LUCAS DA FEIRA

19/2/2016, 15:57h |

Lucas Evangelista foi enforcado no dia 25 de setembro de 1849. Há 40 anos, em 26 de setembro de 1976, o advogado, professor, jornalista e historiador Helder Alencar, aproveitando a data, publicou no Caderno de Domingo do Jornal Feira hoje o artigo "Lucas da Feira: 127 depois do enforcamento", uma preciosidade que vale a pena ver de novo:

No dia 25 de setembro de 1849, em patíbulo armado no local onde hoje se ergue o Cine Iris, Lucas Evangelista dos Santos, famoso Lucas da Feira, era enforcado, após ser processado e julgado, por crimes que cometeu e por crimes que não cometeu.

Lucas é um incompreendido. Os racistas do passado, aliados aos segregacionistas do presente pretendem, a todo custo, destruí-lo. Ele, porém, ficou e os seus detratores não existem. Lucas permanece na história; os que o combateram morreram no dia do falecimento. Lucas aí está, estudado, pesquisado, com citações até na Enciclopédia Delta Larousse.

Lucas, longe de ser o bandido, é o símbolo da luta da raça negra contra a mais degradante das escravidões: a opressão racial. Lucas está vivo, cada hora mais. A sua vida foi uma legenda e a sua memória vai sendo reabilitada, para que as gerações do presente e do porvir saibam da sua verdadeira história, conhecendo o seu aspecto humano, história inteiramente diferente desta que é contada por aí e que tem o intuito de deturpar e obscurecer aquele que foi, indiscutivelmente, um bravo lutador em defesa da raça negra, Lucas Evangelista dos Santos, o famoso e injustiçado Lucas da Feira

A época era de trevas. A escravidão imperava. As leis beneficiárias dos escravos ainda viviam na mente clarividente de alguns. Os negros eram vítimas, então, do ódio e da vingança.

Filho de escravos, escravo também seria Lucas, quando veio ao mundo em 18 de julho de 1807, no Saco do Limão, freguesia de São José, ao sul do Município de Feira de Santana.

Nascido de Inácio e Maria, dois escravos gêges, Lucas seria escravo até o dia em que resolveu se libertar. Sair pelo mundo.  Lutando por uma raça. Ajudando seus irmãos de cor. Protegendo os pobres. Amparando os miseráveis.

Escravo de dona Antonia Pereira do Lago, rica proprietária na Feira de Santana, passaria, por morte desta, a pertencer a seu sobrinho, o padre José Alves Franco, para, finalmente, com o falecimento do vigário, ficar cativo ao alferes José Alves Franco.

Havia em Lucas a sede da liberdade. Não nasceu para ser escravo. Para viver preso a ninguém.

Menino ainda foi aprender o ofício de carpina, por determinação do padre José  Alves Franco. Levou pouco tempo.  Já aos 20 anos se libertaria.

Assim como Lampião, Lucas não foi um criminoso   comum, nem um assassino frio, nem o terrível e famigerado bandido negro.

Pelo contrário, foi levado ao crime e ao roubo por uma questão de sobrevivência.

Escravo e analfabeto, sem meios para se manter, perseguido por ser negro, aspirando ser livre, Lucas, que, a princípio, matava bichos para alimentar-se enveredou pelo crime.

Diz Melo Morais Filho que dois sentimentos bons possuía Lucas: caridade e gratidão.

E quem alimenta a gratidão e realiza caridade não pode ser tão famigerado e tão bandido. Teve Lucas o seu lado de humanidade, no amparo à pobreza ou no auxílio aos necessitados.

Todos os dias  iguais. As manhãs, as mesmas. Analfabetos e escravos. O cativeiro dominava os negros. Se hoje, com todo desenvolvimento da tecnologia e da civilização, ainda vemos resquícios de segregação racial, imaginemos àquela época, meados do século XIX, quando os negros eram coisa e não gente, propriedade dos senhores de terra, usando-os como pedaço do seu patrimônio, vendendo, trocando, matando.

Eram os senhores de terra, formadores da aristocracia feirense, os donos da riqueza. Controlavam, em decorrência disso, todas as decisões e o poder enfaixava-se em suas mãos.

Trinta por cento era a percentagem de escravos na população de Feira de Santana. Sem direitos, mas com deveres. Seu preço, preço de um ser humano, variava entre cem mil-réis e um conto de réis.

Esse panorama encontrou o escravo Lucas Evangelista. Inteligente, revoltado, com capacidade de liderança, não poderia conformar-se com a situação de opressão e desgraça em que vivia a sua raça.

"Negro superior com qualidades de chefe", como bem afirmou Nina Rodrigues, Lucas tornou-se  um homem diferente da maioria dos negros. Não se amoldou as circunstâncias, nem se adaptou ao regime escravocrata.  Reagiu e lutou liderando um bando.

A sua  revolta não nasceu de um ato individual. A sua luta teve um sentido coletivo e social na defesa  de um raça, a sua raça, na redenção dos negros.

E justamente por isso Lucas não morreu. Está aí, desafiando mais de um século, cantado pelos poetas do povo, analisado em tantas obras.

Trinta homens, somente trinta, compunham o seu bando, onde despontava Nicolau, Flaviano, Bernardino, Januário, José e Joaquim. Todos negros. Todos escravos, fugidos com ele.

