suas telas estão espalhadas por museus e residências de admiradores e reconhecedores do seu trabalho. Aqui, em sua terra natal, há uma sala a referenciá-lo no Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA). O mês de junho assinalou 38 anos de ausência física do artista Carlo Barbosa.

Por Zadir Marques Porto



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