A sua luta, sucessiva e incessante, passou a incomodar os senhores de terra. Os escravos viam em Lucas o líder, o salvador, o protetor.

Trataram então de unir-se contra ele. Lucas tinha que morrer. Teria que ser morto como exemplo, para que outros não seguissem o seu caminho.

A perseguição foi cruel e intensa. Lucas pulava de esconderijo em esconderijo. Seus companheiros iam sendo presos, espancados,  mortos. Sofriam toda espécies de atrocidades.

O primeiro foi Nicolau, o mais íntimo. Preso, junto com outro companheiro foi morto. Os corpos entregues a um grupo de pessoas que os queimou em fogueiras armadas nas ruas de Santana da Feira.

Vieram os outros, um por um. Impiedosamente mortos. Cada qual de uma maneira mais estúpida.

Nada, porém, satisfazia. Era preciso capturar Lucas. Cazumbá, oficial de Justiça, compadre do bravo negro, condenado, conhecia o esconderijo. Foi-lhe proposto o perdão em troca da delação.

E a caça começou naqueles dias quentes de janeiro de 1848. Policiais e figuras outras da cidade, guiados por Cazumbá,  buscavam Lucas  nas matas de San'anna da Feira.

Atiravam para todos os lados e em todas as direções. Lucas resistia bravamente, escondido no fundo da Fazenda Tapera, junto ao Poço do Gurunga. Enfrentava centenas. Era a luta de um contra todos.

Uma bala quebra-lhe o braço, minando-lhe as forças. Lucas prossegue a sua fuga desesperada. Embrenha-se nas matas. Corre, luta, resiste. Tenta sobreviver. É a luta solitária. Traído pelo amigo e compadre.

A prisão estava eminente. Lucas já não tinha forças. Sangrava. Estava ferido. Braço quebrado, escoriações  generalizadas. Os dias passavam.

Os policiais, comandados por Cazumbé e Benedito (outro amigo de Lucas) prosseguiam a busca que durou até 28 de janeiro. Lucas é finalmente preso e levado ao centro da cidade.

Bailes organizados. Os sinos das igrejas replicaram festivamente.  Fogos de artifícios cruzaram os céus. Passeatas foram às ruas. Eram os escravocratas comemorando a prisão de um grande negro.

Do outro lado, entretanto, lágrimas eram derramadas. Choravam os que tinham sido protegidos  por Lucas. E quanta gente ele protegeu.

Cazumbá, que com um tiro quebrara-lhe o braço, alcançara o perdão e ainda recebe dinheiro e presentes. Lucas seguia para a prisão, depois de interrogado  por Inocêncio Marques de Araújo Góes, futuro Barão do Desterro.

Submetido a exames médicos, o laudo foi pouco revelador, mas mostra todos os ferimentos, todos os tiros, todas as escoriações de que fora vítima.

Julgado nesta Vila, a 1º de Março de 1948, foi condenado à pena de morte, ao enforcamento. Necessário se fazia a ratificação da pena na Capital do Estado. Para lá removido, Lucas fica trancafiado na fortaleza de Santo Antonio Além do Carmo.

Ia longe a fama de Lucas. O seu nome deixava os limites do Estado e o Imperador  D. Pedro II  demonstrou desejo de  conhecê-lo. Levado secretamente à então Capital da República, pode D. Pedro II satisfazer a sua curiosidade.

A cena foi assistida, então, por uma garota, a futura Princesa Isabel, que, anos mais tarde, talvez comovida e impressionada pelo estado de tortura, assinou a Lei Áurea, libertando os negros brasileiros.

Com o braço amputado, abatido e enfermo, Lucas aguardava o instante final de subir à forca para a alegria dos senhores de terra, ricos proprietários em Santana da Feira, fidalgos e aristocratas, a quem o negro escravo, bravo como ele só, valente como poucos, corajoso como quase ninguém, incomodou durante toda existência, não dando trégua nem paz aos que  perseguiam e amaldiçoavam seus irmãos de raça, companheiros de cor.

Lucas Evangelista dos Santos, real e lendário, herói de uma época de trevas, personagem de uma noite sem estrelas, figura lendária de tempos de opressão e horror, permanece vivo. Vemo-lo em cada ser humano que ele, com sua luta, ajudou a libertar, rompendo as correntes escravocratas.

Meigo e terno com as crianças, fiel aos seus amigos, leal aos que souberam entender a sua predestinação, Lucas da Feira é um símbolo de uma era apavorante e estúpida, cruel e miserável.

Manhã de 25 de setembro de 1849. As ruas estão repletas. Veio gente de toda a redondeza. Era o último ato. O cortejo estava formado. Policiais armados, os carrascos à frente, padre José Tavares, vigário da freguesia, e dois franciscanos ao fundo, Lucas no meio de todos, puxado pela corda, como se estivesse arrastando um animal.

O patíbulo estava ali armado. No fim da hoje Avenida Senhor dos Passos, onde se ergue o Cine Iris. Vai Lucas cumprir a última etapa de sua vida, em defesa dos negros e dos escravos, dos desprotegidos e dos desamparados. Fala ao povo, pede perdão. Seu corpo é sepultado na Igreja Matriz, hoje Catedral. Sua cabeça segue para estudos em Salvador.

Enforca-se Lucas, Uma  nuvem de gafanhotos está sobre a Feira de Santana, sobre esta Feira de Santana e tantas coisas.

(Adilson Simas)